21 de fevereiro de 2018
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13 de fevereiro de 2018 - 09:11

É hora de precisão na agricultura

Entrevista com João Kluthcouski, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Cerrados

O engenheiro agrônomo João Kluthcouski, mais conhecido como João K, é desde sempre uma das estrelas da Embrapa, onde trabalha como pesquisador científico desde 1974, atualmente lotado na Embrapa Cerrados. Nascido em Apucarana (PR), em 1950, graduou-se na Universidade Federal Eliseu Maciel, em Pelotas (RS), em 1973, tendo a química de solo como especialidade. Mais tarde, abraçou a fitotecnia e fez doutorado na USP. As duas expertises o levaram para desenvolver pioneiramente a ILPF – Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, na Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), da agropecuarista Marize Costa, projeto e sistema que hoje é a maior referência nessa inovação, e que se soma a outros sistemas, conhecidos como Santa Fé, Santa Anna, Vacaria, Barreirão, todos eles projetos com especificidades próprias e que adotaram os nomes das fazendas onde foram realizados. Outras ideias brotaram daquela semente.

João K, reconhecidamente, é um dos pais da ILPF. João K tem 4 filhos (dois são médicos, um terceiro é advogado e também agrônomo, e o caçula, com síndrome de Down, já está na faculdade), é corintiano desde que se lembra, e seu hobby é o artesanato em madeira. Continua trabalhando na Embrapa, mesmo tendo sofrido um AVC sem consequências pouco antes de se aposentar, há dois anos. Foi na condição de “indutor da felicidade das pessoas”, como se autoqualifica, que ele concedeu entrevista para Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, quando desfilou um pacote de críticas construtivas ao que se faz de errado no manejo das lavouras na agricultura brasileira, questão que João K sintetiza na frase que dá o título desta matéria, de que é hora de termos precisão na agricultura.

Agro DBO – Mesmo depois do AVC você continua acompanhando os projetos de ILPF que implantou?
João K – Quando alguém me chama eu vou. Não fico mais presente o tempo todo e não carrego mais saco de adubo, mas dou ideias, corrijo detalhes.

Agro DBO – Como você qualifica o projeto Santa Brígida?
João K – Foi e continua sendo um absoluto sucesso e deu inúmeros frutos, além de muita repercussão. A então secretária da Agricultura de São Paulo Mônika Bergamaschi, foi lá conhecer o projeto e depois iniciou o Integra São Paulo. Já o ministro Mangabeira Unger, lá mesmo, deu a ideia do Programa ABC – Agricultura de Baixo Carbono. E o presidente da John Deere, Paulo Herrmann, um apaixonado pela ILPF, criou a Rede de Fomento em parceria com diversas empresas e a própria Embrapa para difundir pelo Brasil adentro o novo sistema. Naquela época o Arenito de Caiuá deu início à sua recuperação, através da liderança e entusiasmo do Luiz Lourenço, da Cocamar, e hoje aquilo é uma beleza de área recuperada pela ILPF.

Agro DBO – Mas a ILPF não é solução para todos os problemas da agricultura. Há problemas agronômicos importantes que estão correndo livres, como o nematoide no cerrado. Como você vê isso?
João K – Ai, ai, ai, meu Deus do céu, você só vem com pergunta difícil, né? Não conheço bem o problemão do nematoide, mas o que tem sido feito de errado é a sucessão repetitiva do plantio de soja e milho, na safra e safrinha. Isso empobrece o solo por falta de matéria orgânica. Nematoide é um forte, ele é um “sobrevivente” de outros organismos que vivem em harmonia no solo equilibrado, e ele só prolifera e se torna predominante em solos pobres em matéria orgânica. Tem que promover palhada, matéria orgânica em quantidade, para reduzir o nematoide. A natureza se ajusta sozinha, mas podemos dar uma mãozinha para ela. Eliminar é quase impossível, mas podemos conviver bem com o problema. A Braquiária, por exemplo, diminui a incidência do Pratylenchus, que é o pior dos nematoides, nem as variedades resistentes de soja da Embrapa conseguem resistir ao Pratylenchus. Então, por que não se planta a Braquiária em rotação à soja e ao milho? Isso é teimosia do produtor e dos técnicos, para não mudar? É comodidade? Ou é falta de informação?

