26 de maio de 2017
Vale a pena ler de novo
3 de janeiro de 2017 - 13:35

Controle alternativo de vermes

Alternar pasto e lavoura na mesma área é solução eficaz na prevenção ao parasitismo

Enrico Ortolani

O homem está sempre em busca de soluções, desde que sejam práticas, não trabalhosas, eficientes e baratas. O pecuarista não foge à regra. As vacinas polivalentes previnem, com poucas agulhadas, o surgimento de várias doenças, como as clostridioses.

Quando a ivermectina surgiu, há 33 anos, parecia que quase todas as parasitoses, do berne aos vermes, seriam resolvidas. Mas não foi bem assim. Na teoria, a prática é outra. No capítulo anterior, discutimos como prevenir parcialmente as verminoses por meio de vermifugações estratégicas. Agora mostraremos outras alternativas, como a decantada rotação das pastagens para matar as larvas de lombrigas antes que sejam engolidas pela bicharada.

Um bovino começa a ter verminose, mais comprometedora, quando se encontram no mínimo 400 ovos de vermes por grama de fezes. Um boizinho de 300 quilos defeca em média 12 quilos de estrume por dia. Assim, se esse animal tiver aquele grau de verminose pode eliminar diariamente nada menos do que 4,8 milhões de ovos na pastagem.

Porém, a maioria dos ovos não vinga e uma boa parte das larvas morre antes de ser engolida pelo boi. Estima-se que até 3% dos ovos originais prosperam e representam perigo dentro dos primeiros 45 dias na natureza. Depois disso vão aos poucos morrendo de fome. Mesmo assim, nosso boizinho poderia gerar 144.000 larvas viáveis por dia, o que já daria para contaminar uma boiada.

As larvas gostam de lugares ligeiramente umidificados, quentes e mantidos sob sombra. A pastagem de verão pode ser o paraíso para elas, visto que a temperatura ambiente ideal é de 15 a 32 graus. As larvas podem estar dentro da placa de fezes ou se deslocar por até 30 centímetros ao redor desta. No interior da placa de fezes, a umidade é espetacular e, fora desta, a umidade ambiente adequada é de 65%, muito comum no verão. Chuvas exageradas e contínuas e seca prolongada são um martírio para a sobrevivência das larvas.

As larvas podem migrar pelas hastes e folhas dos capins. Estudos brasileiros demonstraram que a maioria das larvas fica à espera para ser abocanhada no alto do capim braquiária (entre os 15 a 30 centímetros), diminuindo seu número na parte mais baixa deste. Quando as larvas saem da proteção dentro da placa de fezes, ficam mais sujeitas a morrer por dessecação ou ataque de fungos e ácaros.

Feitas essas considerações sobre a sobrevivência das larvas, vamos aos fatos. Muito se falou e se fala que o rodízio tradicional de pastagem ajuda na prevenção do parasitismo. Pois bem, atendi mais de uma propriedade com tal manejo, levado a sério, cuja garrotada apresentava verminose brava. Elementar, meu caro Watson!

Em boa parte dessas pastagens o retorno da boiada ao piquete gira em média em 30 dias. O capim pode ser o de melhor qualidade, mas pode estar muito contaminado previamente com ovos, que se tornaram larvas vitaminadas, esperando para ser engolidas. Assim, "rodízio X prevenção de verminose" é história para boi dormir, a não ser que o tempo de reocupação da pastagem seja no mínimo de 50 dias e a altura do capim seja maior que 45 centímetros.

O que funciona para valer é a rotação das culturas, no sistema chamado integração lavoura-pecuária. Toda vez que se rotaciona, numa pastagem muito contaminada, uma plantação, como a do milho, a aração e o tempo até a colheita fazem com que o ambiente fique completamente limpo de larvas. Em seguida, desde que os animais entrem desverminados, a pastagem permanecerá limpa por praticamente um ano. É uma boa!

Um besourinho, chamado "rola-bosta", ajuda a diminuir a sobrevida das larvas no ambiente. Ele se alimenta de fezes bovinas e para isso faz túneis, destrói, espalha e enterra as placas de esterco. Os principais inimigos dos besouros são os vermífugos à base de ivermectinas, sendo o mais devastador deles a eprinomectina. É comum chegar numa pastagem em que na criação se constata o uso e abuso das ivermectinas e encontrar muitas placas de fezes secas e inteiras no ambiente, pelo sumiço do "rola-bosta".

Bois que recebem dieta muito rica em proteína vegetal (sal proteinado com 20% ou mais de proteína bruta) não apenas aguentam melhor as consequências provocadas pelos parasitas, como também aumentam sua resistência contra a penetração das larvas na parede do abomaso e dos intestinos.

Um fator que os melhoristas ainda não trabalharam é seleção de touros para a resistência de seus filhos à verminose. Num estudo com dezenas de touros, verificaram que os piores deles produziam filhos até 20 vezes mais propensos à verminose ante os mais resistentes. A lição de casa precisa ser feita!

Muitas pesquisas estão sendo feitas com o uso de medicamentos naturais à base de plantas e seus extratos, outros compostos minerais e de fungos para atuarem como vermífugos naturebas, mas ainda tem chão para se tornarem uma realidade. Vacina até agora, necas. Escolha seu método apropriado e "fé em Deus e pé na tábua"!

*Matéria publicada na edição 425 da Revista DBO, em março de 2016

Fonte: Revista DBO

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