18 de dezembro de 2017
Seguindo em Frente
6 de outubro de 2017 - 16:01

Um lugar à sombra

Ismail Haddade, nosso colunista do "Seguindo em frente", defende que antes que a vaca entre em estresse corporal severo, o produtor tem que se mexer para oferecer a ela refúgio bem planejado para reduzir sua temperatura.

Ismail Ramalho Haddade

A sensibilidade das vacas leiteiras ao clima tropical é um fato bem comentado. Principalmente pelo estresse térmico que resulta nas deficiências produtivas dos animais. Apesar disso, muitas vezes, as necessárias áreas de sombra são mal planejadas ou esquecidas, dada a ânsia em buscar um animal resistente à elevada radiação, ou mesmo em esperar que estes ambientes não façam falta às vacas.

Ao bem da verdade, se observássemos as atitudes dos animais não haveria dúvida de que a provisão de sombra seja fundamental nas propriedades leiteiras. Porém, deixamos estas de lado às vezes pela dificuldade em entendermos a sensação térmica de uma vaca produtiva. A respeito disso convém afirmar que, com frequência, um ambiente que pra nós pode parecer “quentinho”, para a vaca poderá ser um verdadeiro “inferno”. E por que isso acontece?

De forma geral, para funcionar bem, o bovino precisa equilibrar o calor adquirido do ambiente mais aquele que ele produz, com o calor que ele tem condição de perder, mantendo assim sua temperatura corporal constante. Mas como o animal produz e adquire calor? O organismo da vaca, de forma semelhante ao nosso, funciona como um motor, porém muito mais potente. Quanto mais potência e funcionamento a “pleno vapor”, mais ele aumenta sua temperatura. Como se isso não bastasse, a exposição à luz solar direta e ao ambiente abafado também causam muitos problemas, pois podem aumentar muito o acúmulo de calor que a vaca é capaz de produzir. Portanto, se não tiver como diminuir essa elevada temperatura, a vaca começa a manifestar perturbações, reduzir seu consumo de alimento, aumentar a sua ingestão de água, e até gerar problemas produtivos e reprodutivos. Neste ponto, antes que a vaca entre em estresse severo, as sombras bem planejadas podem funcionar como refúgio para reduzir suas temperaturas corporais no decorrer do dia. E como o animal é capaz de reduzir o calor em excesso em seu corpo?

Claro que existe uma série de mecanismos adaptativos que dão as diferentes tolerâncias dos animais ao ambiente quente. Mas, o importante aqui é destacar que o animal apresenta duas formas de perder o calor: Uma que envolve gasto de energia (pela produção de suor e aumento da frequência respiratória), e outra, em que este gasto é ausente (contato com ambiente mais frio que o seu corpo, ventilação e emissão de energia radiante pelos animais). Para esta última forma, as condições do ambiente sombreado, com temperaturas mais baixas que as da vaca, no ar e nas superfícies em que elas encostam, além da presença de ventilação e de proteção da radiação solar são muito importantes. Portanto, destaca-se que os melhores ambientes sombreados são aqueles advindos de árvores, orientadas no sentido norte-sul (revezamento da sombra), possibilitando uma sombra projetada, o que ocasiona ausência de barreiras da cobertura e aumentam a ventilação, diminuindo o acúmulo de calor na sombra. Além disso, como as árvores demoram a se estabelecer, até que estas estejam em condições, deve- -se pensar nas sombras artificiais, a uma altura não inferior a 3,5 metros, obedecendo-se a mesma orientação, com coberturas do tipo Sombrite 80%, ou de palhas, ou até de bambu.

Enfim, a primeira boa dica é de observar as atitudes das vacas. Se elas parecem confortáveis com a sombra disponível (deitadas, ruminando tranquilas, com espaço suficiente). Aqui, cabe mencionar a brilhante frase do professor Evaldo Antonio Titto, da USP de Pirassununga: “Enquanto todos querem um lugar ao sol, as vacas preferem à sombra”

 

Fonte: Mundo do Leite 87

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