Agro DBO – O produtor é adepto dos modismos?
João K –
Também é. Veja, hoje em dia é moda a agricultura de precisão. Ela é o novo, o que surpreende, é a semente transgênica, e vai todo mundo nessa estrada. Nós temos é que ter mais precisão na agricultura, pois até a agricultura de precisão seria mais bem utilizada e aproveitada, traria melhores resultados do que tem trazido. Temos que utilizar a tecnologia do capricho. É a convencional, com os insumos e máquinas. A tecnologia do capricho é fazer na hora certa, na dose certa, no momento certo. Olha só, a maioria das nossas lavouras são em áreas planas. O produtor não sabe nem fazer a semeadura do milho ou da soja no sentido Leste a Oeste, quando ele produziria mais, por causa da maior insolação. Outro exemplo é a plantadeira, que tem inúmeros parafusos e molas, mas a maioria descarrega a máquina do caminhão e põe para trabalhar na lavoura, sem nenhuma regulagem ou aferição. Por isso vemos os plantios mal feitos, irregulares. Outro ponto é a salinização por adubo. O adubo mineral é um sal. E sal não combina com vida, ele é esterilizante. Ele queima a semente e abre espaço para entrar fungos, bactérias e tudo o mais. O adubo tem que ser ao lado, ou mais no fundo, e não junto com a semente. Como não se regula a plantadeira, sai tudo errado Da mesma forma a calagem, que acho uma prática amadora no Brasil. Estamos fazendo a calagem só na superfície do solo, joga-se o calcário e passa a grade. Tá errado isso. Nós temos que procurar o perfil do solo, a raiz da planta tem que ter espaço para se desenvolver. Raiz é como a gente, a gente come e se sente satisfeito, e para de comer. A raiz é igual, ela come o que tem e para de crescer. A raiz é a boca da planta. Imaginemos nós sem os dentes, como vamos mastigar? Nós fazemos calagem errado, tem que ser no perfil, tem método pra isso, o produtor tem que se informar melhor, o calcário tem pouquíssima mobilidade no solo. E o nosso perfil de solo é muito superficial, nos dois sentidos da palavra. É necessário repensar tudo, fazer subsolagens, aprimorar o trabalho, e isso vale até mesmo para pesquisadores e consultores.

Agro DBO – Produzimos bem porque os nossos solos são bons?
João K –
Em alguns casos, sim, mas os nossos solos andam muito compactados ou adensados, talvez mais de 90% das áreas de nossas lavouras. Tudo isso porque não temos palha no plantio direto. A circulação das máquinas nas áreas de lavoura já cria o adensamento, e ninguém dá bola pra isso. O nosso plantio direto é praticamente sem palha, não dá pra gente se vangloriar com o plantio direto, pois ele é meia boca. Tudo isso prejudica o sistema radicular das plantas, que é uma coisa difícil e complexa. E dá trabalho fazer isso, mas precisa ser feito. A raiz de uma planta é muito mais indicadora de saúde da planta do que análises de solo.

Agro DBO – O que mais prejudica o desenvolvimento das raízes?
João K –
O solo ácido, é claro, com presença alta de alumínio, e a compactação. Mas a velocidade de semeadura é importante nesse processo. Tem gente que compra uma semeadeira para plantar 500 hectares. Ele não sabe a velocidade ideal, e à medida que se acelera o trabalho se desorganiza toda a regulagem dos sulcadores, de profundidade de trabalho da máquina. Vira tudo uma anarquia que não é percebida pelo produtor, e cai a produtividade.

Agro DBO – O campeão do CESB deste ano plantou a 6,5 km/h. Qual seria a velocidade ideal?
João K –
De 3 até 5 km/h. Com um equipamento bom, e bem regulado, é possível trabalhar em velocidades maiores, a 6 até 8 km/h, e se obter uma boa semeadura. Se trabalhar a 10 km/h nem os novos e modernos equipamentos conseguem manter qualidade de plantio. Quando a velocidade da semeadeira aumenta todo o mecanismo de sulcagem se levanta, é igual avião, que corre para subir, e aí temos falhas nos stands, baixa concentração de plantas.

Agro DBO – Mas as janelas de plantio são muito pequenas, especialmente em grandes áreas, como resolver isso sem a velocidade no plantio?
João K –
Como se planta grão e grão, ou soja e milho em sucessão, isso é uma agressão para o solo em termos de falta de matéria orgânica. Temos de reconhecer que é melhor a sucessão do que a monocultura, mas tinha de variar mais do que simplesmente soja e milho. A verdadeira rotação teria de incluir forrageiras tropicais, tipo braquiária, panicum. Soja no verão, depois entra com girassol, ou sorgo, ou milho, já consorciado com as forrageiras, e depois de colher o grão entra na área com o boi. O agricultor não precisa virar pecuarista, mas ele pode usar o sistema para criar a palhada que vai proteger o solo. E vai ganhar dinheiro com isso, mas parece que não gosta de dinheiro. Ao não fazer isso o produtor ganha menos.

Agro DBO – O que mais traz influência para as baixas produtividades?
João K –
Espaçamento é outra causa muito comum. O produtor compra plantadeira regulada para plantio com 45 cm entrelinhas. E usa isso pra tudo, o que é errado. Se plantar um feijão carioquinha, 45 cm tá bom, mas um feijão jalo, que é precoce deve ser plantado com 30 cm, mas o produtor não muda, e perde produtividade.

Agro DBO – O campeão do CESB desde ano plantou com 22,5 cm de espaçamento entrelinhas, mas fez uma adaptação de regulagem, com certeza. Temos máquinas com espaçamento bem menores?
João K –
A Baldan tem uma plantadeira, para plantar com 22,5 cm, mas que não está disponível comercialmente. Mas é importante que vocês provoquem essa discussão, porque a indústria de máquinas tem que acompanhar a gente na pesquisa, e isso ajudaria o produtor.

