18 de dezembro de 2017
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10 de janeiro de 2017 - 14:57

Controle os vermes no rebanho

Técnicas de vermifugação estratégica e variação de medicamentos estão entre as melhores medidas

Cristina Olivette

Estudo de pesquisadores brasileiros aponta que as perdas provocadas por verminoses nos rebanhos leiteiros alcançam 0,6 kg de leite por dia, por animal. Por outro lado, vacas tratadas e que vivem em propriedades que adotam o manejo e controle de verminoses aumentam a produção entre 0,4 kg e 0,8 kg de leite por dia. As informações são da pesquisadora Ana Carolina Chagas, da Área de Parasitologia Veterinária da Embrapa/São Carlos. “O estudo revela que o prejuízo na produção de leite decorrente de verminoses chega a US$ 1,8 bilhão por ano no País.”

Em relação à pecuária de corte, o professor titular de Clínica Veterinária de Ruminantes da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, Enrico Ortolani, conta que o prejuízo anual causado pelas verminoses em bovinos alcança US$ 5,2 bilhões. “O valor é próximo ao angariado pelo Brasil com a exportação de carne bovina.”

Bovinos de leite, porém, são mais suscetíveis às parasitoses. “O que se sabe é que bezerros até a fase de desmama, normalmente, não apresentam muitos problemas por estarem se alimentando do leite materno. Além disso, nesse período, recebem cuidados mais especiais e ficam em casinhas isoladas.” Após o desmame, porém, é que os problemas começam. A pesquisadora diz que bezerros mamam por cerca de 60 dias. “Após esse período e até o animal completar 30 meses é que a preocupação é maior, pois o sistema imunológico ainda não está completamente desenvolvido, aumentando a suscetibilidade ao ataque de vermes.”

Vacas no pré-parto também devem ser monitoradas com cuidado, pois o sistema imunológico fica mais fraco em função da alteração hormonal decorrente da gestação. “É bem importante fazer a vermifugação 60 dias antes do parto, prazo suficiente para evitar que o bezerro recém-nascido se alimente de leite com resíduos do medicamento. Com essa ação, o produtor também evita a contaminação do ambiente, porque o animal mais suscetível tem carga parasitária maior, eliminando pelas fezes maior quantidade de ovos, que por sua vez contaminam a pastagem.”

Segundo o veterinário Ortolani, da USP, a lista dos parasitas de bovinos é imensa. “Mas os mais importantes não passam de 20. Sendo que a partir de dois anos o animal começa a ter a imunidade mais robusta, ficando mais resistente. Isso, no entanto, não impede que o problema se manifeste quando, por exemplo, houver queda de resistência.”

A pesquisadora da Área de Sanidade Animal do Instituto de Zootecnia, de Nova Odessa (SP), Luciana Morita Katiki, trabalha com parasitologia de ruminantes e lembra que muitas vezes os vermes em bovinos são assintomáticos. “O animal pode não ter diarreia grave e demais sintomas, mas o impacto vai sendo causado aos poucos. Em rebanhos grandes, acaba resultando em prejuízo econômico. Pesquisas mostram que mesmo uma baixa infecção por vermes pode causar depressão no apetite.”

Ela explica que os vermes se alojam no intestino do bovino e causam lesões e infecções que levam à perda de apetite. “A consequência é o retardo no crescimento e ganho de peso. Em cada pontinho nos quais os parasitas se fixam na mucosa gastrointestinal, ocorre a perda de nutrientes, ou seja, da proteína que deveria estar sendo usada para construir massa muscular e a imunidade dos animais. Sem aporte proteico adequado, o animal não responde aos efeitos de vacinas corretamente, ficando sujeito a contrair mais infecções.”

Ortolani conta que cada verminose causa um dano, mas todas desaceleram o crescimento do animal jovem. “A novilha com verminose crônica demora muito mais para ter o primeiro cio. E o animal que já começou a produzir vai reduzir a produção de leite. Verminose é sinônimo de perda de peso, prejuízo e até morte.” Luciana afirma que os vermes campeões, por ordem de ocorrência são: Cooperia spp. (intestino delgado); Haemonchus spp. (se encontra no estômago do bovino e fica instalado no abomaso); Trichostrongylus spp. (intestino delgado), e Oesophagostomum spp. (intestino grosso).

