16 de dezembro de 2017
Ação Ideal
6 de outubro de 2017 - 16:03

Estratégia é fundamental

Marcelo de Rezende observa que grande parte dos produtores de leite passa por dificuldades financeiras sem se dar conta dos motivos, o que os impede de tomar as providências necessárias para solucionar os problemas.

Marcelo de Rezende

O excesso de animais improdutivos é um dos principais problemas das fazendas produtoras de leite no Brasil. Por improdutivos são considerados aqueles animais que estão no rebanho, mas sem condições de contribuir com a produção de leite (machos e fêmeas em crescimento, reprodutores e vacas secas). Algumas poucas fazendas brasileiras aplicam conceitos de estruturação de rebanho e chegam a trabalhar com 100% de vacas na propriedade, fazendo a recria de animais para reposição em propriedades especializadas ou adquirindo animais de outras fazendas no momento da reposição ou expansão do rebanho. De maneira geral as fazendas brasileiras não aplicam esses conceitos, e menos de 50% do total de cabeças mantidas na fazenda são vacas. E quando se considera a porcentagem de vacas que estão produzindo na propriedade, essa proporção cai ainda mais.

Diagnóstico realizado a pedido da Federação da Agricultura de Goiás em 2005 mostra que apenas 45 cabeças de um total de 97 animais existentes em média em cada uma das 500 propriedades analisadas no Estado eram vacas, ou seja, apenas 46% do rebanho estava em condições de produzir. A situação era ainda pior quando se considerava a quantidade de animais em produção nesses rebanhos: de um total de 45 vacas mantidas na fazenda média de Goiás somente 26 (26,8% do rebanho) estavam em lactação e, portanto, em condições de contribuir com a geração de receitas na fazenda. O excesso de vacas secas se dava por problemas relacionados à reprodução e à falta de especialização das vacas, que confere às matrizes do rebanho um período de lactação curto.

O excesso de animais improdutivos nos rebanhos leiteiros é fruto do desconhecimento do impacto negativo que a composição inadequada do rebanho tem sobre a renda da propriedade leiteira; outro ponto é o fato de que grande parte das fazendas busca crescer a uma taxa insustentável para a capacidade de geração de renda da atividade. Um rebanho adequadamente estruturado deve possuir em torno de 64% da sua composição em vacas e o restante, 36%, de bezerras e novilhas. Do total de vacas do rebanho, no mínimo 83% deveriam estar em lactação, mantendo assim um rebanho com 53% de vacas em lactação em sua composição (83% de vacas em lactação x 64% de vacas no rebanho).

A maior participação de bezerras e novilhas na estrutura aumenta o ritmo de crescimento do rebanho, porém aumenta os custos do sistema em um ambiente de menor geração de renda pela menor participação das vacas no processo produtivo. Os produtores que optam pela venda de parte ou de todos os animais em crescimento, buscando a estruturação adequada do rebanho, possuem dois benefícios imediatos. O primeiro é a rápida redução do custo de produção em função de um número menor de animais que geram custos na fazenda, o que acaba por facilitar também a questão gerencial do negócio, que passa a contar com uma atividade a menos no dia-a-dia da propriedade. O segundo é o fato de o produtor poder fazer caixa rapidamente, garantindo capital para estruturar a fazenda para as vacas que estão na propriedade ou ainda adquirir mais vacas, o que aumentaria a quantidade de leite vendido e por consequência a renda gerada pelo negócio.

Grande parte dos produtores passa por dificuldades financeiras sem se dar conta dos motivos, o que os impede de tomar as providências necessárias para solucionar os problemas. São muito comuns fazendas leiteiras com grande crescimento patrimonial anual, porém com grandes dificuldades de fluxo de caixa. Na maior parte, o problema está relacionado à desestruturação do rebanho que, ao mesmo tempo em que promove o aumento do número de animais, eleva custos operacionais e impede uma maior geração de renda em função de existirem animais improdutivos onde poderiam estar vacas em produção. O problema pode se agravar a ponto de se abandonar a atividade. O produtor não tem, necessariamente, que manter um rebanho estruturado, principalmente quando se busca a expansão do rebanho, mas tem que estar ciente das implicações econômicas que tal estratégia traz sobre a atividade e sobre os riscos que corre quando opta por priorizar o futuro, representado por animais em crescimento, em detrimento das necessidades, normalmente urgentes, do presente.

Fonte: Mundo do Leite 87

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