18 de dezembro de 2017
Seguindo em Frente
4 de dezembro de 2017 - 16:45

O que sua vaca está comendo?

Esta é a pergunta que o colunista Alexandre Pedroso faz aos produtores. Ele argumenta que formular dietas é fácil, difícil é ter certeza de que a formulação corresponde ao que as vacas estão recebendo no cocho.

Ismail Ramalho Haddade

Uma dos temas mais frequentes em minhas reuniões técnicas, visitas a clientes, palestras, cursos ou artigos é a importância de se conhecer detalhadamente a composição dos alimentos que oferecemos aos animais. Esse tema não é novo, já escrevi alguns artigos sobre isso, mas entendo que é mais atual do que nunca! Costumo dizer que formular dietas é muito fácil, o difícil é ter certeza de que a formulação corresponde ao que as vacas estão comendo.

Para que sejam eficientes no uso dos alimentos, vacas leiteiras demandam grande consistência no manejo da sua alimentação. É preciso incorporar definitivamente o conceito de que as vacas precisam de nutrientes, e não de alimentos, e a oferta desses nutrientes tem que ser feita de forma uniforme e consistente. A dieta formulada deve ser idêntica à dieta fornecida, que por sua vez deve ser idêntica à dieta ingerida pelas vacas. O que chamamos de Nutrição de Precisão é o caminho mais interessante para se alcançar elevada eficiência produtiva e econômica nas fazendas leiteiras.

Esse conceito, acima de tudo, demanda uma mudança de postura das pessoas envolvidas com o manejo alimentar dos rebanhos leiteiros. É necessário elevar os padrões de exigência no dia-a-dia da fazenda, para que seja possível elevar a eficiência de uso dos nutrientes consumidos pelas vacas. É fundamental entender que o leite é sintetizado a partir dos nutrientes ingeridos e não dos alimentos.

Para conseguir consistência no manejo alimentar, alguns pontos são fundamentais. O maior desafio dos nutricionistas, para que possam formular corretamente as dietas, é conhecer, de fato, a composição dos alimentos que vão utilizar. E não há outra forma de ter essas informações a não ser através da análise bromatológica dos alimentos. O custo dessas análises é extremamente baixo, comparado ao benefício que geram. Sem saber corretamente a composição dos alimentos, não há como formular adequadamente as dietas. Há grande variação na composição dos alimentos, especialmente volumosos, de forma que é extremamente arriscado se basear em valores de tabelas. Mesmo alimentos concentrados, principalmente subprodutos da agroindústria, apresentam variabilidade considerável em sua composição, e devem ser analisados regularmente. Também é importante fazer uma boa seleção de fornecedores, para garantir a qualidade dos alimentos comprados.

Nutrientes e digestibilidade

No meu trabalho como nutricionista em fazendas leiteiras procuro usar ao máximo as informações que podemos extrair dos laudos de análises bromatológicas. Hoje em nosso país há excelentes laboratórios capazes de fazer análises completas dos alimentos em tempo bastante curto, e a custo totalmente acessível, de forma que não há justificativas para não fazê-las.

Ao avaliar o resultado de uma análise, procuro focar nos principais nutrientes e nos parâmetros de digestibilidade. O primeiro parâmetro sempre é a fibra, o teor de FDN da amostra, bem como sua digestibilidade. Trata-se de um nutriente fundamental para vacas leiteiras, necessário para manter sua saúde, e que pode contribuir significativamente com o suprimento de energia da dieta, se tiver elevada digestibilidade. Em nosso país o teor de FDN dos alimentos volumosos varia muito, bem como sua qualidade, dada justamente pelos parâmetros de digestibilidade. Isso representa um dos maiores, senão o maior, desafio para os nutricionistas que trabalham com rebanhos leiteiros. A dificuldade é ainda maior quando se trabalha com pasto, pois a variação na composição bromatológica é ainda maior, especialmente com relação à FDN. Já trabalhei com pastos de 47% a 70% de FDN, ou seja, é impossível formular corretamente sem ter essa informação. E infelizmente ainda há produtores que não se convenceram da absoluta necessidade de realizar as análises bromatológicas.