A pesquisadora acrescenta que há um quinto verme não citado no estudo, chamado fascíola hepática, que se aloja no fígado. “Ele está sendo encontrado no Estado de São Paulo e requer cuidado. O controle é difícil e pode resultar em condenação de carcaça. É uma espécie específica para áreas alagadas e comum no Mato Grosso. Aqui em São Paulo está presente no Vale do Ribeira.” Segundo Ortolani, um Haemonchus adulto instalado no abomaso suga 0,05 milímetro de sangue por dia. “Se houver mais de 2 mil vermes em um animal, sugarão o equivalente a 750 ml de sangue por semana. Uma bezerra de 200 kg tem, aproximadamente, 15 litros de sangue. Logo, em uma semana perderá 5% de seu sangue. Após semanas, terá anemia e desânimo.” Ele acrescenta que o consumo de alimento pelos animais parasitados por este verme é 15% inferior ao observado em animais saudáveis.

Outros vermes do abomaso apontados pelo professor são Tricostrongylus e Ostertagia, presentes em todo o território brasileiro, com destaque para o Rio Grande do Sul e regiões serranas. “Eles permanecem ‘enterrados’ na parede do estômago e dificultam a digestão, principalmente das proteínas. A Ostertagia pode diminuir o apetite em até 40%. Os dois vermes também provocam diarreia esverdeada. A perda de peso é pronunciada, principalmente entre o período da desmama e os dois anos de vida.”

Ortolani afirma que a Cooperia é menos maléfica, mas tem se tornado muito frequente nas duas últimas décadas, por causa da resistência que desenvolveu aos vermífugos. Ela causa 15% de redução do apetite e se parasitar junto com a Ostertagia, a inapetência sobe para 40%, além de provocar diarreia. “Já o Strongyluloides é típico de bezerros leiteiros e causa estragos apenas quando o número de lombrigas é alto. Também provoca forte diarreia.

Os casos são mais comuns no verão chuvoso.” Segundo ele, o Oesophagostomum ataca o intestino grosso, formando um caroço inflamatório de até 4 cm. Diferente de outros vermes, para causar danos basta uma centena deles e não milhares, como nos demais casos. Bovinos com mais de dois anos nem sempre se tornam resistentes a este parasita. “A lesão provoca diarreia verde-escura, constante e fétida, acompanhada de muco. O apetite do anima diminui bastante.”

A pesquisadora do IZ conta que outros trabalhos avaliaram a resistência aos vermífugos, chamados tecnicamente de anti-helmínticos, em rebanhos bovinos do Estado de São Paulo. “Foi constatada ineficácia dos produtos à base de ivermectina e moxidectina. Já os produtos à base de albendazol e levamisol permanecem eficientes.” O professor Ortolani conta que quando a ivermectina chegou ao mercado, em 1982, sua eficiência era tão alta que muitos acreditaram que certos parasitas desapareceriam.

“Quando os vermes se tornaram resistentes à ivermectina a 1%, as empresas lançaram os mesmos vermífugos a 3,5%. Os primeiros resultados foram muito bons, mas em poucos anos surgiram ‘supervermes’. Especialistas afirmam que o uso contínuo destes vermífugos concentrados só contribui para aumentar a resistência dos parasitas.” Segundo ele, a solução tecnicamente correta para superar a ineficiência desses vermífugos é suspender seu uso pelos próximos cinco anos. “Vale ressaltar que algumas propriedades que empregam rotação de vermífugos com diferentes grupos químicos estão em situação mais confortável.”

Ana Carolina afirma, no entanto, que alguns especialistas são contra o rodízio de vermífugos. “Pessoalmente, acredito que enquanto o anti-helmíntico estiver funcionando, o produtor deve seguir com ele. Ao perceber que o animal está ficando doente, desconfie da resistência e faça o teste de eficácia para confirmar se há necessidade de trocar o grupo químico.”

A pesquisadora da Embrapa recomenda teste anual de eficácia dos vermífugos. “O procedimento é bem simples”, diz.

Pegar 10 animais e tratar com um grupo químico como o das ivermectinas
- Pegar outros 10 animais e tratar com produtos a base de benzimidazol
- Pegar mais 10 animais e tratar com levamisol
- Por último, deixar 10 animais sem tratamento
Após 14 dias, coletar as fezes dos 40 animais e mandar para o laboratório. Assim, o produtor terá ideia de como foi a redução da infecção em relação ao grupo que não foi tratado e saberá qual grupo químico está sendo mais eficaz em sua propriedade.

