21 de fevereiro de 2018
Política Agrícola
2 de fevereiro de 2018 - 15:34

O desafio das exportações

Pedro Abel Vieira e Elísio Contini partem de dois conceitos relacionados à "reputação" de um produto do agronegócio - qualidade e diferencial - para falar de barreiras no comércio internacional.

Pedro Abel Vieira1 e Elisio Contini2

Tratamos de duas formas básicas de “reputação” para produtos do agronegócio: qualidade e diferencial. Qualidade compreende atributos de valor relacionados à saudabilidade (nutrição e saúde), sabor, conveniência, e, principalmente, ausência de contaminantes que comprometam a saúde dos consumidores. A diferenciação indica agregação de valor a um produto em relação a potenciais concorrentes, como denominação de origem e certificações. Um exemplo clássico é o espumante Champanhe, cujo valor de mercado é superior aos demais concorrentes.

Se o produto, principalmente alimento, carece de “reputação”, o mercado tende a rejeitá-lo e/ou reduzir seu preço. Os produtos do agronegócio têm bom conceito no mercado interno, não só pelo preço, mas também pela qualidade. Um bom exemplo é a preferência de frutas nacionais frescas, em relação às importadas, destacando- -se o caso da maçã. O consumidor brasileiro dá preferência pelas carnes nacionais, como a de frango e bovina, em relação às importadas. As importações atendem mais a nichos de mercado, a grupos de renda mais elevada. Um caso emblemático é a dos vinhos, em que os importados têm preferência de muitos consumidores, devido às limitações da produção nacional em termos de quantidade e também qualidade e conceito. Reconhecem- se progressos realizados pela enologia nacional nos últimos anos, mas insuficientes para demonstrar atributos de qualidade e diferenciação.

O foco deste artigo é a análise do conceito de reputação para as exportações e para a conquista de novos mercados externos. Reconhece- se que o Brasil diversificou a pauta de exportações em termos de número de produtos. Lá se vai o tempo em que as exportações dependiam apenas de café, açúcar e cacau; hoje, a pauta é diversificada em termos de produtos e destinos, dando maior estabilidade à geração de divisas. Além do café e açúcar, o país é líder nas exportações de suco de laranja, soja, carnes de frango e bovina, e segundo lugar em milho e óleo de soja. As receitas obtidas baseiam-se em quantidades exportadas, em alguns casos abaixo dos preços de competidores importantes, como no caso da carne bovina.

O Brasil construiu um pujante setor agrícola numa primeira fase voltado ao abastecimento interno e posteriormente também para as exportações. A farta disponibilidade de recursos naturais, como solo, água e clima apropriados à produção vegetal e animal o capacitará para aproveitar oportunidades de negócios no suprimento de necessidades de abastecimento a países de crescimento populacional e de renda no futuro, como China e Índia. Aliás, o crescimento da produção interna só será exitoso na demanda externa, como provam as exportações de inúmeros produtos importantes, destacando-se a soja, o milho e as carnes. Sem demanda externa, a produção recuará e, num primeiro ajuste, os preços se reduzem a valores bem inferiores aos custos de produção. Um desastre para a agricultura e o agronegócio brasileiro. Para dar um exemplo de produto ainda não integrado ao comércio internacional, estudo recente da Embrapa sobre o leite mostrou que o aumento de 1% na produção, sem possibilidade de exportação, acarreta uma redução de 5% nos preços internos, porque há oferta maior. A recente redução nos preços do leite ao produtor comprova esta tese.

A primeira ação para a construção de reputação (positiva) dos produtos agrícolas do Brasil é neutralizar as percepções negativas no exterior. Duas dessas percepções são disseminadas em muitas partes do globo: a questão ambiental, com forte apelo contra o desmatamento, principalmente na Amazônia; e a questão social, consubstanciada na ideia que a agricultura brasileira utiliza ain da trabalho escravo. Verdades ou meias-verdades, estas questões podem afetar tanto as quantidades exportadas como o valor dos produtos.

