26 de abril de 2018
Gestão
28 de março de 2018 - 14:14

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Christiano Nascif pergunta: quem ganha mais dinheiro, o produtor de leite que trabalha em terras arrendadas ou o que utiliza a própria terra? A resposta é: depende.

Christiano Nascif

O investimento para estruturar uma propriedade, com objetivo de produzir leite, é muito alto. Predominantemente, do capital investido na atividade leiteira, no mínimo 50% são destinados às terras.

Analisamos 478 propriedades participantes do Projeto Educampo/Sebrae, em todo o Estado de Minas Gerais. Dessas, dezoito utilizam 100% das terras arrendadas para a atividade leiteira; 223, investem de 40% a 60% do capital em terras, enquanto 129 propriedades investem mais de 60% em terras. A realidade brasileira, assim como a sua, caro leitor e produtor de leite que nos lê neste momento, é a mesma.

No período de janeiro a dezembro de 2017, os produtores com 100% das terras arrendadas produziram, em média, 967 litros/dia; os que possuem 40% a 60% produziram 1.510 l/d; e aqueles que possuem acima de 60%, produziram 1.163 l/d.

A pergunta é: quem ganha mais dinheiro, o produtor de leite que trabalha em terras arrendadas ou o que utiliza a própria terra? A resposta é: depende.

Vamos combinar: para responder a esta pergunta de forma imparcial, a possível valorização ou desvalorização das terras não entra na análise. O que será avaliado é o negócio atividade leiteira e não o empreendimento rural. Os resultados positivos ou negativos da especulação imobiliária não comporão o resultado final da análise.

O grupo de produtores com 100% das terras arrendadas utiliza, em média, 50 hectares para a atividade leiteira. Já o grupo com 40% a 60% utilizou 96 hectares, enquanto o grupo com mais de 60% investido em terras utilizou 110 hectares.

Como grande parte do capital empatado na atividade leiteira está em terras, ganhar ou não dinheiro, para os produtores com terra própria, dependerá da eficiência com que a utilizam. Dessa forma serão mais eficientes no uso do capital empatado e, consequentemente, colocarão mais dinheiro no bolso.

Aqueles que arrendaram colocaram 1,10 vaca em lactação/hectare (vl/ha); já os que possuem terra procederam assim: os que investiram 40% a 60% do capital colocaram 0,87 vl/ha; os que investiram mais de 60%, colocaram 0,67 vl/ha. Ressaltamos que o valor-referência para esse indicador, em sistemas de semiconfinamento, é de, no mínimo, 1 vl/ha. A produtividade média dos rebanhos, medida em litros por vaca em lactação por dia (l/ vl/d), teve resultado bem semelhante; entretanto, a produtividade de leite por hectare por ano (l/ha/ano), indicador que mede a eficiência no uso das terras, foi bem diferente entre os grupos.

O grupo do arrendamento alcançou a marca de 7.072 l/ha/ano e o de mais de 60% alcançou 3.868 l/ha/ano. Diferença significativa, não acham? Se 7.072 l/ha/ano é uma boa marca, embora ainda precise ser melhorada, imagine os outros dois grupos analisados. Essa baixa eficiência no uso da terra certamente pesará no bolso desses produtores. Será?

O ineficiente uso das terras reflete no alto capital empatado por litro de leite produzido por dia (R$/l/dia). Enquanto os arrendadores empataram R$ 526 l/d, o grupo de 40% a 60% empatou R$ 1.415 l/d e aqueles com mais de 60% empataram R$ 2.455 l/d. Principalmente para este último, é muito capital empatado para produzir pouco leite, ou seja, isto é ineficiência. O valor-referência para aqueles que produzem em terra própria é de R$ 1.200 l/d e, para os produtores que utilizam terras arrendadas, é de R$ 500 a R$ 600 l/d.

Quando a cabeça não pensa, o bolso paga. Os arrendadores alcançaram R$ 577 por hectare por ano de lucro com a atividade leiteira no período analisado. Os produtores do grupo de 40% a 60% conseguiram R$ 636 por hectare por ano, e os com mais de 60% do capital empatado em terras alcançaram R$ 424 por hectare/ano.

Quando analisamos as taxas de rentabilidade, a eficiência ou ineficiência no uso da terra fica ainda mais gritante. Se não incluímos o valor empatado em terra na análise, a taxa média de retorno sobre o capital dos arrendadores é igual a 11,49% a.a; a taxa média de retorno do grupo que utilizou 40% a 60% da terra é igual a 11,00% a.a; e do grupo com mais de 60%, 11,04% a.a. Ao incluirmos a terra, somente para os grupos com terra própria, a taxa de retorno do capital passa a ser de 5,53% a.a para o grupo de 40% a 60% e de 3,23% a.a para o grupo com mais de 60%. Em ambos os casos a atividade leiteira se mostra viável, porém, pouco atrativa economicamente. Para o grupo com mais de 60% do capital empatado em terra, pior ainda, muito abaixo dos 6% a.a, que é o valor real mínimo aceitável para se ter uma atividade economicamente atrativa.

Diante do exposto, o que é melhor: desenvolver atividade leiteira em terras arrendadas ou próprias? Depende. Se você, produtor, for eficiente para alcançar alta produtividade de leite por hectare, com equilíbrio econômico e financeiro, tenha a sua própria terra, que será para você um ótimo negócio. Caso contrário, a atividade leiteira em terras arrendadas será o melhor negócio e o seu bolso agradece.

Uma certeza temos: a tendência da atividade leiteira é por grandes produtores de leite em pequenas áreas.

Fonte: Mundo do Leite 90

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