A força de um espirro no chão de fábrica dos frigoríficos dos EUA

Mais de 5 mil trabalhadores foram infectados ou expostos ao novo coronavírus

Os trabalhadores de uma fábrica de suínos da Smithfield Foods, em Milan, no Missouri, EUA, dizem que há anos sofrem repetidas lesões por estresse na linha de processamento de carne, além de infecções do trato urinário,  porque eles têm poucas interrupções para ir ao banheiro. Mas, desde o surgimento da pandemia de coronavírus, os funcionários dizem ter encontrado outra complicação para a saúde: a relutância em tapar a boca enquanto tossem, ou limpar o rosto após espirrar, porque isso pode fazer com que eles reduzam a produtividade no chão da fábrica, criando um risco de ação disciplinar. O assunto é relatado em reportagem publicada nesta sexta-feira, 24 de abril, pelo jornal New York Times (NYT) e também por outros canais de comunicação norte-americano.

As alegações em relação ao tratamento ao funcionários da Smithfield Foods aparecem em um processo apresentado na última quinta-feira ao tribunal federal do Missouri por um trabalhador anônimo da empresa e pela Aliança dos Trabalhadores da Comunidade Rural, um grupo de defesa local, cujo conselho de liderança inclui vários outros trabalhadores da indústria de suínos. A queixa alega que Smithfield criou um “incômodo público” ao fornecer equipamentos de proteção inadequados aos trabalhadores da fábrica na cidade de Milan, recusando-se a dar-lhes tempo para lavar as mãos.

A Smithfield, sediada na Virgínia, pertence ao grupo chinês WH Group. A vice-presidente executivo de assuntos corporativos da Smithfield, Keira Lombardo, disse em comunicado que a saúde e a segurança dos trabalhadores são a principal prioridade da empresa.

Nesta sexta-feira, 24 de abril, a Smithfield anunciou o fechamento de mais uma unidade de suínos devido ao avanço da Covid-19 entre os seus funcionários. Trata-se de sua unidade de processamento de suínos em Monmouth, Illinois, que decidiu interromper as suas operações por tempo indeterminado, a partir de 27 de abril, depois que alguns de seus 1.700 funcionários testaram positivo para o Covid-19.

A fábrica de Monmouth representa aproximadamente 3% do suprimento de carne de porco fresca dos EUA e também produz bacon, disse Smithfield, em um comunicado. Os funcionários continuarão sendo pagos durante o fechamento da unidade.

As infecções por coronavírus surgiram como um problema significativo nas fábricas de processamento de carne em todo os EUA, com algumas fechando as portas e muitas outras operando bem abaixo da capacidade. Pelo menos dez pessoas que trabalham em frigoríficos morreram de Covid-19, disseram na quinta-feira líderes do sindicato dos Trabalhadores Comerciais e Alimentos.

Segundo informações da agência Reuters, mais de 5 mil trabalhadores de indústrias de carnes e alimentos dos Estados Unidos foram infectados ou expostos ao novo coronavírus, sendo que 13 deles morreram, de acordo com dados divulgados na quinta-feira, 23 de abri, pelo Sindicato Internacional de Funcionários Comerciais e da Indústria de Alimentos.

Funcionários do sindicato, que representa a grande maioria dos trabalhadores das indústrias de carne suína e bovina, disseram que o fechamento recente de fábricas nos EUA reduziu a produção norte-americana de carne bovina em 10% e a produção suína em 25%.

A queixa do tribunal sobre a fábrica de suínos Smithfield no Missouri diz que os trabalhadores geralmente são obrigados a ficar quase ombro a ombro, muitas vezes precisam passar horas sem poder limpar ou higienizar as mãos e têm dificuldade em tirar licença médica. “Desde antes do Covid-19, havia um problema com as pausas no banheiro. Mas a partir de março, dia após dia, mais pessoas estão preocupadas e com medo de serem infectadas pelo coronavírus”, disse Axel Fuentes, diretor executivo da aliança dos trabalhadores.

Fuentes afirmou que alguns trabalhadores da fábrica apresentaram sintomas como tosse e febre, mas que poucos foram testados. A Smithfield rebateu a queixa. A vice-presidente executiva da empresa para assuntos corporativos,  Keira Lombardo, citou uma política de não comentar os litígios pendentes, mas disse que as acusações “incluem reivindicações anteriormente feitas contra a empresa que foram investigadas e que são consideradas infundadas”.

A Smithfield fechou uma fábrica em Wisconsin e uma outra em Martin City, Missouri, além de um matadouro de Dakota do Sul que emprega centenas de trabalhadores que foram infectados pelo vírus. A Tyson Foods fechou unidades em Indiana, Washington e Iowa. Fábricas pertencentes a outras empresas em Minnesota e Illinois também sofreram surtos da Covid-19.

Representantes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que visitaram as instalações da Smithfield em Dakota do Sul na semana passada, recomendaram na quinta-feira que Smithfield estabeleça mais barreiras de distanciamento social e possivelmente diminua a linha de produção para criar mais espaço entre os trabalhadores.

Os autores da denúncia contra a Smithfield argumentam que, caso a empresa de suínos não tome medidas de segurança adequadas, há o risco do surto de coronavírus se espalhar rapidamente para toda a comunidade. “O público tem direito à segurança e à saúde”, argumentou Karla Gilbride, advogada da Justiça Pública, um grupo de advocacia que trabalha com os funcionários da Smithfield em Milan há vários anos e está ajudando a apresentar a queixa.

Fuentes, diretor da aliança local, disse que, antes da pandemia, a questão dos intervalos para o banheiro era uma das principais preocupações dos trabalhadores. Desde que a pandemia chegou, afirma o diretor, a preocupação mudou quase inteiramente para o risco de exposição e infecção, especialmente após o fechamento de escolas na região. “Depois disso, muitos trabalhadores ficaram realmente assustados”, disse ele, acrescentando: “Os trabalhadores disseram: ‘As crianças não vão à escola, mas estão nos fazendo ir trabalhar’”.

Várias dezenas de trabalhadores assinaram uma carta, que foi entregue à gerência da fábrica Smithfield durante a semana de 30 de março, reclamando das condições apertadas e da falta de equipamentos de proteção. A carta pedia à empresa que resolvesse essas preocupações e diminuísse as linhas de processamento, para que os trabalhadores tivessem tempo de tapar a boca enquanto tossiam ou limpar o nariz após espirrar. Mais tarde, a empresa instalou barreiras entre alguns trabalhadores na linha de processamento, mas os funcionários disseram que essas barreiras não protegem o suficiente os seus rostos. A empresa também começou a fornecer máscaras na semana passada e realizou verificações de temperatura. Seu principal executivo disse que Smithfield está seguindo as orientações dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

 

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