22 de agosto de 2017
Commodities
18 de maio de 2017 - 17:41

Impactos das denúncias de corrupção nas commodities

Equipe brasileira da INTL FCStone analisa os prováveis efeitos da crise política no câmbio e nos mercados de açúcar e etanol, milho, soja e algodão

À luz dos eventos ocorridos da noite de 17 de maio a 18 de maio, com a delação dos irmãos Wesley e Joesley Batista, da JBS, a equipe brasileira de Inteligência de Mercado da INTL FCStone compilou análises para mercados de Câmbio, Milho e Soja, Trigo, Algodão e Açúcar e Etanol. Veja o comentário dos analistas:
 
Câmbio
Após a moeda americana encerrar a quarta-feira em alta expressiva de quase 0,9%, cotada a R$ 3,13, impulsionada pelo sentimento crescente de cautela com o cenário político americano, o noticiário brasileiro roubou a cena e causou fortes flutuações no mercado doméstico esta manhã, 18.

O momento é de incerteza absoluta. O efeito imediato das notícias foi o descolamento das cotações do dólar no mercado doméstico, que bateram os R$3,41 mais cedo. As expectativas de avanço nas reformas trabalhista e Previdenciária, que vinham contribuindo com a recuperação do real, foram colocadas no limbo. Os desenvolvimentos recentes da política nacional e a recuperação da confiança dos investidores colocados em dúvida. Por mais que os fundamentos de oferta e demanda do mercado de câmbio sejam favoráveis, em vista dos saldos comerciais recordes registrados em 2016 e no início deste ano, boa parte da valorização recente do real se baseava na melhora do ambiente de negócios e na calmaria do cenário político.

Pela natureza da revelação, o país foi pego de surpresa ontem. Mesmo que o mercado se mantivesse relativamente cauteloso, ciente do campo minado em que a política brasileira caminhava, não se aguardava uma reversão tão brusca do status quo.

Às 16h do horário local, Michel Temer fez seu primeiro pronunciamento sobre as acusações que recaem sobre ele. O presidente rejeitou veementemente a possibilidade de renúncia, afirmando que o inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal não encontrará nenhuma irregularidade e o inocentará. A decisão de Temer não foi bem-vista pelo mercado: o presidente teve sua governabilidade bastante comprometida com o desembarque das bancadas de partidos importantes da base aliada ao longo do dia, o que coloca em xeque o avanço da agenda de reformas.

O momento atual é marcado por grande incerteza e exige cautela. Dada a gravidade da situação, não enxergamos possibilidade de uma resolução rápida. Estamos escrevendo essa análise no calor dos fatos, e a qualquer momento podem ocorrer mudanças rápidas no cenário descrito.
A seguir, apresentamos os comentários da equipe da INTL FCStone do Brasil sobre os impactos da intensificação da crise política do país sobre as principais commodities agrícolas.

Açúcar & Etanol
Com a elevada participação brasileira na produção (23%) e na exportação (49%) de açúcar, este mercado será um dos mais afetados pela intensificação da crise política no Brasil. O contrato #11 na ICE/NY já vem registrando forte queda e pode sofrer ainda mais em caso de maior desvalorização do câmbio brasileiro. Isso é resultado da participação relativamente preços em moeda local no custo de produção. Além disso, a maioria das usinas nacionais possuem a opção de destinar sua matéria-prima para o açúcar (majoritariamente exportado) ou para o etanol (vendido em sua maioria no mercado doméstico), levando variações cambiais a afetarem o trade-off entre os dois produtos. Por exemplo: para as usinas do estado de Goiás, a produção de açúcar compensava mais que a de etanol com preços do contrato #11 acima de US¢15,74/lb, considerando preços de ontem. Com o dólar a R$3,40, a equivalência entre os produtos cai para US¢14,54/lb.

Trigo
Para o mercado de trigo, a recente desvalorização cambial pode auxiliar no arrefecimento das importações, que nesta safra 2016/17 ficaram acima do volume importado ao longo dos últimos anos, apesar da produção nacional recorde. A competitividade do cereal da Argentina foi o principal fator que auxiliou nas maiores importações, sendo que com o dólar cotado à R$ 3,13 o FOB argentino ficaria em torno de R$ 591,57/tonelada, mais barato que os R$ 611,24 cobrados pela tonelada no Paraná. Entretanto, com o novo patamar do dólar à R$ 3,40, o produto estrangeiro chegaria ao Brasil a R$ 642,6/tonelada, o que deve favorecer as comercializações internas mas não a ponto de inverter a intenção de redução de área para a safra 2017/18, uma vez que os preços correntes não são atrativos aos produtores.

Milho & Soja
Diante de um contexto de oferta mundial ampla e também de safras recordes no ciclo 2016/17 no Brasil, os preços do milho e da soja vêm numa trajetória de queda no mercado interno. Com isso, a comercialização tem caminhado mais lentamente, com os produtores segurando as vendas. Devido à elevada participação do país nas exportações mundiais, sendo o maior exportador de soja e ficando entre o segundo e o terceiro lugar no caso do milho, o dólar tem um papel central sobre as negociações e sobre os preços. Essa forte alta do dólar tende a incentivar um avanço das vendas, com provável reação dos preços domésticos e melhora na competitividade internacional, em relação aos EUA, que é nosso maior competidor nesses dois mercados. No caso do milho, a situação é um pouco mais complicada, porque a logística tem um peso muito grande em relação aos preços do produto, que têm um patamar mais baixo, mas, como o cenário é de oferta muito grande, o real mais fraco deve ajudar.

Algodão
No curtíssimo prazo, os efeitos sobre o mercado de algodão deverão ser indiretos e seguir o movimento das outras commodities. A colheita está próxima mas há pouco algodão no mercado doméstico e o principal período de exportações é somente no terceiro trimestre. O país também não é um importante mercado importador. Para o médio prazo, se mantido neste novo patamar, o câmbio desvalorizado deve incentivar as exportações da pluma com a entrada da nova safra, atualmente estimadas em 630 mil toneladas pelo USDA e em 700 mil pela Conab. As exportações podem muito bem superar este patamar, uma vez que a produção da safra 2016/17 está estimada entre 1,48 e 1,49 milhões de toneladas. Além disso, a possibilidade de que as reformas institucionais sejam travadas e que os cortes da taxa básica de juros sejam limitados pode implicar em uma revisão dos investimentos planejados pela indústria têxtil local e, consequentemente, do consumo interno de algodão.

Fonte: INTL FCStone

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