18 de dezembro de 2017
Reportagem de Capa
16 de setembro de 2016 - 12:00

DNA a serviço da carne

Genômica avança como ferramenta de produtividade e promete nova revolução na pecuária, destaca reportagem que abre o Especial Genética da DBO de setembro

Carolina Rodrigues

A pecuária brasileira poderá, um dia, ter um gado Nelore com a carne tão marmorizada quanto a do gado Angus e o gado Angus com uma resistência ao carrapato tão boa quanto o Nelore? Se depender da genômica – a ciência que decifra o genoma bovino, de forma a que se possa melhor predizer a transmissibilidade de características para seus descendentes, a resposta é sim.

Isso será possível graças a uma técnica hoje em estudo chamada “edição gênica”, que nada mais é do que a capacidade de se “cortar” um pedaço de DNA do genoma de uma determinada espécie (ou raça, no caso), no gene responsável pela característica desejada, e “colá-lo” em outro. Uma realidade que não tardará muito a acontecer, na opinião de José Fernando Garcia, um dos precursores da genômica molecular no País, com trabalhos conduzidos na Faculdade de Medicina Veterinária da niversidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araçatuba, onde lecionou até 2015. “Acredito que isso será possível em três anos”, avalia ele, com base nos resultados preliminares apontados pela técnica. “Será a cereja do bolo da genômica”, sentencia.

Outra possibilidade que se descortina com a genômica é a supressão do até agora imprescindível teste de progênie – avaliação que demanda anos controlando o desempenho dos filhos de um determinado touro, a um custo de aproximadamente R$ 50.000 por animal avaliado, para que se tenha uma acurácia (grau de confiabilidade de acerto) elevada na predição de transmissibilidade das características desejadas. Algo no qual aposta David Ian Hill, diretor geral da Agropecuária Jacarezinho, empresa com fazendas em cinco Estados brasileiros, rebanho de 54.000 cabeças, produção de 2.000 touros selecionados por ano e dona de um dos maiores bancos genômicos do País, com 9.000 animais genotipados.

A empresa testa cerca de 30 tourinhos por ano (os 10% melhores de cada safra) e, com a genômica, a acurácia saltou de 55-62% para 68-72%, com expectativa de que alcance a casa dos 90% nos próximos três anos.”Se eu tiver uma confiabilidade genética deste nível, por que precisarei esperar cinco anos para provar um touro? Posso coletar informação dele no processo de produção e continuar selecionando minha parcela dos melhores”, diz ele. 

Esse grau de acurácia permitiria a identificação de tourinhos melhoradores, ainda muito jovens – ou mesmo ainda no ventre de suas mães, o que poderia transformar o uso de touros a campo numa estratégia competitiva à inseminação artificial em tempo fixo (IATF), hoje amplamente utilizada para maximizar o efeito genético de animais provados e aumentar os índices reprodutivos da estação de monta. “Os custos da IATF seriam mais altos; deixaria de ser rentável o gasto com protocolos de inseminação e mão de obra”, sugere o diretor da Jacarezinho.

Nova fronteira

Desde que foi adotada no País, em 2008, a genômica tem avançado a passos largos na busca de solucionar questões ligadas ao avanço da qualidade da carne brasileira, para torna-la mais competitiva em mercados mais exigentes. Para Lúcia Galvão Albuquerque, pesquisadora da Unesp-Jaboticabal, ela é a nova fronteira do melhoramento genético, que poderá elevar os índices de produtividade, com grande impacto na seleção de características que ainda não conseguimos selecionar pelos métodos tradicionais. “Ela é o caminho para abrir frentes onde somos ineficientes, como qualidade da carne, reprodução e eficiência alimentar”, diz.

Roberto Carvalheiro, doutor em genética e melhoramento animal, pesquisador da mesma Unesp, onde é parceiro de Lúcia Albuquerque em alguns projetos, considera que a genômica evoluiu muito nos últimos anos, ainda que tenha “tropeçado” no começo, quando as empresas que oferecem a ferramenta prometeram coisas que “ela não estava pronta para entregar”. Agora, sim, ela estaria nessa condição. “Bem aplicada, ela pode entregar o que promete”, diz o zootecnista.

Caminho pavimentado

A grande vantagem da genômica é apontar, com maior segurança e de forma antecipada, quais animais devem permanecer no processo de seleção (mesmo que ainda muito jovens), agregando confiabilidade às características já mensuradas pelos programas seleção. Um processo que se consolidou, segundo pesquisadores, com os avanços obtidos no desenvolvimento da tecnologia.

A análise do DNA ocorreu de modo experimental, em 2007, por meio de um chip contendo 50 mil marcadores moleculares, ou pontos denominados polimorfismos de base única, comumente chamados pela sigla em inglês SNPs (veja ilustração). A utilização de um número maior de marcadores permite que a estimativa da DEP, principal instrumento para predição do melhoramento genético, seja feita com base na informação contida nesses marcadores (DEP genômica), o que resulta num aumento de acurácia da DEP, principalmente no caso de animais jovens, sem prova/filhos nascidos.

