16 de dezembro de 2017
Gestão
6 de outubro de 2017 - 16:11

Intensificar custa caro?

Christiano Nascif explica que o resultado de toda eficiência deve ser mais dinheiro no bolso do produtor. "Investir em tecnologia sem produzir mais leite e sobrar mais dinheiro no bolso, não vale".

Christiano Nascif

É comum ouvirmos de vários produtores de leite e técnicos da área que a intensificação dos sistemas de produção custa caro. O caro e o barato são sempre relativos quando comparamos com os resultados que o investimento pode nos proporcionar, a relação benefício-custo. De qualquer forma, toda decisão gerencial deve ser relativizada. Por exemplo, um minuto pode ser muito ou pouco tempo, depende de que lado da porta do banheiro você está.

Nesta época da febre do compost barn, da robotização das ordenhas, das fertilizações in vitro, das transferências de embriões, dentre outras importantes tecnologias, as discussões sobre investir mais ou menos em intensificação são frequentes nos debates técnicos.

Mas será que é caro mesmo? Vale ou não a pena? Intensificar não aumenta muito o risco do negócio? Antes de tentar responder essas e outras questões, com números de uma amostra considerável de produtores, vamos usar um pequeno espaço desta coluna para tratar de uma contradição que vem acontecendo na atividade leiteira nacional.

Os investimentos em compost barn giram em torno de R$ 3.500/vaca em lactação, quando não é em “túnel de vento”; um robô para 70 vacas em lactação custa, no mínimo, de R$ 500.000 a R$ 700.000, dentre outros altos investimentos. Entretanto, é comum os produtores que estão estudando as propostas para fazerem esses vultosos investimentos não saberem quanto custa produzir um litro de leite nos seus currais. Alguns não têm o hábito de realizar o controle leiteiro mensal do seu rebanho, enquanto outros titubeiam quando são interrogados sobre quantas vacas em lactação possuem.

Creio que, no mínimo, esses episódios se configuram como uma grande contradição, pois, ao mesmo tempo em que pensam em investir na ordem de R$ 3.500/vaca em lactação, por exemplo, não realizam um controle de receitas e despesas do seu negócio; quando muito, fazem um controle zootécnico. Para isso seria necessário um investimento mínimo: uma caneta, uma calculadora simples e um caderno, o que não passa de R$ 20/ ano, somados a 10 minutos por dia, e nos dá, não o maior, mas o melhor investimento que o produtor fará, ou seja, o conhecimento, de fato, do seu negócio leite.

Intensificar os sistemas de produção de leite por meio de tecnologias viáveis e comprovadas cientificamente é fundamental para o sucesso, porém, não devemos queimar etapas. O simples e necessário deverá preceder o complexo, caro e necessário. Antes de correr temos que aprender a andar e, antes de aprendermos a andar, a engatinhar. Não adianta usar um excelente e caro perfume francês, se antes não tomarmos um básico, simples e bom banho. Essa contradição tem acontecido na pecuária leiteira nacional com muitos produtores de leite e pode resultar numa grande queda.

Comparação

Voltemos à tentativa de responder algumas perguntas quanto a intensificar os sistemas de produção com investimentos ou não. Para isso separamos 496 propriedades leiteiras que fazem parte do Projeto Educampo/Sebrae-MG. No grupo 1 consideramos os sistemas extensivos e, no grupo 2, sistemas intensivos em instalações, máquinas e benfeitorias. O período de análise foi de junho de 2016 a maio de 2017, com os dados econômicos deflacionados pelo IGP-DI de julho de 2017.

Para as análises ficarem mais isentas, utilizamos os dados médios entre os dois grupos. Em ambos os grupos existem produtores de leite com baixa, média e alta eficiência, distribuídos por todas as regiões do Estado de Minas Gerais, sujeitos às diversidades de clima, qualidade de terra e relevo, além de estarem susceptíveis a várias situações do mercado de leite e de animais.

Para responder a uma das principais perguntas do nosso estimado leitor quanto aos sistemas, de acordo com o capital investido, utilizamos o indicador investimento por vaca em lactação.

