24 de fevereiro de 2017
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6 de janeiro de 2017 - 13:32

Como antecipar a idade de parto das novilhas

Acredite: a colostragem bem feita, logo nas primeiras horas de nascimento, é o primeiro passo

Niza Souza

Animais recém-nascidos exigem tratos especiais, principalmente nas primeiras horas de vida. Quando o assunto é rebanho leiteiro, onde os maiores desafios do produtor são conseguir reduzir a idade ao primeiro parto das novilhas e aumentar a produtividade dos animais em lactação, o cuidado e o manejo nutricional são fundamentais e devem começar imediatamente após o parto. O fornecimento de colostro é o primeiro passo para garantir o desenvolvimento sadio dos animais e atingir os melhores índices de desempenho.

Especialistas em nutrição afirmam que a colostragem é fundamental no manejo do rebanho. Estudos comprovam que o fornecimento de colostro nas primeiras horas de vida garante a imunidade de bezerros, já que, ainda no útero, os bezerros não recebem anticorpos via placenta. São, então, as imunoglobulinas do colostro que vão fornecer imunidade aos recém-nascidos contra agentes patológicos presentes no ambiente. No plantel leiteiro, além de refletir na idade ao primeiro parto, a colostragem pode garantir ainda animais com maior potencial de produção.

O colostro é o primeiro produto processado pela glândula mamária da vaca, no início da lactação. É uma rica fonte de anticorpos que foram produzidos nos dois últimos meses de gestação. Ele tem uma composição um pouco diferente da do leite, apresentando menores teores de lactose, mas maiores teores de gordura, sólidos totais, minerais e vitaminas, e principalmente proteína. Isso se deve principalmente à maior quantidade de imunoglobulinas (Ig), ou anticorpos.

A professora do Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), engenheira agrônoma Carla Maris Bittar, explica que o fornecimento de colostro deve ser feito logo nas primeiras seis horas de vida. O indicado, segundo ela, é que o recém-nascido receba de 3 a 4 litros de colostro nesse período.

“O animal nasce sem nenhum anticorpo circulante. Esse volume é suficiente para garantir a imunidade passiva até que o próprio sistema de anticorpos do bezerro se desenvolva, o que ocorre por volta da terceira ou quarta semana”, explica. Vale ressaltar que a colostragem é um procedimento que não gera custos ao produtor e só oferece benefícios.

Segundo Carla, a primeira dica para o produtor que busca um rebanho com novilhas preparadas para o primeiro parto aos 24 meses é partir de um animal que seja capaz de responder aos diferentes programas alimentares, o que se consegue com manejo adequado dos protocolos de colostragem.

“Animais que estão sempre doentes não apresentam taxas de crescimento adequadas, o que pode comprometer o seu crescimento, não só durante o período de aleitamento, como também a fase de novilha. Com animais com adequada imunidade pode-se adotar diferentes sistemas de aleitamento pensando em máximo desempenho ou menor custo de produção”, explica.

Para garantir os benefícios da colostragem, a professora diz que o mais indicado é controlar a quantidade e a qualidade do colostro que o animal vai receber. “O produtor tem de acompanhar o manejo. O ideal é fazer a ordenha da vaca recém-parida, mensurar a qualidade e depois fornecer para a bezerra.

O mais comum é fazer isso com mamadeira”, ensina Carla. Já a avaliação da qualidade pode ser feita com duas ferramentas: o densímetro (também conhecido como colostrômetro) ou o refratômetro.

A pesquisadora de Nutrição de Ruminantes Teresa Cristina Alves, da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos-SP), reforça a importância do período de fornecimento. “É fundamental que seja nas primeiras seis horas de vida da bezerra porque, com o passar das horas após o nascimento, o intestino do animal vai perdendo a capacidade de absorver os anticorpos presentes no colostro. Para não perder esse período, é importante o acompanhamento dos partos”, destaca.

A pesquisadora pondera que a bezerra pode ingerir o colostro diretamente na vaca, porém desta forma é mais difícil o produtor quantificar quanto de colostro foi consumido e a qualidade. Mas, independentemente da forma como é fornecido, afirma Teresa, a colostragem é indicada para todas as propriedades leiteiras, de qualquer tamanho ou sistema de produção adotado.

