22 de janeiro de 2017
Leite
9 de janeiro de 2017 - 15:45

Como garantir alimento para o gado de leite na seca?

Pesquisadora fala sobre necessidade de planejamento ainda no período das águas para não faltar volumoso quando cessam as chuvas

Mariana Magalhães Campos

Ter oferta de alimentos volumosos de qualidade e em quantidade adequada no período de seca é um desafio a ser enfrentado pelos pecuaristas e que afeta o sistema de produção. O uso de forrageiras adaptadas à região aliado ao manejo adequado das pastagens podem amenizar ou reduzir os efeitos da sazonalidade climática sobre a produtividade do capim e dos animais, mas não evitam ou eliminam esse problema.

Durante os períodos de escassez, o sistema de produção de leite a pasto inclui, obrigatoriamente, um suplemento volumoso que forneça ao animal os nutrientes que a pastagem não consegue fornecer naquele momento. Sem essa estratégia, além da perda em produção, as vacas em lactação, principal categoria do rebanho, ficam prejudicadas em sua condição corporal e reprodutiva, comprometendo as próximas gestação e lactação, e a viabilidade econômica da atividade. Sendo assim, nesses períodos, as principais alternativas utilizadas para suplementação volumosa são o plantio da cana-de-açúcar e a produção de silagem (de milho, sorgo, capim ou cana-de-açúcar). Opções para suplementação que, para estarem disponíveis na seca, demandam um planejamento ainda no período chuvoso.

Para planejar bem uma dieta, deve-se ter em mãos as informações corretas sobre as exigências dos animais. Além de fazer o levantamento de todos os insumos que estão disponíveis em uma determinada região, conhecendo os fatores que podem limitar o uso de cada um deles, e os preços. Outro detalhe importante é considerar o caráter sazonal de alguns insumos, que devem ser comprados com antecedência e estocados.

Qual alternativa escolher? - Para definição da melhor alternativa de suplementação na seca, deve-se levar em consideração diversas características do sistema de produção como, por exemplo, condições climáticas, relevo, disponibilidade de terra, maquinário, mão de obra, assim como as exigências nutricionais dos animais que serão suplementados (nível de produção, categoria, ordem de lactação, condição corporal).

Cana-de-açúcar - Dentre as várias características que justificam sua utilização na alimentação de ruminantes, estão: o alto teor de sacarose; moderado teor de fibra insolúvel em detergente neutro (FDN) quando comparada a outros volumosos; alta produção de matéria seca por unidade de área; simplicidade do cultivo e de tratos culturais; relativa resistência a pragas e doenças; facilidade de compra e venda e caráter semiperene, além de ser cultura tradicional entre os produtores rurais brasileiros.

O fato de atingir o máximo valor nutritivo durante o período seco do ano, quando a disponibilidade de pasto é baixa, tem impulsionado sua divulgação como forrageira para cultivo em fazendas que utilizam pastagens e que visam minimizar o uso de tempo e capital em práticas de conservação de forrageiras.

Mas, se existem também limitações, uma delas seria a necessidade de mão de obra para fazer os cortes diários e questões de ordem nutricional – em função dos baixos teores de proteína, minerais (principalmente, enxofre, fósforo, zinco e manganês), pequeno aporte pós-ruminal de aminoácidos e glicose e baixa degradação ruminal da sua fração fibrosa. Essas limitações são corrigidas de maneira relativamente fácil por meio de formulações de dietas feitas por nutricionistas.

Os carboidratos estruturais da cana-de-açúcar, por sua vez, são fonte potencial de energia de baixo custo para ruminantes. No entanto, seu aproveitamento como fonte de energia é limitado devido às suas baixas digestibilidade e taxa de degradação e, consequentemente, baixo consumo voluntário. Este fato está relacionado, principalmente, à estrutura da parede celular, que protege os nutrientes nela contidos da digestão microbiana no rúmen.

Planejamento para uso da cana - No caso da escolha pela cana, o produtor deve plantar variedades de boa produtividade e capacidade de rebrota da soqueira, que sejam resistentes ao tombamento e possuam alto teor de açúcar. As condições de relevo e a fertilidade do solo também devem ser consideradas nessa escolha. Já em relação à época de plantio, para as variedades precoces, o momento adequado é de setembro a novembro, para que a colheita ocorra próxima ao período seco. De janeiro a março, plantam-se as variedades médias/tardias e a colheita se dá na seca do ano seguinte.

