18 de dezembro de 2017
Qualidade
4 de dezembro de 2017 - 15:57

Monitorando a qualidade do leite

Marcos Veiga explica quais são os fatores fundamentais para a obtenção de resultados confiáveis sobre a qualidade do leite: o procedimento de coleta e a análise laboratorial. A coleta bem-feita é o primeiro passo.

Marcos Veiga

A obtenção de resultados confiáveis de análise do leite depende de dois fatores fundamentais: os procedimentos de coleta de amostras e a análise laboratorial. Estes pontos-chave são necessários para fins de fiscalização, de pagamento por qualidade ou como ferramenta de gestão dentro da fazenda leiteira. Atualmente, os laboratórios que fazem parte da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade de Leite (RBQL), criada pelo Ministério da Agricultura, têm bons programas de calibração, controle e aferição de equipamentos utilizados nas análises. Sendo assim, a coleta, o armazenamento e o transporte das amostras até a análise passa a ser fundamental, pois dependendo desses fatores os resultados obtidos podem não retratar a realidade da fazenda e, consequentemente, induzir a tomada de decisão equivocada. Em resumo, os fatores mais críticos para obtenção de uma amostra representativa de leite para análises são: a) capacitacão do responsável pela coleta, b) qualidade de materiais e utensílios utilizados, c) procedimentos de coleta e transporte até o laboratório.

Uma boa representatividade da amostra indica que os resultados representam as condições do leite no tanque, e depende muito da padronização de procedimentos. Para tanto, o motorista do caminhão de coleta do leite (transportador) é uma figura-chave para a confiabilidade das coletas. Deve ter constantemente capacitação sobre os procedimentos de higienização de utensílios usados, de medição do volume do leite, coleta, armazenamento e do transporte de amostras. O transportador tem alta responsabilidade sobre a representatividade da coleta, pois dependendo do procedimento pode ocorrer grande impacto sobre o pagamento do produtor. Recomenda-se que sejam submetidos a um treinamento inicial e que passem por capacitação periódica sobre cuidados e procedimentos de coleta.

Materiais

Com relação aos materiais utilizados nas coletas, os cuidados principais são com a correta identificação dos frascos, o manuseio e o uso correto de conservantes, dependendo de cada tipo de análise. Para as análises de composição e CCS, recomenda-se o uso de frasco plástico com capacidade de cerca de 40 ml, com adição do conservante bronopol. Para as análises de CBT, recomenda-se o uso de frascos estéreis e conservante azidiol, cuja função é impedir o aumento da contaminação microbiana do leite durante o transporte e armazenamento da amostra antes da análise. Após a correta agitação do leite no tanque, o transportador deve coletar duas amostras em separado, sendo uma delas para composição e CCS e a outra para CBT. Ambas as amostras devem ser coletadas pela tampa do tanque e não pela válvula de  saída, com o uso de uma concha de cabo longo (ou utensílio similar), para mergulhar e coletar amostra representativa de leite. Terminada a coleta, as amostras devem ser agitadas suavemente (inverter o frasco repetidas vezes), de forma a misturar completamente o leite ao conservante. Finalizada a coleta, as amostras devem ser armazenadas em recipiente refrigerado (com gelo reciclável). Os resultados de composição, CCS e CBT são satisfatórios quando a amostra de leite é analisada em no máximo quatro dias entre a coleta a e análise.

Coleta de tanques

Uma das principais fontes de variação de resultados de composição e contagem bacteriana do leite é a falta de agitação antes da coleta. A agitação é necessária, pois quanto o leite está em repouso há acúmulo de gordura na camada superior, formando a nata. Esta camada apresenta alto teor de gordura, o que afeta os resultados de composição do leite. Além disso, na camada da nata pode acumular as células somáticas, o que também afeta os resultados de CCS. Sendo assim, o objetivo da agitação deve ser o de garantir que o leite coletado represente de maneira homogênea a composição do leite do tanque, sem, no entanto, causar alterações da qualidade como a ruptura dos glóbulos de gordura – que ocorre sob excessiva agitação do leite.

Ainda que seja um ponto crítico na credibilidade e funcionamento de programas de monitoramento e pagamento por qualidade, não existe uma regra universal sobre os procedimentos para agitação do leite antes da coleta de amostras. Muitos países possuem legislações estabelecendo critérios mínimos para agitação do leite nos tanques imediatamente antes da coleta. No Brasil, o Regulamento Técnico da Coleta de Leite Cru Refrigerado e Transporte a Granel (IN 62/2011), apenas indica que, antes do início da coleta, o leite deve ser agitado com utensílio próprio e ter a temperatura anotada. Desta forma, não existe recomendação da legislação para um tempo mínimo de agitação do leite.

