Eduardo Alves de Moura, carioca, economista, recém-eleito presidente da Assocon-Associação Nacional dos Confinadores, para o triênio 2011-2013, ex-diretor do Banco Garantia, em SP, no qual trabalhou por 20 anos, deixou a cultura urbana para se tornar pecuarista.
Em 1993, comprou a Fazenda Nova Viena, em Nova Xavantina, MT, a primeira da Marca Agropecuária, empresa que criou em sociedade com o amigo Gilberto Romanato. Há cerca de 10 anos, os dois instalaram, na Fazenda Eldorado, em Barra do Garças, MT, um dos maiores confinamentos do País, com capacidade estática para 27.000 cabeças.
Neste ano, pretendem confinar 40.000, além de plantar 12.000 hectares de soja. Sem tradição pecuária na família, Moura admite ter apanhado no começo, mas aprendeu com os próprios erros. A fala rápida e os gestos marcados denunciam certa inquie inquietude. Para defender as bandeiras do agronegócio, concorreu por duas vezes às eleições para deputado federal. Eleito primeiro suplente na última legislatura, exerceu o mandato durante quatro meses.
Também foi diretor da Associação Brasileira de Quarto de Milha; diretor da Aprosoja- Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso e um dos fundadores da Assocon. Nesta entrevista, concedida à jornalista Maristela Franco, Eduardo Moura fala sobre os projetos da entidade e o futuro do confinamento no País.
DBO - Qual será o foco de sua gestão?
EDUARDO MOURA - Primeiro crescer, ampliar o quadro de associados. Vamos fazer um trabalho mais proativo, visitar os confinadores, mostrar a importância de participarem da Assocon. Essa será uma das principais tarefas de nosso novo diretor-executivo, Fábio Maia de Oliveira (veja nota). A Assocon possui 61 filiados em 10 Estados, um número ainda pequeno. Outro objetivo é aumentar a renda do confinador.
E como pretendem fazer isso?
Lutando, por exemplo, pelo direito de empregar todas as tecnologias disponíveis para a melhoria do desempenho dos animais confinados, como os antibióticos (que sofrem algumas restrições no Brasil), os beta-agonistas (melhoradores de desempenho somente autorizados para suínos) e os hormônios. Depois de longa contenda entre a União Européia e os Estados Unidos, a Organização Mundial de Saúde deu ganho de causa para os americanos, dizendo não haver problema no emprego desse produto em bovinos. A questão precisa ser rediscutida no Brasil.
A Assocon vai defender abertamente a liberação de hormônios? Tenho uma característica na minha vida. Levei-a para a política e agora estou trazendo-a para a associação - jamais fico em cima do muro. Não tenho medo de defender o que acho correto. São 300 milhões de americanos comendo carne de bovinos tratados com hormônios, sem nenhum problema. O Brasil não pode deixar de produzir 10% a mais de carne, por causa de uma decisão política, sem embasamento técnico, tomada na época em que a Europa era nosso maior cliente. No futuro, vamos ter de alimentar o mundo. A China tem 50% de sua população urbanizada. Isso significa menos gente produzindo e mais gente consumindo. Infelizmente, o Brasil não reconhece a importância do setor agrícola. Apesar de gerar superávits comerciais que permitiram ao País acumular grandes reservas, o setor é muito combatido e pouco assistido pelo governo. Tem sobrevivido graças à teimosia.
O senhor vê necessidade de linhas de crédito específicas para o setor de confinamento?
Sim, tanto para compra de bois magros quanto para insumos. Vamos lutar também para estender aos confinamentos a linha de crédito disponível para empresas fabricantes de rações, com juros subsidiados. Outro de nossos objetivos é solicitar providências ao governo em relação à lei de recuperação judicial, que está sendo usada de forma abusiva e distorcida, prejudicando os pecuaristas. Eles levam três anos para produzir um boi e depois não recebem.
A maioria dos frigoríficos não compra à vista porque não tem capital de giro, vive na corda bamba. Isso prenuncia novas recuperações judiciais?
Não sei, mas dizem que os bancos não querem mais saber dos frigoríficos. Se eles precisarem de capital, não terão apoio. Essa história de que a empresa é grande demais para quebrar é uma falácia. Acrise do Panamericano deu um susto enorme na Caixa Econômica e, se houver problema com os grandes frigoríficos, o Luciano Coutinho, presidente do BNDES, vai ter dificuldade para explicar por que botou tanto dinheiro em um setor tão vulnerável. As empresas cresceram rápido demais. Muitas não usam nem metade de sua capacidade. No Mato Grosso, 40% das plantas fecharam e ainda têm ociosidade. Precisamos mudar esse quadro, lutar pelo fortalecimento da cadeia pecuária, da qual fazemos parte. Diminuir conflitos.
De que forma a Assocon pretende fazer isso?
Para começar, vamos convidar os confinamentos ligados aos frigoríficos a se associarem à entidade. Os problemas deles são iguais aos nossos. Se surgirem conflitos, vamos ter de enfrentá-los, porém acho que temos mais pontos comuns do que divergentes. Fala-se que esses confinamentos não precisam dar lucro, pois seu principal objetivo é criar um colchão protetor para o frigorífico em momentos difíceis de mercado, o que os levaria a pagar mais caro pelo boi magro e por ingredientes de rações, inflacionando o mercado. Se for assim, mais um motivo para trazê-los para dentro da associação e discutir o assunto. Não adianta ficar alimentando brigas.
Em que pé estão os projetos da entidade para venda direta de carne a importadores europeus e a venda de boi gordo em leilões pela internet?
É muito fácil abater o boi, vendê-lo é outra coisa. Trata-se de um negócio complexo, com mercados diferentes, difíceis de acessar. Nós tentamos fazer alguns movimentos de leilões, vender bois juntos, comprar insumos juntos, mas estamos espalhados pelo Brasil inteiro, cada um tem sua realidade. A do Mato Grosso não é a mesma de São Paulo, em termos de preços e colocação de grãos. Os insumos são diferentes. Nossa prioridade, no momento, é o crescimento da entidade e a rentabilidade do negócio.
Como presidente da Assocon, o sr. defende a classificação de carcaças? Esse tema exige diálogo. Enquanto os frigoríficos tiverem condições de selecionar o gado na bica corrida, não vão pagar por qualidade. Trata-se de uma bandeira não apenas nossa, mas também de todas as entidades de classe - CNA, federações, associações de produtores. O problema é a desunião. O setor deveria importar meia dúzia de argentinos. Quando fizemos o tratoraço em Brasília, marcamos hora para começar e acabar. O Lula deve ter sentado na cadeira dele e esperado o barulho passar. Os argentinos, não: enquanto a presidente Cristina Kirchner não foi lá discutir com eles os problemas do setor, não desbloquearam as rodovias. Eles mostraram mais união de classe do que nós.
Como o sr. vê o futuro do confinamento? Estamos nos aproximando do modelo americano?
No que diz respeito ao uso de dietas de alto grão e à necessidade de produzir mais carne com rebanho menor, sim, estamos nos aproximando do modelo americano. O confinamento vai crescer, e as carcaças ficarão mais pesadas. Porém, não vejo construção de megaprojetos, como os do norte do Texas. Se a arroba continuar na faixa dos U$ 65-70, teremos um crescimento mais rápido; se a rentabilidade cair, caminharemos de forma mais lenta. Acredito no sistema de boitel, que se desenvolverá bastante no futuro.