22 de novembro de 2017
Gestão
7 de agosto de 2017 - 16:21

Como fazer a gestão da fazenda

Entenda como, onde e quanto gastar para garantir que os custos não atrapalhem a rentabilidade do seu negócio

Antonio Chaker Neto

O controle dos custos de produção é um dos fatores que aumentam a lucratividade e está nas mãos do pecuarista, ou seja, depende menos de fatores externos que o valor de venda.

Custo nada mais é do que o valor dos insumos e serviços consumidos na produção pecuária. Ou seja, quanto gastei para desmamar um bezerro? Quanto custa produzir uma arroba ou um quilo de leite? Qual valor foi gasto para formar um tourinho? Em época em que a palavra de ordem é racionalizar os custos, não vale o corte desenfreado.

Mesmo a contenção de despesas tem regras para que resulte em lucratividade. Temos fazendas controladas pelo Instituto Inttegra que gastam menos do que outras, porém, não são as mais lucrativas. Vou trazer esses números reais ao longo desse artigo. E por que isso acontece se elas são hábeis em economizar? Simplesmente, elas escolheram economizar nos itens errados. O segredo não está unicamente em gastar pouco, mas em gastar bem e apresento as regras básicas para que você avalie se está economizando nos itens certos.

Como o boi, que é “desmontado” no frigorífico e as carcaças são divididas em dianteiro e traseiro e, em seguida, em cortes como a picanha, alcatra, fraldinha, etc., o mesmo vamos fazer com os custos da fazenda.

É hora de desmontar as contas! Inicialmente em dois grupos: custeio e investimento. E explico: o investimento é tudo o que contribui para o patrimônio, ou seja, a cerca, o trator, a reforma de pasto entre outros. Como regra, considera-se investimento tudo o que tem durabilidade superior a 12 meses, que reflete na valorização da propriedade e sofre depreciação (construção de casas, reforma de pastos, aquisição de máquinas, etc). Já o custeio é o que se gasta na operação, dura menos de 12 meses e não contribui para o patrimônio. Exemplos são as vacinas, insumos de nutrição, mão de obra permanente, telefone, energia, entre outros. 

Devo destacar aqui o conceito de custo e desembolso: custo é a somatória dos custeios e depreciação dos investimentos, já o desembolso é o custo mais os investimentos, uma visão íntima do caixa.

Na equação, o ideal é que as proporções sejam próximas de 75% e 25%, respectivamente, para custeio e investimento. Mesmo nas épocas turbulentas, quando a arroba está em queda ou preços de algum insumo em alta, ou seja, realidades que enfrentamos nos últimos doze meses, é preciso criar condições para manter o mínimo de investimentos.

A fazenda é um organismo vivo que passa por depreciação diária e caso não haja o retorno anual superior a 20% do faturamento nas manutenções e investimentos, após cinco anos esse organismo estará doente. Os reflexos serão caras medidas curativas.

Definido o investimento, temos a maior parte (75%) que servirá para o custeio. Para racionalizá-lo, voltaremos ao desmonte das contas. As despesas de custeio devem ser divididas em duas categorias: fixas e variáveis. As despesas fixas são as quais, independentemente da quantidade do rebanho, ocorrerão no mesmo volume (mão de obra permanente, impostos que não incidem na produção ou quesitos administrativos). Por outro lado, as despesas variáveis são as que crescem junto com o rebanho como nutrição, sanidade e reprodução.

O pulo do gato está em controlar o custo fixo e reduzi-lo ao máximo. É preciso ser extremista!

O ideal é que apenas 40% do custeio seja de despesa fixa e 60% de variável. Sei que a meta é audaciosa, pois na grande maioria pratica-se o contrário, com 70% em custo fixo e 30% em variável, mas é preciso perseguir esse percentual. Economizar no custo fixo realmente não é fácil, pois é preciso se atentar aos detalhes e cortar luxos.