De acordo com a legislação canadense, o leite deve ser agitado pelo menos por 5 minutos antes da coleta. Para a maioria dos estados do nordeste dos EUA, recomenda- se que o leite deve ser adequadamente agitado antes da coleta (agitação de 5 min para tanques abaixo de 3.800 L e de 10 min para tanques acima de 3.800 L – (Farm Bulk Tank Collection Procedures, Dairy Practices Council). Alguns estados, contudo, seguem as recomendações da APHA (Standard methods for examination of Dairy Produtcts), a qual determina que o leite seja agitado por pelo menos 5 minutos imediatamente antes da coleta da amostra e que tanques acima de 5.700 L tenham agitação de 10 minutos ou de acordo com o fabricante. Na Nova Zelândia, os códigos para coleta de leite determinam que o leite seja continuamente agitado durante o período de armazenamento, sendo que para silos de armazenagem de leite a agitação deve ser suficiente para que a variação do teor de gordura seja menor que 0,1% e que não haja variação de temperatura entre os vários pontos dentro do tanque, além de evitar a ocorrência de alteração dos glóbulos de gordura.

Atualmente, a maioria dos tanques de expansão para resfriamento de leite tem uma pá com agitação intermitente (o agitador trabalha durante alguns minutos a cada intervalo de tempo). Esta estratégia reduz a formação da camada de nata, sem causar o rompimento dos glóbulos de gordura. Para garantir a uniformidade das amostras de leite coletadas de tanques recomenda- -se que seja aplicada a agitação intermitente a cada hora e que o tempo mínimo de agitação antes da coleta de leite seja de 2 minutos. Em resumo, os vários organismos internacionais apresentam normas gerais para agitação do leite entre 5 e 10 minutos para tanques pequenos e grandes, respectivamente. Quando a agitação intermitente é usada (ciclos de agitação e repouso), a recomendação é de que o tempo de agitação mínimo de 2 minutos é adequado antes da coleta.

Como coletar amostras individuais das vacas?
A rotina de realização de análises individuais de Mundo do Leite – dez/2017-jan/2018 21 No laboratório determina-se a qualidade do leite, mas é na coleta que mora o perigo CCS de todas as vacas do rebanho é um dos fundamentos de um programa de controle de mastite. Com os resultados de CCS individual pode-se identificar a prevalência da mastite subclínica no rebanho, monitorar a ocorrência dos novos casos e dos casos crônicos, assim como estimar as perdas decorrentes da mastite. Recomenda-se que as vacas em lactação sejam analisadas em relação a CCS uma vez ao mês. Da mesma forma que os procedimentos usados para amostras de tanque, a coleta de amostras individuais pode interferir significativamente na CCS. A amostra de leite para a realização da CCS deve ser composta dos quatro quartos e representativa de uma ordenha completa da vaca.

A coleta pode ser feita diretamente do balde, após o término da ordenha, para os sistemas de ordenha manual e balde ao pé. Nestes casos, a amostra deve ser coletada após uma rápida agitação (transferindo-se o leite de um balde para o outro). Com o uso de uma concha higienizada, a amostra pode ser transferida para um frasco com bronopol. Para uma boa homogeneização do conservante, recomenda-se inverter o frasco repetidas vezes. Nos sistemas de ordenha canalizada, a amostra deve ser coletada em amostradores ou medidores de leite, para que represente o fluxo de leite durante a ordenha. Finda a ordenha, recomenda-se agitação manual da amostra ou pela abertura da entrada de ar no medidor, antes de transferi-la para o frasco.

A amostra para análise de CCS não deve ser coletada diretamente da vaca por ordenha manual, no início da ordenha. Os resultados dos estudos indicam que para amostras com alta CCS (> 200.000 cel/ml), os dois primeiros jatos de leite apresentam CCS cerca de 5 vezes maior dos que a CCS do leite total. Quando uma amostra é coletada dos primeiros jatos, pode-se ter resultados muitos superiores aos de uma amostra coletada durante toda a ordenha, indicando um resultado erroneamente elevado para aquele animal.

Fonte: Mundo do Leite 88

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