O grupo 1 investe R$ 4.876/vaca em lactação (vl) em máquinas e benfeitorias, enquanto o grupo 2 investe R$ 6.053/vl. Analisar esse item isoladamente de outros investimentos pode nos levar ao erro, pois o grupo 1 tem um capital investido em terra por vaca em lactação de R$ 12.539, maior do que o do grupo 2, R$ 11.953/vl. Quando somamos esses dados aos investimentos em máquinas e benfeitorias, verificamos que os produtores que optaram pelo sistema extensivo têm R$ 17.415/vl de capital investido, enquanto o grupo do sistema intensivo têm R$ 17.646/vl. Está surpreso? É isso mesmo.

Eficiência

Os resultados nos mostram que a grande diferença entre os sistemas, extensivo e intensivo, não está no montante de capital investido e, sim, na eficiência que o investimento em intensificação proporciona aos sistemas, seja pelos investimentos em si ou pelas características dos produtores que os adotam. Em volume de capital investido por vaca em lactação não houve diferença entre os dois grupos, mas, na comparação de eficiência no uso dos fatores de produção, aí, sim, houve grandes diferenças.

Enquanto o grupo 1 conseguiu a produtividade de 4.005 l/ha/ano, o grupo 2 conseguiu 8.827 l/ ha/ano, mais do que o dobro de eficiência no uso da terra, que é o fator de produção onde se tem mais capital empatado. O grupo 1 apresentou uma estrutura de rebanho menos equilibrada, 37% de vacas em lactação em relação ao total de rebanho (vl/tr). Já o grupo dois apresentou 42% vl/tr, com mais vacas em lactação para gerar maior renda, com o objetivo de saldar as despesas no final do mês, ou seja, maior giro de capital, tão necessário para o sucesso na atividade leiteira. As vacas do grupo 1 produziram, em média, 15,5 l/vl/dia, com uma lotação de 0,71 vl/ha. As vacas do grupo 2 produziram, em média, 21 l/vl/dia com uma lotação de 1,14 vl/ha.

A eficiência no uso da mão de obra também foi bem diferente no grupo de sistema extensivo. A performance da mão de obra foi de 344 l/d.h., enquanto no grupo intensivo, foi de 467 l/d.h., superior em mais de 100 l/d.h., o que não é pouco. Imagine esta diferença ao final de um ano!

O atento leitor desta coluna deve estar pensando que o sistema extensivo usou muito mais terra do que o grupo intensivo. A resposta é não! O grupo 1 usou 99 ha para produzir 1.084 l/dia, ao custo total de produção de R$ 1,27/l, vendendo a R$ 1,45/l. O grupo 2 usou 91 ha para produzir 2.207 l/dia, com um custo total médio de R$ 1,28/l, vendendo a R$ 1,54/l.

Percebam que o grupo 2 não usou muito menos terras para produzir leite em relação ao grupo 1. A grande diferença foi a maior eficiência dos produtores do sistema intensivo. O principal objetivo do uso de tecnologias para poupar recursos, como terra, mão de obra, água, animais, otimizando todo o sistema de produção, é produzir mais e melhor com menos. Nesse caso, os produtores do grupo 2 produziram o dobro de leite, com praticamente a mesma quantidade de terras, ratificando a tendência: grandes produtores de leite em pequenas áreas.

O resultado de toda eficiência deve ser mais dinheiro no bolso do produtor. Investir em tecnologia sem produzir mais leite e sobrar mais dinheiro no bolso, não vale. O lucro total dos produtores do grupo 1 foi R$ 52.215/ano, com rentabilidade de 5,16% a.a., real, livre da taxa de inflação. O lucro do grupo 2 foi R$ 181.853/ano, com rentabilidade de 9,92% a.a. Podemos afirmar que a atividade leiteira para os produtores que optaram pelos sistemas mais intensivos está mais atrativa economicamente do que para os que optaram pelo sistema extensivo de produção.

Portanto, antes de decidir intensificar ou não, construir um compost barn ou utilizar uma ordenha robotizada, decida ser eficiente, daí os bons resultados técnicos e econômicos serão consequências.

Fonte: Mundo do Leite 87

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