21 de fevereiro de 2018
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13 de fevereiro de 2018 - 11:16

Ultrablack chega ao Brasil

ABA fará registros e planeja fomentar a raça no cruzamento com fêmeas Nelore/Angus para produzir carne marmorizada

Maristela Franco

Precoces, férteis e boas mães, as fêmeas ½ sangue Nelore/Angus são, na opinião de muitos, um "tesouro desperdiçado". Quando os produtores as retêm na fazenda para reprodução, normalmente não sabem como aproveitar seu potencial genético. Esse dilema, porém, deixará de existir em breve, segundo os dirigentes da Associação Brasileira de Angus (ABA), com sede em Porto Alegre, RS. A entidade está trazendo para o Brasil a raça sintética Ultrablack, que foi criada nos Estados Unidos, em 1993, e apresenta forte expansão no norte da Austrália (veja quadro). Ela pode ser excelente alternativa para cruzamento com fêmeas F1, visando à obtenção de animais F2 com 66% de sangue Angus, cujas carcaças fornecem carne de qualidade mais próxima à dos animais puros. "O mercado estava nos pedindo isso há tempos", garante Reynaldo Titoff Salvador, diretor do Programa Carne Angus Certificada. Segundo ele, hoje nascem anualmente 1,5 milhão de fêmeas ½ sangue Nelore/Angus no Brasil. Pelo menos 700.000 são submetidas a cruzamentos diversos, muitos não assertivos.

Com 66% de sangue taurino, o produto do cruzamento de matrizes F1 com Ultrablack não somente atenderá aos requisitos do programa da ABA, mas também fornecerá carne de padrão gourmet, com índice de marmoreio não encontrado nos ½ sangue, atendendo mercados mais exigentes. Será possível produzir esse tipo de carne em regiões não propícias à criação de raças britânicas puras, como o Brasil Central, pois os machos F2 serão mais rústicos, por terem cerca de 18,75% de sangue zebuíno (o Brangus tem 37,5%). Segundo Fábio Schuler Medeiros, gerente nacional do programa Carne Angus, alguns produtores já importaram partidas de sêmen e de embriões da raça. Há produtos nascidos e a associação deve fazer os primeiros registros genealógicos em julho. Já está se preparando para isso desde fevereiro de 2017, quando obteve autorização do Ministério da Agricultura.

Touro de combate - A raça Ultrablack está sendo trazida para o Brasil também com o objetivo de criar novas alternativas comerciais para os selecionadores de Angus, que, assim, poderão acessar mais facilmente o enorme mercado de touros do Centro-Oeste. Produzir esse sintético é relativamente simples para quem tem fêmeas Angus PO. Basta insemina-las com reprodutores Brangus PO. O passo seguinte é cruzar indivíduos Ultrablack entre si para fixação da raça. Em Estados de clima mais ameno, como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, esse sintético pode ter espaço garantido, mas será necessário avaliar seu desempenho em regiões mais quentes como Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Norte do País. A expectativa da ABA é positiva, porque a raça é rústica e se adaptou facilmente às condições do norte da Austrália, cujo clima é mais seco do que no Centro-Oeste.

O Ultrablack é um animal mocho, de biótipo musculoso, comprido e mediano. Sua pelagem, que pode ir do preto ao vermelho, é curta e lisa, o que lhe garante adaptação ao calor. Além disso, o Ultrablack foi selecionado para resistência ao carrapato. "Trata-se de um touro de combate, que levará para o Brasil Central o máximo de genética Angus que essa região admite", garante Fábio Medeiros. "Até 2020, teremos 6 milhões de vacas ½ sangue Nelore/Angus em rodeio no Brasil, se consideramos o crescimento do plantel desde 2014. Para cobri-las, precisaremos de grande quantidade de touros Ultrablack. Trata-se de um mercado novo que se abre para o selecionador", afirma Reynaldo Titoff. Segundo ele, pelo menos três das grandes centrais de inseminação do Brasil já estariam se preparando para vender sêmen da raça.

