18 de novembro de 2017
Sustentabilidade
3 de agosto de 2017 - 15:06

Nutrição e composição do leite

O colunista Alexandre Pedroso mostra que as alterações na composição química do leite podem melhorar ou piorar seu valor como matéria-prima industrial. A nutrição é a maneira mais efetiva para se conseguir mudanças rápidas

Alexandre M. Pedroso

A composição do leite varia bastante nas fazendas brasileiras, em decorrência de diversos fatores como raça, número de ordenhas diárias, fase de lactação, alimentação, temperatura, idade, ocorrência de distúrbios metabólicos e enfermidades, etc. As alterações na composição química do leite podem melhorar ou piorar seu valor como matéria-prima industrial, e dentro dos sistemas de pagamento atuais pode pesar no bolso do produtor.

A nutrição é a maneira mais efetiva para se conseguir mudanças rápidas na composição do leite. Por exemplo, a simples alteração da relação volumoso:concentrado na dieta pode alterar o teor de gordura do leite em mais de 15%. As mudanças observadas na proteína do leite não são tão intensas quanto as observadas nos teores de gordura, porém, aumentos de até 0,15-0,20 unidades percentuais na proteína do leite são possíveis quando se faz o correto balanceamento em energia, proteína e aminoácidos (AA) da dieta.

No entanto, as correlações entre nutrientes da dieta e síntese de sólidos no leite não são simples, de maneira que o aumento de um constituinte em particular na dieta não necessariamente resulta em aumento deste constituinte no leite. Muitas vezes, o maior consumo de um determinado alimento leva a um aumento de sólidos, proporcional ao aumento do volume de leite, de forma que a composição permanece a mesma.

A qualidade e composição da gordura do leite são influenciadas por vários fatores inter-relacionados, como a quantidade e qualidade da fibra, a relação volumoso:concentrado, o local e taxa de degradação dos carboidratos não fibrosos, principalmente do amido, e características dos suplementos gordurosos. Sempre que as rações tiverem grande quantidade de carboidratos não fibrosos (CNF), especialmente amido, e inclusão não adequada de Fibra fisicamente efetiva (FDNfe), haverá uma grande chance de se observar depressão no teor de gordura do leite. Isso acontece quando o pH do rúmen é reduzido, condição que propicia a produção de alguns ácidos graxos (AG) específicos que inibem a síntese de gordura na glândula mamária. Para que esse risco de queda no teor de gordura do leite seja menor, devemos manter um mínimo de 22% de FDNfe na dieta das vacas, e trabalhar com níveis de amido de até 26-28%.

Mudanças no teor de proteínas do leite também podem ser conseguidas pela manipulação da dieta, mas numa magnitude bem inferior às alterações possíveis no teor de gordura, por uma série de razões. Em primeiro lugar porque a variação natural possível é bem menor, e também fatores dietéticos que influenciam essa variável não são completamente conhecidos. Mas, apesar destas dificuldades, alguns fatores relacionados às dietas têm sido estudados nos últimos anos. Atualmente a proteína é o mais valioso de todos os componentes do leite. O aumento no teor de proteína verdadeira aumenta o rendimento industrial do leite e melhora a eficiência de utilização de nitrogênio pelas vacas leiteiras.

Os AA são as unidades básicas para a síntese de proteínas, de forma que o teor de proteína do leite depende diretamente do perfil de AA absorvidos no intestino das vacas. Sabe-se que 50% ou mais desses AA vêm da proteína microbiana (PMic), produzida no rúmen das vacas, e que é considerada a fonte mais importante de proteína de alto valor biológico. Dessa forma, a maximização da produção de PMic é ponto chave para melhorar a síntese de proteínas do leite.

Dietas que forneçam em torno de 10% da MS na forma de proteína degradável no rúmen (PDR), junto a níveis adequados de energia, fornecem boas condições para que o suprimento de AA para a síntese de proteínas do leite seja maximizado. Aqui também o teor de FDNfe tem papel importante, pois níveis adequados dessa fração contribuem de cisivamente para a manutenção do pH ruminal em níveis adequados, o que é imprescindível para que a síntese de PMic seja maximizada.

De todos os fatores dietéticos que influem a síntese de proteína do leite, a energia certamente é o mais importante. De maneira geral, aumentos no teor de energia da dieta (na forma de carboidratos) resultam em maior síntese de proteína do leite, e maior concentração de proteína no leite.

A forma mais comum de se alterar o teor de energia das dietas das vacas é a alteração na relação volumoso:concentrado, mas isso também se consegue com a utilização de forragens de maior digestibilidade, ou aumentando-se a degradabilidade ruminal das fontes de CNF.

A relação entre o consumo de energia e o teor de proteína do leite pode ser explicada em parte pela maior quantidade de AA que chega ID em consequência da maior produção de PMic, estimulada pela maior concentração energética da dieta.

A manipulação do teor de gordura do leite é mais simples, e via de regra mais fácil. Os principais fatores dietéticos que resultam em abaixamento no teor de gordura do leite são condições que levem ao abaixamento excessivo do pH ruminal e o consumo de gorduras poliinsaturadas. Dessa forma, a formulação de dietas deve focar na manutenção do pH ruminal em condições adequadas, pelo estímulo à mastigação e/ou inclusão de aditivos com ação tamponante. Se fontes de gordura insaturada forem utilizadas é preciso atenção especial aos teores de gordura do leite. Dependendo da fonte, mesmo inclusões discretas, em torno de 5-10% da matéria seca total, podem afetar significativamente o teor de gordura do leite. Isso não acontece se a fonte de gordura utilizada for saturada.

A manipulação do teor de proteína do leite é mais difícil e desafiadora para os nutricionistas. Nos últimos anos tem crescido muito o interesse pelo balanceamento de AA em dietas de vacas leiteiras, com o intuito de melhorar a eficiência de uso das fontes proteicas e aumentar o teor de proteína do leite. A manutenção de uma relação em torno de 2,8:1 entre lisina e metionina é o ideal em termos de síntese de proteína do leite. O nutricionista deve sempre ter essa relação como referência para buscar maximizar a síntese de proteína do leite. É importante frisar que essa relação ideal entre lisina e metionina varia em função do modelo nutricional com o qual se trabalha, mas os valores sempre giram em torno de 2,8 a 2,9:1

Aumentar o teor de sólidos do leite, especialmente proteína, é possível. O fundamental é formular corretamente as dietas, balanceando as quantidades de PDR, CNF e FDNfe, a fim de maximizar a síntese de PMic no rúmen. O balanceamento das dietas por AA também é uma poderosa ferramenta para melhorar a composição do leite. Para vacas em pastejo o desafio é maior, pois há muitas incertezas relacionadas ao consumo e composição da forragem. Além da questão nutricional, é fundamental dar ótimas condições de conforto para as vacas, para que possam expressar adequadamente todo o seu potencial.

Fonte: Mundo do Leite 86

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