17 de agosto de 2017
Seguindo em Frente
3 de agosto de 2017 - 15:04

O ócio criativo

Ismail Haddade, nosso colunista do "Seguindo em frente", comenta sobre a necessidade de o produtor dar uma paradinha no corre-corre diário para pensar se está fazendo tudo direitinho. Faça isso. Vale a pena.

Ismail Ramalho Haddade

Não posso esquecer a ocasião em que tive a oportunidade de conversar com o professor Vidal Pedroso de Faria durante as quase duas horas que separam a cidade de Santa Teresa da capital Vitória, trazendo-o de um evento de palestras que ocorreu em 2013 no Espírito Santo. Conversava, dentre outras coisas, a respeito de técnicas que poderiam ser implantadas e testadas para melhorar cada vez mais a eficiência de produção dos sistemas leiteiros, mas que aumentariam a carga de trabalho dos produtores envolvidos. Naquela conversa, um ponto me chamou atenção, motivo pelo qual devo compartilhá-lo.

O professor comentou que uma de suas preocupações no dia a dia da propriedade seria o trabalho excessivo, impedindo que as pessoas envolvidas tivessem tempo para parar e pensar em como estavam desempenhando suas atividades diárias. As palavras exatas eu não me lembro, mas o teor da conversa baseou-se na preocupação de que, quando se pensa em alguma técnica para melhorar a produção, deve- -se pensar primeiro no seguinte: se esta “técnica” é tão boa assim, por que as pessoas a praticam pouco, ou não a praticam? A partir disso, se comprovado que o “não uso” da técnica se deve ao desconhecimento de que ela existe, ou mesmo que produtores a utilizem em outras regiões com resultados positivos não aumentando muito o tempo diário com as atividades “automáticas” (que se faz sem precisar pensar), então, ponha-se a pensar em como executá-la!

Neste ponto, devemos repensar o uso de técnicas que sobrecarreguem uma já pesada rotina de trabalho, e que não tenham tanto retorno. Assim, não sacrificaremos a maior parte do tempo com as “atividades automáticas” e, com isso, melhoraremos a capacidade de pensar, de estabelecer estratégias, o que é muito diferente de ficar apenas mergulhado nas ações do cotidiano. Aí se cria um tempo para um descanso criativo, ou “ócio criativo”, termo cunhado pelo pensador italiano Domenico de Masi e muito citado nos dias atuais, no sentido de tornar o trabalho menos estressante, fazendo bem ao trabalhador, tornando-o satisfeito, realizado e mais produtivo.

Na produção leiteira – uma atividade rotineira e repetitiva –, deve-se ter, ao longo do dia, este momento dedicado ao descanso e à análise daquilo que se está fazendo, e assim pensar em como se poderia melhorar. Caso contrário, ninguém consegue manter a rotina por muito tempo. Claro que para muitos este tempo pode ser prejudicial; não deve ser muito longo. Senão não existiria o ditado “Cabeça parada oficina do diabo”. Mas, os momentos de folga não deixam de ser importantes para que as pessoas possam se sentir mais envolvidas, conectadas e motivadas com a atividade.

Outra coisa importante é que essas colocações não sirvam como pretexto para o “relaxamento total”, para a completa despreocupação com o sistema, já que a necessidade de eficiência é grande na atividade leiteira. Isto, para que seja competitiva e vantajosa na geração de renda e na satisfação das necessidades das pessoas que se dedicam a ela.

Portanto, trabalhe sim. Arduamente e com auxílio de um bom técnico, para atingir os seus objetivos. Porém, não se esqueça: a necessidade de pausas e descansos ao longo do dia é tão importante para evoluir e manter o encantamento com aquilo que se faz quanto as horas dedicadas ao trabalho árduo e bem executado.
 

Fonte: Mundo do Leite 86

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