Apesar das vantagens comprovadas, ainda há muito para se avançar no campo. Um levantamento realizado em 2015 por Carla Bittar e Glauber dos Santos, do programa de pós-graduação em Ciência e Pastagens da Esalq, mostra que a ingestão de colostro nas primeiras horas de vida é a segunda preocupação dos produtores com a bezerra recém-nascida, realizada em 68% das 179 propriedades leiteiras consultadas, em três regiões do País. A cura de umbigo, conforme o estudo, é o principal cuidado, realizado em 87% das fazendas.

Intitulado “Pesquisa de práticas de gestão de bezerras de leite em algumas regiões do País”, o levantamento também apontou que os problemas enfrentados no campo são básicos, como tempo para a alimentação, volume e qualidade do colostro.

Uma das recomendações para tentar garantir a qualidade do colostro é com relação à alimentação da vaca prenha aos 30 dias antes do parto. De acordo com Carla, é nesse período que a matriz começa a produção do colostro e o animal deve receber alimentação rica em nutrientes. “A vaca também deve ser vacinada contra as doenças que acometem os bezerros, principalmente a diarreia, porque isso vai enriquecer o colostro com os anticorpos específicos.

Tudo isso torna ainda mais importante um período seco bem manejado. O volume do colostro está altamente relacionado à qualidade do período seco. Quando é muito curto, abaixo de 21 dias, certamente o colostro será de baixa qualidade”, explica.

Tudo isso, complementa a professora da Esalq, pode interferir positivamente na chegada da novilha ao primeiro parto aos 24 meses. “Determinante também é a alimentação que a novilha vai receber ao longo desse período”, diz. Entretanto, estudos mostram que o consumo de colostro nas primeiras horas de vida tem impacto positivo no potencial produtivo das novilhas, especialmente nas duas primeiras lactações. O aumento de produção é estimado em torno de 12%.

“Há estudos que indicam que animais que receberam mais colostro após o nascimento apresentaram melhor ganho de peso na fase de crescimento, produziram mais leite e tiveram menores custos com veterinário”, reforça a pesquisadora Teresa, concluindo que a colostragem nas primeiras horas de vida em quantidades adequadas se mostra uma eficiente estratégia gerencial para redução de custos e melhora na produção.

Vários trabalhos de pesquisa em propriedades leiteiras ratificam as orientações das especialistas. Os estudos mostram que a bezerra que recebe uma colostragem adequada adoece menos, ganha mais peso por dia de vida e cresce mais, reduzindo a idade ao primeiro parto, além de produzir mais leite na primeira lactação.

O produtor Claudinei Saldanha Júnior, do Sítio Recanto SS, em Itirapina SP, conta que o fornecimento de colostro é uma das principais preocupações no manejo dos animais. “Minha propriedade é pequena e orgânica, ainda não cheguei ao nível de fazer um controle tão grande do colostro como em grandes fazendas, que medem a qualidade e fazem o fornecimento por sonda esofágica, mas tomamos todos os cuidados para os bezerros recém-nascidos mamarem o colostro diretamente na vaca, pois sabemos da sua importância”, diz Saldanha Júnior, que há mais de dez anos adota os preceitos do Programa Balde Cheio, da Embrapa.

Apesar de acreditar que a mamada é um processo natural, ele diz que toma alguns cuidados para garantir o consumo do colostro. As vacas prenhas ficam no piquete maternidade e são acompanhadas de perto até o parto, que é supervisionado. “Os animais de raça leiteira são mais tranquilos, menos ativos se comparados aos das raças de corte e temos de ficar em cima para garantir que os bezerros vão mamar imediatamente”, explica.

Além disso, nos últimos 30 dias pré-parto a vaca recebe uma dieta especial, com zero sódio. “Desta forma conseguimos um colostro de melhor qualidade, além de evitar a retenção da placenta”, destaca o produtor, que tem em média 41 vacas em lactação e produção de 450 litros de leite/dia.

