21 de fevereiro de 2018
Reportagem de capa
2 de fevereiro de 2018 - 14:17

Fim do tabu?

Ministério da Agricultura abre consulta pública para regulamentar misturas de agroquímicos em tanques, prática comum nas fazendas, mas "irregular" -- é legal, mas não pode ser recomendada em bulas e receituários.

Ariosto Mesquita

Próximo ao galpão da sede da Fazenda São José, em Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul, um pequeno depósito acomoda dezenas de recipientes com agroquímicos de diferentes fabricantes, a maioria empresas multinacionais atuantes no mercado brasileiro. Dali, o agricultor Luciano Cargnin Manfio retira o que precisa entre herbicidas, inseticidas, fungicidas, faz o teste da jarra (para avaliar a compatibilidade física e química dos produtos escolhidos antes do preparo da calda), adicionando óleo mineralizador (para homogeneizar a calda e facilitar a absorção pelas plantas) à mistura, com a qual pulveriza suas lavouras de soja e milho, protegendo-as do ataque de lagartas e fungos e da infestação de plantas daninhas.

Manfio integra o rol de 97% dos agricultores brasileiros que, habitualmente, misturam agroquímicos em tanques em suas fazendas para controlar doenças, pragas e espécies invasoras, cujas infestações, muitas vezes, ocorrem simultaneamente em uma mesma área agrícola – nesse caso, a alternativa de controle mais econômica e, por isso, largamente usada, é a pulverização de agrotóxicos misturados em tanque. Este percentual consta de estudo publicado em 2015, realizado pelo pesquisador Dionísio Luiz Pisa Gazziero, da Embrapa Soja, com base nas respostas de 500 de um total de 5 mil questionários enviados a produtores e profissionais do setor, tanto da área privada quanto governamental, em 17 estados brasileiros. Mas basta apresentar este número à comunidade agrícola, sobretudo ao pessoal da área técnica, para invariavelmente se ouvir a observação: “Eu desconheço a existência dos outros 3%”, dizem, irônicos.

Legislação dúbia

A mistura em tanque para aplicação a campo é considerada procedimento trivial e necessário nas lavouras brasileiras, sobretudo com o aumento da resistência de insetos e plantas daninhas a determinados agroquímicos, com a chegada de novas pragas e infestações simultâneas de espécies invasoras, doenças e pragas. No entanto, ainda é assunto pouco discutido, carece de subsídios técnicos e é tratado como uma espécie de tabu entre agricultores, técnicos e empresas detentoras dos produtos químicos. Segundo o Mapa – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, não é proibido ao produtor preparar e aplicar as misturas nas fazendas. No entanto, a legislação impede que o procedimento conste em bulas ou seja prescrito por agrônomos. Diante deste contrassenso, a prática ganha ares de clandestinidade. Alguns segmentos do agronegócio a veem como tabu. No mínimo, é tratada com cautela, às vezes excessiva. Entre as empresas multinacionais de insumos procuradas pela reportagem da Agro DBO, nenhuma atendeu o pedido de entrevista. Algumas, sequer deram retorno. Outras se manifesta ram através de suas assessorias de imprensa. Apenas uma (Dow AgroScience) defendeu, através de nota, a manipulação de produtos de acordo com as informações apresentadas nos rótulos e nas bulas, “como prevê a legislação”. A Andef – Associação Nacional de Defesa Vegetal, entidade que reúne as grandes empresas de insumos agrícolas em operação no Brasil, declarou que é favorável à regulamentação de misturas em tanque, mas não se posicionou sobre a prática nas fazendas. A entidade informou que está avaliando a consulta pública proposta pelo Mapa e que tomará uma posição final alinhada com o Sindiveg – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, “uma vez que se trata de um tema setorial”. A reação não é muito diferente em determinados organismos de pesquisa, grupos de agricultores, associações e federações de agricultores.

A matéria completa está na edição de fevereiro da Revista Agro DBO. Assinantes também podem lê-la na edição digital.

Fonte: Agro DBO 96

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