18 de dezembro de 2017
Café
5 de dezembro de 2017 - 16:28

Notas de viagem

De regresso ao Brasil, Hélio Casale conta detalhes técnicos de sua viagem à Nicarágua, na América Central, e do curso (sobre café, obviamente) que ele deu a agrônomos daquele país na região de Matagalpa.

Hélio Casale

A convite de uma grande empresa local, a Mercon, estive recentemente na Nicarágua para efetuar um treinamento do pessoal técnico, todos engenheiros agrônomos (38), que atendem tecnicamente os cafeicultores, lhes repassando técnicas, insumos e comparando a produção. A Mercon é empresa familiar que está presente no Brasil (Varginha), EUA, Holanda, Espanha, Panamá e Vietnã, comercializa cerca de 4,1 milhões de sacas de café anualmente. Paralelamente, a Mercon tem a Transplanta empresa iniciada em junho de 2016 e que já comercializou mais de 4 milhões de mudas de café. Para o ano serão 6 milhões de mudas em substrato especial envolto em bolsa de papel rendilhado vindo da Dinamarca. Atividade de primeiro mundo.

A República da Nicarágua localiza- se na América Central, hemisfério norte, pouco acima da linha do Equador. O território é um dos maiores da América Central, são cerca de 130.000 km², divididos em 15 Departamentos em duas grandes regiões autônomas, a do Atlântico Norte e a do Atlântico Sul. Em vários pontos do país existem, bem demarcadas, várias Unidades de Preservação Permanente.

A atividade produtiva do país está voltada para o setor primário, sendo a agricultura a principal fonte de receitas. Na agricultura, os principais produtos que cultivam são: café, algodão, arroz, milho, banana, cana-de-açúcar, cítricos, abacaxi, mandioca, feijão. Na subida para a área cultivada com cafeeiro, muitas áreas plantadas com verduras, hortaliças e flores, estas cultivadas debaixo de estufas recobertas com plástico leitoso.

O que não falta por lá é chuva, pois anualmente caem mais de 3.000 mm bem distribuídos, concentrados entre maio e outubro.

Solo

O solo tem alta fertilidade natural, fator ocasionado pela interferência vulcânica que frequentemente expele sedimentos que vão sendo depositados na superfície. Os vulcões estão mais concentrados acima e a oeste de Manágua, próximos à costa do Pacífico.

O centro de nossas atividades foi Matagalpa, uma bela cidade, que dista 130 km de Manágua. Nas cercanias, os cafezais estão acima de 1.000 metros de altitude. Saindo de Matagalpa, até chegar à região cafeeira, seguimos por boa estrada asfaltada.

Saindo dela, as vicinais têm o piso todo com pedras, o que permite o trânsito com qualquer regime de chuvas.

Dentre os veículos de transporte, os Toyota, tipo Hilux, são os preferidos. Os técnicos, em sua maioria, andam em potentes motos, o que lhes permite chegar fácil aos locais de acesso mais difícil na altitude.

Ao lado das estradas, casas bem conservadas, sem grades nas portas e janelas, com jardim na frente, pintadas com cores vibrantes. Luz elétrica e telefonia são serviços que não faltam. As casas das sedes das fazendas são de muito bom gosto, rodeadas de jardins com plantas bem diversificadas, sendo que a maioria dessas plantas tem por aqui também. As casas dos empregados e os alojamentos para os temporários também são bem conservadas, com limpeza nos arredores. As pessoas, tanto da cidade como as que moram nas fazendas, se mostram alegres, bem-vestidas, educadas. Comida nas fazendas é muito bem-feita, variada, cheirosa, com ótimo paladar.

Uma coisa chama a atenção – as casas não têm grades, mas nos arredores das sedes e dos centros administrativos das fazendas, sempre se vê funcionários fardados de roupagem azul e branco, carregando uma bela escopeta a tiracolo. Certamente devem existir espertinhos por lá também, mas o índice de criminalidade é muito baixo.

Escolas por todo lado. Alunos uniformizados e com aparência saudável. No pátio das escolas, a bandeira da Nicarágua está sempre hasteada.

A topografia é declivosa e, apesar do alto regime pluviométrico, observa- se pouca erosão laminar. Chamei a atenção dos participantes para a necessidade de controlar a erosão, chamando- a de sutil, pois reduzida essa fertilidade natural, o custo da reconstrução da fertilidade desses solos será enorme, para não dizer, proibitivo. Não tem nenhum centro de pesquisas para a cafeicultura no país. Abastecem-se mais intensamente de tecnologias na Guatemala e Colômbia. A produtividade nacional ainda está regular, mas pretendem melhorá- la rapidamente.

As lavouras em geral são implantadas sem obedecer a alinhamento em nível e árvores de sombra nativas ou exóticas estão por todo lado. Algumas poucas áreas com plantas quebra-ventos. Nas lavouras de café, observei que cuidam da manutenção das plantas com desbrota de maneira a obter um IAF – Índice de Área Foliar próximo de 10.000 hastes verticais, ramos ortotrópicos, por ha. Poda após a colheita é prática generalizada. A mais empregada é a recepa.

Os matos das entrelinhas são controlados com o machete – facão – e parte com herbicidas, sem deixar marcas nas plantas, mesmo que indeléveis.

A adubação é feita duas a três vezes ao ano, sem base em análises de solo indicando as necessidades. No visual, terra gorda, com muita matéria orgânica, adubação generosa com base na experiência, e plantas com folhas de tamanho exagerado, indicando presença alta do N, principalmente, o que deve interferir nas relações N/P, N/K, N/S, N/B, N/Cu. É conferir para ver.

Ensinamentos

Ao aplicar os adubos, fazem um risco no solo, pela parte de cima das plantas, cortando as raízes superficiais com um gancho de madeira natural, e que chamam de “garabato”. Alertei para que abandonem essa prática, fazendo a seguinte comparação: antes de iniciar uma bela refeição, passe um garfo com pontas bem afiadas na língua, a ponto de atingir as veias que a irrigam, e logo depois comecem a comer. Por outro lado, por que não colocar os adubos superficialmente em todos os lados das plantas evitando a adubação seletiva? Ninguém contestou.

Análises do solo são feitas esporadicamente, enviadas para a Espanha, e as de folhas, não as fazem. Fartura é isso aí.

Pragas não são observadas. Uns poucos formigueiros da quém- -quém. Das doenças, a ferrugem ainda não chegou por lá. Apenas pequena incidência do Phoma.

A colheita é toda manual e grão a grão. A degomagem e secagem são feitas na cidade. Poucas fazendas fazem, principalmente as grandes. Secadores horizontais (Pinhalense) e terreiros onde os grãos são esparramados durante o dia e cobertos em pequenos lotes nos finais de tarde. Nesses terreiros a mão de obra é muito grande, os trabalhadores se locomovem com lentidão, quase parando.

Durante o treinamento cuidamos de dois temas principais: Perfil do Profissional de Agronomia e Diferentes Manejos para Sustentabilidade – manejo dos matos, manejo da água, das plantas e da fertilidade.

Durante o dia dos treinamentos fizemos três intervalos, e logo após e antes de reiniciar foi aplicado um teste com 10 questões para avaliar o grau de compreensão. No final, a tabulação dos testes mostrou uma eficácia de 98% de acerto nas respostas. Isso, graças ao interesse do pessoal, que anotava num caderninho as informações principais. Um comportamento raro.

Nos poucos dias, nas poucas horas de convívio com os nicaraguenses, pude sentir o valor do quanto podemos dividir e também o quanto ainda podemos aprender.
 

Fonte: Agro DBO 95

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