Em artigo anterior na seção Observatório, da revista Mundo do Leite, descrevi minhas impressões de uma visita a um produtor de leite da região norte da Holanda, o sr. Bouman e família. Foi interessante perceber a visão de conservação ambiental amparada pela sociedade em geral e também pelo Estado, que valoriza cada vez mais o trabalho do produtor rural como um dos principais responsáveis pelo equilíbrio e pela manutenção da paisagem. Na sua propriedade, ele desenvolve dois projeto. Um relativo à manutenção da paisagem da região e o outro que tem por objetivo recuperar a população dos pássaros do campo. É sobre esse último que vamos conversar.
Tudo começou quando pesquisadores da Universidade de Wageningen publicaram um estudo apontando uma grande redução da população de diversos tipos de aves na região, de pequenos pássaros a cisnes. A pesquisa indicava também que isso ocorria devido ao manejo intensivo do rebanho leiteiro, em especial na produção de azevém, que afetava diretamente os locais de reprodução e os nichos de alimentação das aves. O leitor deve estar pensando "coitado dos produtores de leite...".
Se fosse no Brasil, logo após a divulgação da pesquisa, parte da imprensa estaria noticiando, com grande impacto, como os terríveis, abomináveis e insensíveis produtores de leite estão destruindo a biodiversidade. Por alguns dias, esse seria o assunto dos telejornais, até sensibilizar as autoridades, que iriam aplicar multas e, quem sabe, emitir até mandado de prisão por tão hediondo crime. Felizmente, estamos falando da Holanda, país onde a questão ambiental tem enorme valor, mas não se sobrepõe ao respeito por quem trabalha duro para produzir alimentos.
A publicação da pesquisa foi apenas o início de um amplo programa interdisciplinar para resolver o problema. Uma equipe ficou encarregada de determinar com precisão onde, quando e quais eram as práticas que mais afetavam as aves. Outra, de avaliar alternativas para que os produtores pudessem se adaptar, e um terceiro grupo teve um objetivo implantar um sistema de governança de um projeto colaborativo de recuperação ambiental.
Sentaram-se à mesa representantes de todos os setores envolvidos, as entidades de classe dos produtores, as cooperativas, as ONGs de defesa ambiental, os partidos políticos, o poder municipal (várias prefeituras estavam envolvidas) e o estadual. Todos juntos em torno da idéia de recuperar a população de aves, sem inviabilizar a atividade leiteira na região. Durante um bom tempo, representantes de cada uma das partes, principalmente dos produtores de leite, participaram do processo de condução da pesquisa que iria apontar as soluções. Pode parecer utopia tal tipo discussão em nossas terras, mas por aqui a coisa funciona.
E por que deu certo? Primeiro, por causa da ação coordenada entre os pesquisadores, ambientalistas e produtores. Segundo, porque ninguém estava à procura dos "irresponsáveis agressores do meio ambiente" e de meios para puni-los, mas, sim, trabalhavam em conjunto para encontrar alternativas. Outro ponto interessante: a adesão ao projeto seria voluntária. Os produtores que decidissem entrar no programa, se comprometeriam a adaptar seu manejo produtivo às práticas indicadas.
Nada muito drástico. Entre as alterações a serem seguidas, o respeito às datas de corte do azevém e regras para distribuir o esterco; preservar cinco metros próximos aos canais de drenagem; criar parte das novilhas a pasto, entre outras medidas. Em contrapartida, os produtores receberiam mensalmente um valor adicional em euros como forma de compensar a perda de produtividade resultante das medidas. Bacana, não? Logicamente, existe um controle periódico para verificar se tudo é cumprido e se há resultados positivos na contagem dos ninhos e na população de pássaros. Quem faz o controle? Técnicos contratados pelo consórcio, voluntários das ONGs, estudantes das universidades e os próprios produtores. E quem paga a conta? Ora, todos aqueles que são beneficiados pelo equilíbrio ambiental, ou seja, a sociedade de modo geral, representada pelo governo,
em vários níveis, e também pelas ONGs.
Infelizmente, não consegui descobrir quanto o sr. Bouman recebia por ter aderido ao programa, mas isso tem pouca importância diante do inédito arranjo institutional que beneficia a todos. Fico pensando: será que um dia conseguiremos tomar esse caso como exemplo de trabalho conjunto entre a pesquisa, o setor produtivo, a sociedade e o poder público? Espero que sim. Não vejo outra saída para atingir resultados ambientais significativos, sem trazer prejuízos e desgaste aos produtores. A gente chega lá, estamos crescendo e aprendendo rápido.