No Brasil, os pesquisadores trabalharam nos últimos anos com painéis de alta densidade (777.000 SNPs) assistidos por milhares de marcadores distribuídos por todo o genoma bovino, tecnologia bastante utilizada para compor pesquisas, mas proibitiva em termos práticos, uma vez que o preço girava em torno de R$ 400,00/cabeça. Hoje, os programas trabalham com painéis de média densidade (12.000-50.000 marcadores) correlacionando as informações com painéis de alta densidade em um processo chamado de “imputação”. Com ele, os custos da genotipagem baixaram significativamente – para cerca de R$ 120 por animal, sem perder a eficácia nas predições.

“No início, havia muitas limitações. Foi preciso esperar o preço o da genotipagem baixar, criar logísticas e boas plataformas de trabalho”, lembra José Fernando Garcia, hoje, sócio da empresa AgroPartners Consulting, sediada em Itu, SP, voltada para projetos de genômica “sob medida” , ou seja, buscando obter chips e projetos com informações específicas para as necessidades de cada plantel.

Uma tendência, na opinião de Raysildo Barbosa Lôbo, presidente da ANCP (Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores), entidade que acompanhou de perto as mudanças sofridas pela tecnologia e que a aplica, há dois anos, no Programa Nelore Brasil (2,3 milhões de animais avaliados), para a escolha dos touros que serão levados ao teste de progênie da empresa, o Reprodução Programada.

Os animais são submetidos ao Clarifide 2.0, produto desenvolvido pela multinacional norte-americana Zoetis, que os avalia em 22 características do programa. “Antes, os testes começavam com uma estimativa de 20% de acerto nas predições. Hoje eles se iniciam ao redor de 60%, um número excelente para animais com 30 meses de idade, sem progênie alguma”, entende Raysildo, lembrando que quanto antes um reprodutor for introduzido no processo de seleção, menor será o intervalo entre as gerações e maior o ganho genético/econômico.

Predição potencializada

Num estudo realizado para comparar o impacto da genômica nos testes de progênie, a ANCP observou aumento expressivo de acurácia em duas principais características da atual seleção do programa: Idade ao Primeiro Parto (IPP), que evoluiu de 27% para 56%, e Stayability (longevidade produtiva da fêmea), que saltou de 23% para 47%, niveis só obtidos antes em vacas com idade próxima aos oito anos. “Podemos obter essas estimativas com bezerras de apenas três meses de idade, fator que, combinado com as tecnologias de reprodução, como transferência de embriões, fertilização in vitro e sexagem de sêmen, tem um impacto enorme na propriedade”, diz o professor.

Informação de suma importância quanto mais rapidamente for obtida, tendo em vista que as características positivas de um touro nessa área maternal é uma das mais buscadas e, em alguns casos, animais de excelente mérito genético total são negativos para leite. No Reprodução Programada da ANCP, a acurácia para habilidade maternal com o uso de marcadores moleculares é de 46%.

Além da ANCP, as DEPs genômicas são utilizadas também pelos programas de melhoramento DeltaGen, Pai nt (da CRV Lagoa) e CIA de Melhoramento, com avaliações rodadas pela empresa gaúcha GenSys e que compreendem um bom número de projetos CEIP (Certificado Especial de Identificação e Produção). Embora utilizem a tecnologia para assegurar a confiabilidade dos testes de progênie e escolha de doadoras para os programas de FIV, todos esses programas demonstram deficiência quanto ao uso da seleção genômica propriamente dita, uma vez que não trabalham efetivamente características de baixa herdabilidade, difícil mensuração ou não mensuráveis, como a maciez no gado Nelore, por exemplo. Para elas, os resultados ainda são incipientes, com pouca ou quase nenhuma aplicação prática.

Cassiano Roberto Pelle, gerente técnico do programa Delta Gen, reconhece que faltam dados para que o uso da genômica, de fato, torne-se efetivo para essas características. “Já comprovamos o valor da genômica na identificação de paternidade e ajuste da matriz de parentesco. E temos obtidos bons resultados ao trabalhar as DEPs genômicas para melhorar a estimativa da DEP tradicional. Mas nessa área, ainda estamos engatinhando.” Isso porque para fazer uma boa predição da prova genética do animal com base nos valores genômicos é necessário estimar bem os efeitos dos marcadores moleculares em uma base de dados bem estruturada e composta por um grande número de indivíduos.

Embora os projetos  de genômica tenham riquíssimos bancos de dados, eles estão isolados no poderio de cada um, formando ilhas de informações. Hoje, são cerca de sete projetos trabalhando características reprodutivas e produtivas da raça Nelore relacionadas à eficiência alimentar e qualidade de carne e carcaça, além de pesquisas sobre resistência a endoparasitas em raças taurinas, que somam cerca de 10.0000 genótipos cada. 

Fonte: Revista DBO 431

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