Silagem - A ensilagem de forrageiras é um processo biológico de conservação de alimentos volumosos, cujo objetivo é o de maximizar a retenção dos nutrientes presentes na forragem original pela sua conservação em meio ácido.

O uso de silagem representa a principal forma de suplementação de volumosos para o rebanho bovino nacional nos diversos sistemas de produção, com destaque para as silagens de milho e sorgo.

Os objetivos do melhoramento do milho foram, por muito tempo, limitados por critérios agronômicos, como a produção de grãos por hectare, resistências a doenças, pragas e aos estresses climáticos. Porém, a utilização do milho na forma de silagem da planta inteira é crescente no mundo todo, o que demanda a seleção de genótipos de milho especificamente para a produção de silagem de alta qualidade nutritiva.

Para produção de silagem, o sorgo tem se destacado por sua facilidade de cultivo, pelos altos rendimentos e pela menor exigência hídrica. Além disso, tal como o milho, tem uma boa qualidade de fermentação decorrente da alta concentração de carboidratos solúveis, essenciais para a fermentação lática, dispensando o uso de aditivos estimulantes da fermentação. Seu valor nutritivo é semelhante ao da silagem de milho.

A maneira mais eficiente para produzir silagem com menor custo é investir em lavouras de alta produtividade. O produtor deve ter em mente que planejamento e ganhos de eficiência nos processos, desde o plantio até o cocho, proporcionam melhores resultados, reduzindo custos e tornando a atividade mais rentável.

Alguns fatores justificam o emprego dessas duas espécies para a produção de silagem, sendo eles:

- Facilidade de cultivo

- Tecnologia disponível e de amplo conhecimento

- Grande número de cultivares disponíveis no mercado, adaptadas às diferentes regiões do Brasil

- Bom rendimento da matéria seca

- Facilidade de fermentação (dispensa o uso de aditivos)

- Volumoso com alto teor de energia

- Massa verde produzida

- Alto consumo pelos animais

A época ideal para plantio de milho para silagem varia conforme a região, sendo preferível optar pela janela de primeira safra, já que o risco do plantio na safrinha é maior. A principal limitação para uso da cultura é a necessidade de maquinário.

Planejamento para produção de silagem - Vale lembrar ainda que para fornecer uma silagem com os valores nutricionais adequados deve-se considerar que esse processo se inicia com o planejamento da produção da forragem na propriedade leiteira e isso envolve o conhecimento de quanto e como produzir.

O planejamento permite calcular o tamanho da lavoura que será plantada e o escalonamento de seu plantio, tendo em vista a quantidade de alimento necessária para o rebanho num determinado período e o tamanho dos silos que serão abastecidos. O cálculo da silagem a ser produzida a cada ano baseia-se, portanto, no total de animais que se quer alimentar associado à quantidade média que cada animal consome, na perda que ocorre no cocho e no número de dias que os animais receberão a silagem. Importante ressaltar que a mão de obra da propriedade, que irá trabalhar com a produção da forragem, em todas as suas etapas, deve receber treinamento adequado, além de ter um acompanhamento técnico para verificação do andamento das atividades.

O planejamento adequado possibilita um incremento na produtividade (em toneladas de silagem por hectare) proporcionando uma melhor rentabilidade da atividade leiteira. Com técnicas simples e de baixo custo – que envolvem apenas a mudança e/ou a introdução de novos conceitos de produção de forragem – é possível alcançar maior produção de silagem e consequentemente um menor custo unitário por tonelada produzida.

Na maioria das situações, as etapas necessárias para se produzir silagem de qualidade abrangem procedimentos de verificação do relevo, profundidade e fertilidade do solo; preparo do solo; escolha da cultivar; colheita e trituração da forrageira; transporte da forragem picada até o silo; descarga e distribuição da forragem no silo; compactação da forragem e a vedação do silo. O sucesso do processo de ensilagem, ou seja, a maximização na retenção dos nutrientes disponíveis na forragem original depende da execução adequada dos procedimentos em cada etapa. 

 

*Mariana Magalhães Campos é pesquisadora em Nutrição Animal da Embrapa Gado de Leite.

Fonte: Portal DBO

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