Projetos de carne gourmet - Um dos pecuaristas que está apostando nesse novo sintético é Valdomiro Poliselli Júnior, presidente da VPJ Alimentos, com sede em Pirassununga, SP, que importou sêmen e embriões da Austrália para formar seu núcleo de seleção. "Meu objetivo é usar o Ultrablack nas fêmeas ½ sangue Nelore/Angus da VPJ e estimular nossos parceiros de projeto a fazer o mesmo, para que, daqui a três anos, possamos produzir uma carne de qualidade melhor do que a que temos hoje", explica. Devido ao baixo percentual de sangue zebu no Ultrablack (um terço), as progênies desse cruzamento apresentam pequena segregação mendeliana, o que garante ao produtor animais mais homogêneos do que os obtidos no cruzamento das F1com Brangus ou Braford. Isso é importante para quem trabalha com carne de qualidade e precisa garantir padrão regular aos clientes.

Poliselli acredita que os machos F2 vão desmamar pesados, com 260 a 280 kg. "Trata-se de um animal ideal para confinamento. Vamos fazer uma pecuária tão intensiva quanto a avicultura e a suinocultura, de alta tecnologia e alta velocidade. Os animais vão sair direto do pé da mãe para o confinamento, eliminando-se a recria. Sete meses depois da desmama já estarão sendo abatidos", explica Poliselli, que está preparando uma nova marca para colocação desse produto diferenciado no mercado. O empresário diz que já produziu alguns machos F2 para avaliação e aprovou o resultado. "A carne é uma manteiga, tem marmoreio. É bem melhor do que a do meio-sangue", garante. Para o presidente da ABA, José Roberto Pires Weber, o Ultrablack é a chave para um novo boom de cruzamentos no País, pois possibilita maximizar o uso da genética Angus. Em 2020, já será possível ofertar animais PO em leilão.

Versatilidade é a chave - O Ultrablack foi criado há 40 anos nos Estados Unidos, mas seu nome foi registrado somente em 1998, pela empresa Creek Ranch, do Alabama. Nos anos 2000, os australianos desenvolveram seu próprio composto, usando as mesmas bases (cruza de Angus com Brangus). Segundo Mateus Pivato, gerente de fomento da ABA, produtores do norte australiano e Queensland, regiões de clima tropical, viram no Ultrablack uma alternativa ao zebuíno puro, cuja carcaça é menos valorizada naquele mercado. Chamado também de "Angus tropical", o Ultrablack enfrentou com eficiência o clima quente da região e tem conseguido atender programas exigentes de carne de qualidade, como o Meat Standards Australia (MAS), conduzido pela Meat & Livestock Australia Limited, entidade promotora da cadeia pecuária bovina naquele país. O MAS oferece prêmios atrativos aos pecuaristas. Somente em 2014/2015, foram classificados 3 milhões de animais, utilizando-se um software que cruza dados de carcaça com informações fornecidas por consumidores em testes de degustação.

Uma das empresas australianas que mais investiram no Ultrablack nos últimos anos é a Nindooinbah, localizada em Brisbane, em Queensland. Esse criatório formou um grande plantel da raça, utilizando transferência de embriões, possui vários touros em coleta e espera exportar sêmen para o Brasil e o Paraguai, primeiro país sul-americano a produzir carne de Ultrablack, por iniciativa da Agropecuária Concepción, localizada no centro-leste do país. O trabalho da Nindooinbah é orientado pelo geneticista Don Nicol, que fez uma palestra durante o Congresso Brasileiro de Angus, no ano passado, e apresentou dados de desempenho desse sintético aos criadores nacionais de Angus. "Foi a partir dessa reunião que decidimos trazer o Ultrablack para o Brasil", informa Fábio Medeiros.

Matéria originalmente publicada na edição 441 da Revista DBO

Fonte: Revista DBO

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