Os benefícios da colostragem, garante Saldanha Júnior, são imediatos e, o mais importante, não tem custos adicionais para o produtor. “A gente percebe que o animal tem mais imunidade nas primeiras semanas de vida, especialmente com relação a diarreia, fator que mais mata os bezerros. Também vemos que isso influencia positivamente no desenvolvimento do animal, no início de sua vida reprodutiva e na produtividade”, afirma.

Outra preocupação, salienta, é com a “involução uterina” da vaca. “Deixamos a bezerra junto com a vaca de 8 a 12 horas após o parto. Além de garantir o fornecimento de colostro, esse afeto entre os animais acelera o processo para o útero voltar ao normal e isso reflete no início na nova fase reprodutiva da vaca”, diz o criador, lembrando que reduzir o intervalo entre partos é outro desafio das propriedades leiteiras.

“Por isso, quando tem funcionário novo no sítio, a gente está sempre reforçando as técnicas e a importância desses manejos. Não podemos descuidar.” Nas propriedades onde o fornecimento tem controle mais rígido, a recomendação dos especialistas quando houver colostro excedente de boa qualidade é fazer o armazenamento em freezer, formando o chamado “banco de colostro”. Esta reserva pode ser usada quando vacas ou novilhas que acabaram de parir não produzirem colostro em quantidade ou qualidade adequadas.

O produto pode permanecer no freezer por até um ano sem perder suas características. “O descongelamento deve ser feito em banho-maria em temperatura que não ultrapasse os 50°C, uma vez que os anticorpos são proteínas e não podem ser submetidos a altas temperaturas porque desnaturam”, explica a professora Carla Bittar, da Esalq.

Depois de descongelar, recomenda-se colocar o líquido ainda morno na mamadeira limpa e oferecer à bezerra em menos de duas horas após o nascimento. “Para fornecer o colostro, o utensílio mais indicado é a mamadeira, principalmente pela facilidade que o bezerro tem para mamar de um bico, o que não ocorre com o balde”, sugere Carla.

Além da mamadeira, outro utensílio usado em alguns casos é a sonda esofágica, que só é usada quando o bezerro não quer mamar voluntariamente. Então, passa-se a sonda de forma a fazer uma alimentação forçada.
 

Na medida e no tempo certos

O tempo, a quantidade e a qualidade do material fornecido são os fatores mais importantes para se obter sucesso na colostragem. Fique atento.

 Tempo: ao pé da vaca, na mamadeira ou por sonda, a administração do colostro deve ocorrer nas primeiras 6 horas de vida dos bezerros. Esse é o período de maior absorção das imunoglobulinas. Quanto antes o colostro for fornecido, maior será o sucesso do método, pois com o passar das horas o trato digestivo do animal perde eficiência na absorção de imunoglobulinas e a concentração das mesmas no colostro também diminui;

 Quantidade: o recomendado é de 3 a 4 litros de colostro. Segundo especialistas, esse volume é adequado para qualquer raça e garante que o animal tenha os anticorpos necessários. Quando o manejo é feito ao pé da vaca, o manual da Embrapa Pecuária Sudeste orienta que o bezerro permaneça junto com a mãe por pelo menos 24 horas. Nesse período, ele mama entre 12 a 15 vezes e essas mamadas permitem que o filhote receba os benefícios do colostro;

 Qualidade: a avaliação da qualidade pode ser feita com o uso do colostrômetro ou com o refratômetro. O colostrômetro é um equipamento que correlaciona a densidade e a concentração de imunoglobulinas do colostro, fazendo a classificação da qualidade por cores - vermelho (pobre), amarelo (mediano) e verde (bom). É rápido e fácil, por isso é o teste mais utilizado em fazendas comerciais.

Entretanto, pesquisadores alertam que há uma faixa de temperatura adequada para a realização desse teste (20 a 25ºC). Outra maneira de medir a qualidade é o refratômetro de brix, que também pode ser realizado de forma rápida.

*Matéria originalmente publicada na edição 79 da Revista Mundo do Leite, em junho/julho de 2016.

Fonte: Revista Mundo do Leite

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