A pesquisadora do IZ ressalta que as fezes devem ser coletadas preferencialmente do reto, colocadas em saco plástico e armazenadas em caixa com gelo. “Não pode congelar o material, que deve chegar ao laboratório em 48 horas para o teste Ovos por Grama (OPG) de fezes”, afirma Luciana. Segundo ela, o laboratório de parasitologia do Instituto de Zootecnia (Rua Heitor Penteado, 56, em Nova Odessa/SP), realiza o teste cobrando R$7,00 a amostra. Acima de 100 amostras o custo cai para R$ 5,00 cada.

Em 70% do território brasileiro as verminoses têm comportamento parecido, sendo mais frequentes em determinada época do ano, diz Ortolani. “A partir da região do norte do Paraná até o sul da Amazônia, o regime de chuvas é muito semelhante, para essas áreas recomendamos a vermifugação estratégica nos meses de maio (5), agosto (8) e novembro (11), para animais de até dois anos.” Segundo ele, as demais áreas têm outros regimes de chuva não tão bem definidos, principalmente no Rio Grande do Sul. “Mas o ideal é atacar os parasitas mais na estação seca que na chuvosa.”

Um detalhe importante na vermifugação estratégica é o tempo de atuação do produto no organismo. “Levamisole e albendazole não permanecem mais de 30 dias. Dose reforçadas de moxidectina, duram até 120 dias. Recomendo que no mês cinco se empregue o albendazole. Mês oito, levamisole e no mês 11 a moxidectina, para que o efeito final sobre os parasitas seja mais prolongado. E fique atento à dose recomendada na bula.”

A palavra “estratégico” vem do conhecimento do ciclo biológico dos parasitas, lembra a pesquisadora do IZ. “Sabemos que o verme vai estar no pasto principalmente nos períodos em que há umidade e calor. Mas, com as mudanças climáticas, as estações não são mais tão bem definidas e podemos ter umidade e calor o ano inteiro. Então, podemos ter verme no pasto o ano inteiro. Produtores precisam criar rotina para fazer exames de fezes periódicos, principalmente em animais jovens.” Segundo ela, ao desmamar o bezerro já deve receber vermífugo. “Esse animal deve ser colocado em pasto limpo, com o melhor capim, e ser submetido a exame de fezes a cada dois meses. O produtor deve coletar as fezes dos cinco animais mais feinhos. Caso o resultado aponte presença superior a mil ovos, o rebanho deve ser tratado.”

Luciana afirma que a alimentação de animais em fase de crescimento deve ter alto nível proteico. “É assim que se constrói sua imunidade, tornando-o resistente aos vermes. É claro que cada fazenda tem uma peculiaridade, um tipo de capim, de clima e raças mais susceptíveis ou não. Dependendo das características, o cuidado deverá ser maior e mais frequente.”

Em propriedades com maior lotação de animal por pastagem e com capim mais denso, que serve de proteção às larvas, a ingestão de vermes durante o pastejo é mais intensa, ressalta Ana Carolina. “Nesses casos, também se pode fazer uma vermifugação no mês de janeiro no grupo de animais em período de desmama, até os de 30 meses. A nutrição é extremamente importante porque estando bem nutrido seu sistema imunológico responderá bem.”

O controle de verminose no ambiente é difícil de ser feito, porém, porque requer período de descanso do piquete de pelo menos dois meses, diz a pesquisadora da Embrapa. “Tem de baixar o capim para que o sol bata e mate as larvas. Mas nem sempre esse procedimento dá certo, por isso, o controle deve ser feito no hospedeiro. Vale lembrar que não se pode jogar nenhum tipo de antiparasitário na pastagem porque irá poluir o solo e matar outros organismos.”

Segundo Luciana, outra opção para reduzir a ingestão de larvas durante o pastejo é realizar rotação dos piquetes com outros animais. Ela afirma que as espécies de vermes específicas de bovinos não atingem ovinos e vice versa. “Primeiro, coloca os ovinos para pastar, depois os bovinos. Estes últimos irão comer o capim com larvas dos vermes dos ovinos e não irão se infectar.

Ao mesmo tempo, estarão limpando o pasto. É uma prevenção natural que infelizmente não é muito utilizada, mas estudos mostram que é muito eficiente.” A pesquisadora acrescenta que quem trabalha com boi até aceita ter carneiros para limpar o pasto. “Mas quem tem carneiro não quer saber de boi limpando pasto porque precisa ter estrutura de criação diferente.”

*Matéria originalmente publicada na edição 79 da Revista Mundo do Leite, em junho/julho de 2016.

Fonte: Revista Mundo do Leite

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