A barreira ambiental já vem sendo enfrentada com maestria pelo setor agrícola do Brasil. O Código Florestal Brasileiro garante que o setor privado preserve, no mínimo, 20% dos biomas naturais. Além dessa questão inédita no mundo, há sistemas agrícolas integrados, uso de microrganismos em substituição a produtos químicos, plantio direto etc., possibilitaram nos últimos 10 anos que a pecuária do Brasil reduzisse a emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE) por t de carne produzida a uma taxa de 4,5% ao ano. A Figura 1 demonstra que enquanto a produção de carne cresceu, passou de 2,83 milhões de t em 1990 para 7,49 em 2015, ou seja, aumentou cerca de 2,7 vezes, a emissão de GEE pela agropecuária e decorrente da fermentação entérica dos bovinos aumentaram 47,9% e 38,8%, respectivamente (Vieira Filho et al, 2017).

Na questão ambiental, a agricultura do Brasil tem posição confortável em relação à realidade de países como EUA, Argentina e Canadá. A despeito de alguns problemas, como o desmatamento, o Brasil dispõe de tecnologias, sistemas de produção, políticas públicas e instituições que garantem a sua boa reputação ambiental. Não por acaso, a participação do Brasil na Conferência das Partes para Mudança do Clima (COP 23) realizada durante o mês de novembro de 2018 na Alemanha, atraiu a atenção dos participantes.

Outra barreira que competidores alegam contra os produtos do agronegócio brasileiro está no campo social, em especial na suposta existência de trabalho escravo. Notícias localizadas de fatos isolados com divulgação espalhafatosa pelos meios de comunicação têm contribuído para aumentar essa percepção junto a grupos formadores de opinião nos países desenvolvidos. Não há como negar a ocorrência de alguns problemas pontuais nas relações de trabalho no meio rural, em face das dimensões do país e das dificuldades de fiscalização por parte de órgãos competentes. Por outro lado, é inegável que o Brasil dispõe de legislação trabalhista moderna e instituições suficientemente sólidas para gerar um ambiente trabalhista seguro e invejável quando comparado aos seus principais concorrentes agrícolas.

No campo do comércio internacional, a prioridade de órgãos do governo federal e da iniciativa privada deve ser focada na construção de reputação (positiva) dos produtos do agro brasileiro. A prática do comércio internacional ensina que a boa imagem dos produtos agrega valor. Naturalmente, não é uma dádiva, mas uma construção de longo prazo, envolvendo etapas e ações de inúmeras instituições, iniciando pela produção de dados e informações que suportem as discussões e campanhas de comunicação. As negociações internacionais embasadas em estudos e fatos constituem- se em poderoso instrumento para a construção dessa imagem positiva. Lamentavelmente, alguns esforços de acordos multilaterais, a exemplo da Rodada do Uruguai, fracassaram. O Brasil ficou à margem dos grandes acordos regionais, amarrado pelo inoperante Mercosul. Espera-se que os novos governos na região dinamizem os acordos em negociação, como o da União Europeia.

Mas nem tudo está perdido. Há possibilidade de acordos bilaterais, como ação de governo, para facilitar e dinamizar as exportações, principalmente de alimentos. O Ministério da Agricultura está atento ao que vem ocorrendo, realizando missões com o objetivo de não perder mercados conquistados e abrir novos. Cabe ao setor privado atenção especial à qualidade dos produtos exportados e, num estágio posterior, lutar também para agregar valor via diferenciação: frutas e frangos brasileiros valem mais! O desafio está posto: construir reputação, via qualidade e diferenciais, para os produtos do agro brasileiro. Depois, quando se conquistar isso, virá a fase de fiscalização dos próprios produtores de seus pares, para manter a qualidade e diferenciais do que é produzido.
 

Fonte: Agro DBO 96

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