Agro DBO – E a ferrugem da soja, com a resistência a todos os inseticidas, como é que você qualifica isso?
João K –
A ferrugem foi uma desgraça. Agora, uma boa notícia, a Embrapa já tem cultivares com resistência para a ferrugem. Pode ser que se resolva o problema. Agora, a resistência deve-se a um conjunto de fatores erráticos, do qual o uso sem nenhuma parcimônia dos agroquímicos é o principal fator, porque tem uso de subdosagens, tem aplicações mal feitas, pulverizações fora de hora, tem uso repetitivo das mesmas moléculas, e tudo isso é a comprovação de que o agricultor precisa usar mais a tal tecnologia do capricho. Sem ela, nada vai melhorar, mesmo que se adote as melhores e mais caras tecnologias. A gente tem mais sorte que juízo, veja o caso da Helicoverpa, se tivesse continuado aquele nível de infestação não tinha mais ninguém plantando soja ou milho no Brasil. Do jeito que veio, desapareceu, e ninguém sabe porque. Tivemos, realmente, muita sorte.

Agro DBO – Que outras críticas você tem em relação ao manejo das lavouras, e que impedem melhorias na produtividade?
João K –
A aplicação dos nitrogenados é um exemplo gritante. A maioria das pesquisas foram feitas para o modelo de arar e gradear. Então, o uso de nitrogênio em cobertura, tanto no milho, como sorgo, a época é totalmente equivocada para o plantio direto. No milho se aplica entre a quarta e a sétima folha, mas funciona só no plantio sem palha, na lavoura convencional. No plantio direto é o contrário, porque a palha chupa o nitrogênio, então temos que aplicar o N muito mais cedo, logo depois da emergência da planta, de no máximo 10 dias. Isso dá tempo para que a palha devolva o N para a planta, poque ele fica lá de 30 a 40 dias. Nós temos que rever a aplicação de N em cobertura. Não publica que eu disse que isso funciona até na soja, que eu vou te desmentir, mas funciona muito bem.

Agro DBO – E a FBN – fixação biológica do nitrogênio em soja? Como ficaria nisso?
João K –
O processo de aplicação é feito de forma absurda. Na maioria dos casos, mata as bactérias. Porque o pessoal mistura na semente uma bactéria, um agente vivo, com uma porção de produtos químicos. Depois, joga o produto na carroceria da pickup e pega um sol de 40º C. Está tudo errado… Se a inoculação for feita direitinho, ou seja, tratar a semente e plantar, é possível ganhar de 4 a 6 sc/ha de soja. Melhor que isso seria aplicar o inoculante líquido na linha de plantio.

Agro DBO – E a inoculação das gramíneas, como vai sendo feita?
João K –
Espetacular. Devia ter sido descoberto há muito mais tempo. O Azospirillum é tecnologia “chique no último”. É por causa disso que o milho deu esses saltos fantásticos de produtividade. Agro DBO – E o que você tem visto de errado nos tratamentos fitossanitários? João K – Falta convencer o produtor a acreditar no MIP, o manejo integrado de pragas. O produtor prefere usar um defensivo químico, dá resultado mais rápido, porque tira a ansiedade de ver a lavoura atacada pelos insetos. O produtor é muito impaciente, e não deveria ser assim. Acaba usando sempre o mesmo produto de forma repetitiva, sem perceber que está facilitando a natureza, que acaba criando a resistência. Volto, de novo, a enfatizar que precisamos ter mais precisão na agricultura.

Agro DBO – E as pesquisas no Brasil, como você vê isso, como pesquisador?
João K –
Está devagar. Está faltando pesquisa em fitotecnia, inclusive na Embrapa. Quem faz a base, um manejo de solo adequado, um plantio bem-feito, um bom manejo de pragas e doenças, um manejo correto de adubação, é a fitotecnia. Hoje os pesquisadores preferem essas coisas de moda, os transgênicos, e esquecem do principal. A genética do feijão carioquinha é de 1960, nada mudou desde então. Quem trabalha direitinho consegue 5 t/ha, mas a média brasileira não chega a 1 t/ha. E isso só se consegue na área de fitotecnia. O que vejo na pesquisa é que o pesquisador busca os problemas, aí ele “planta” o problema no computador, e depois colhe o resultado na impressora. Isso não é pesquisa. Tem que ir ver os problemas na fazenda. E tem que refrear esse uso abusivo hoje em dia de aplicativo de celular pra fazer qualquer coisa, não é por esse caminho que vamos melhorar a nossa produção e menos ainda as médias de produtividade. Precisamos de gente com os pés no chão, consciente, para poder evoluir mais. Já aprendemos a fazer o básico na fantástica agricultura tropical, agora temos de crescer e melhorar, aperfeiçoar o que já fizemos. Felizmente temos muito espaço para crescer, estamos só no começo.

*Matéria originalmente publicada na edição 92 da revista Agro DBO. 

Fonte: Portal DBO

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