26 de abril de 2018
Reportagem de capa
12 de dezembro de 2017 - 14:49

Adeus à marca a fogo

Com fazenda referência em bem-estar animal, Carmen Perez utiliza brincos, colares, tatuagens no rebanho enquanto busca alternativa para acabar com a última marca a fogo, a da vacina contra a brucelose nas fêmeas jovens.

Maristela Franco

Ela faz parte da história da pecuária bovina. Tem ajudado a identificar rebanhos desde o antigo Egito, garantindo direitos de propriedade e facilitando o manejo do gado. No Brasil colonial, deu origem a uma espécie de “heráldica dos sertões”, cujos “brasões rústicos”, impressos na pele dos animais a ferro incandescente, indicavam a riqueza e status social de seus donos. Nesta última década, contudo, ela – a marcação a fogo – tem sido duramente questionada. Não apenas porque traz prejuízos econômicos (perda de peso, estresse, riscos de inflamação no local queimado, danos ao couro), mas principalmente porque atenta contra o bem-estar dos animais, quesito que mobiliza ONGs (organizações não-governamentais) do mundo inteiro, determina o comportamento de compra de muitos consumidores e funciona como “espinha dorsal” de projetos pecuários sustentáveis.

Nesta reportagem, DBO convida seus leitores a refletir mais profundamente sobre esse tema e responder uma pergunta: é possível eliminar a marcação a fogo das fazendas? Muitos, por força do hábito, podem dizer que não. Outros até gostariam de abandonar esse velho sistema de identificação, mas se deparam com duas barreiras consideradas intransponíveis: a dificuldade de comprovação da origem do animal em caso de roubo ou mistura com rebanhos vizinhos e a menor visibilidade dos métodos alternativos no manejo a campo. Carmen Martins Perez, proprietária da Fazenda Orvalho das Flores, em Araguaiana, MT, e pre sidente do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), é uma das pecuaristas no País a transpor essas barreiras. Ela decidiu parar definitivamente de marcar seus animais, mantendo apenas o símbolo da vacinação da brucelose nas fêmeas, enquanto desenvolve um sistema alternativo para apresentar ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, conforme permite a Instrução Normativa Nº 10/2017.

Sua decisão de parar totalmente de marcar os animais pode parecer radical, mas vem sendo avaliada há 12 anos, desde que Carmen assumiu a administração dos 4.000 ha de terra herdados por sua mãe, em 2005. Na época da partilha, cerca de 14.000 bovinos foram passados no curral, separados e identificados a fogo com a marca dos novos donos. “Durante 60 dias, vi aquela cena de animais com dor se repetindo e isso me incomodou muito. Não tomei uma atitude na época porque não sabia por onde começar”, relembra. Conforme a fazenda foi se tornando uma referência nacional em bem estar animal (faz desmama lado a lado, trabalha com lotes pequenos no curral, vacina no tronco de contenção, seleciona vacas por temperamento, faz massagem neonatal), mais Carmen se convencia de que a marcação a fogo não se encaixava em seu projeto pecuário. Por isso, ela decidiu dar-lhe um “basta”, mesmo que isso afetasse o manejo do gado na fazenda. “Não dá para negar que essa prática causa dor e desconforto”, argumenta a produtora.

A matéria completa está na edição de dezembro da Revista DBO. Assinantes também podem lê-la na edição digital.

Fonte: DBO 446

Comentário