Depois da FDN, os próximos parâmetros a serem avaliados são os teores de proteína e amido, dependendo do tipo de alimento. Se a base da dieta é de forragens verdes (pasto, pré-secados, silagens de capim, etc.), o foco é na proteína, mas não apenas a proteína bruta (PB), é importantíssimo considerar suas frações, como a proteína degradável no rúmen (PDR) e proteína solúvel (PS). Pastos de alta qualidade podem conter até 22-24% PB, com até 40% de PS, e pastos de baixa qualidade podem apresentar valores de PB tão baixos quanto 8 – 10% com mais de 70% PS, de forma que não é possível formular corretamente uma dieta para vacas leiteiras sem ter essa informação. Com relação ao balanceamento proteico de dietas, cabe enfatizar que a formulação com base no perfil de aminoácidos (AA), já é uma realidade para bovinos leiteiros. Os programas de formulação de dietas mais modernos consideram o aporte de AA digestíveis para as vacas, e com a experiência que já temos por aqui é possível utilizar estrategicamente alguns AA para formular com mais eficiência as dietas e até mesmo reduzir o custo de alimentação das vacas.

Se a base da dieta for silagem de milho ou sorgo o foco nessa etapa será no teor de amido, que também pode variar consideravelmente. Como via de regra os grãos de cereais, especialmente o milho, são o principal suplemento energético das rações, e estes são ricos em amido, é fácil entender que em dietas à base de silagem de milho ou sorgo o amido é o grande determinante da disponibilidade de energia. Se quem formula não sabe quanto tem de amido na dieta, o risco de erros é enorme, bem como da ocorrência de problemas de saúde para os animais, uma vez que amido em excesso é a principal causa de acidose ruminal.

Depois de avaliar esses nutrientes eu procuro olhar para o teor de cinzas, pois este parâmetro afeta negativamente a qualidade das forragens e a fermentação ruminal em muitos casos. Quanto maior o teor de cinzas, menor o teor de energia dos alimentos; além disso, as cinzas também podem carregar alguns elementos anti- -nutricionais do solo, como fungos, bolores ou mesmo microrganismos altamente indesejáveis, como Clostridium. Para silagens de milho valores abaixo de 4-5% são desejáveis, e para pastagens buscamos valores abaixo de 8-9%.

Teores de energia

Outros parâmetros que são igualmente importantes, mas que até bem pouco tempo eram praticamente ignorados por muitos nutricionistas, são as digestibilidades da FDN e dos carboidratos não fibrosos (CNF), principalmente do amido. Esses parâmetros têm um impacto profundo sobre o desempenho animal. Como a digestibilidade da FDN é mais baixa que dos CNF, normalmente o teor de FDN de uma ração ou alimento é inversamente proporcional a seu teor de energia. A composição da FDN (participação da celulose, hemicelulose e lignina) afeta sua digestibilidade, de forma que rações ou alimentos com o teor de FDN semelhante podem ter teores de energia diferentes. Por exemplo, uma forragem com 5% de lignina e 60% de FDN é mais digestível que outra forragem que tenha os mesmos 60% de FDN, mas 10% de lignina. Esse é mais um exemplo de quão imprescindível é conhecer detalhadamente a composição dos alimentos.

Hoje já temos laboratórios no Brasil altamente capacitados para nos fornecer informações bastante precisas sobre esses parâmetros, e cada vez mais eu tenho usado essas informações no meu dia a dia profissional. Uma dificuldade que enfrentamos ao avaliar a digestibilidade dos CHO é a variabilidade nas técnicas de análise. Várias técnicas in vitro são utilizadas para essas determinações, com diferentes tempos de incubação (24, 30 ou 48 horas), que resultam em valores diferentes, de forma que é preciso cuidado ao interpretar os resultados, mas eu recomendo enfaticamente que os valores da digestibilidade das forragens sejam considerados nas formulações.

Em resumo, para formular dietas de forma eficiente e consistente, é imprescindível conhecer a composição dos alimentos com que se trabalha. Já perdi a conta de quantas vezes repeti essa frase, mas infelizmente ainda me deparo com situações em que nutricionistas se arriscam a formular no escuro. O custo de uma análise bromatológica completa é irrisório quando comparado ao custo total dos alimentos e ao benefício que essa informação gera. Não há justificativa para não adotar essa prática como rotina nas fazendas.

Fonte: Mundo do Leite 88

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