Há pessoas que constroem “prefeituras” na fazenda, com uma máquina inchada. Será necessário? Outros têm um escritório na cidade e outro na fazenda. Vale a pena? Determinada pessoa da equipe não poderia assumir outras tarefas e otimizar o tempo? Seria possível aumentar a capacidade de suporte e ter mais animais para que o custo fixo se dilua?

As fazendas consideradas “top rentáveis” pelo Instituto Inttegra fazem a lição de casa e economizam em itens fixos. Em geral, o custo da mão de obra por cabeça ao mês é de R$ 7,42 contra R$ 10,23 da média dos rebanhos avaliados pelo Inttegra.

O interessante é que as fazendas que gastam menos com mão de obra têm equipes recebendo melhores salários, isso se dá pela maior relação cabeças/equipe. Assim, as melhores têm R$2,81 por animal, ao mês, para investir em tecnologia.

Na categoria manutenção, a diferença é de R$ 2,47 e em administração de R$ 1,76 a mais no bolso das “top rentáveis”. Somando esses três itens fixos, elas têm R$ 7 extra, por cabeça, ao mês, para gastar se comparado à média das fazendas avaliadas (Tabela 1).

Quando se gasta muito no fixo, em momentos de vacas magras, deixa-se de investir em tecnologia e se faz cortes onde não deveria. O produtor se esquece de que a alavanca da produção está nos custos variáveis, ou seja, aumentar o trato, investir em sêmen diferenciado ou priorizar um medicamento mais completo para controle de um parasita. Por exemplo, com o extra de R$7,00, as "top rentáveis" podem iniciar um protocolo nutricional que tem capacidade de ampliar o ganho médio diário em 0,1 kg por dia.

Por fim, toda essa somatória do custo não pode superar o benefício. Confio numa poderosa equação muito simples de ser definida para se estabelecer o limite de gasto mensal: o desembolso deve ser até 70% do benefício gerado.

O benefício é o ganho mensal médio em reais (R$). Por exemplo, no valor de @ em R$130, animais ganhando 0,45 kg/dia, 0,55 kg/dia e 0,65 kg/dia, geram benefícios mensais de R$58,50, R$71,50 e R$84,50, respectivamente (ganho diário x 30 dias x 50% de rendimento de carcaça ÷ 15 x valor da @).

Com base nestes números temos um limite de gasto mensal por cabeça de R$41,00, R$50,10 e R$59,20 para as faixas de ganho citadas, sempre ressaltando que os maiores ganhos potencializam o giro de estoque e o lucro final da fazenda.

Em estudo realizado pelo Instituto Inttegra, constata-se que R$50,00/cabeça/mês é um valor limite para que a maioria das fazendas não entrem no vermelho. No quadro abaixo, em que cada bolinha representa um projeto pecuário analisado, percebe-se que há uma maior concentração de lucro entre aqueles que se aproximam do limite de desembolso de R$50,00 cabeça/mês. Vemos que conforme aumenta o desembolso (eixo x), o resultado por hectare (eixo Y) reduz. Isso ocorre porque o aumento no desembolso não foi acompanhado pelo aumento na geração de benefício (GMD).

Gastando de maneira certa

Para evidenciar a importância de gastar bem, trago dois casos de propriedades com as mesmas condições de produção, o que facilita nossa comparação. Elas gastam praticamente a mesma coisa, em torno de R$44,00/cabeça/mês, porém, ao analisar o lucro, o caso 2 tem 70% a mais em resultado por hectare/ano. Conseguiu isso, pois economizou em manutenção e administração e gastou mais em nutrição e reprodução. O dinheiro foi colocado no lugar certo, onde há retorno e maior ganho por animal (tabela abaixo).

Portanto, em resumo, a meta é gastar até 70% do benefício gerado por cabeça ao mês, com 60% do custeio em despesas variáveis. É hora de olhar para dentro de casa e pensar onde se deve economizar. O líder precisa sair do operacional e refletir, desmontar, buscar estratégias, simplificar e perseguir a redução do custo fixo. Siga esse norte.

Antonio Chaker Neto é zootecnista e coordenador do Integra - Instituto Terra de Métricas Agropecuárias.

Fonte: Scot Consultoria.


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