Assistência técnica, crédito, inovação

Para o consultor Abel Fernandes, historicamente a pecuária leiteira sempre reage aos estímulos do mercado
Abel Fernandes, consultor em Minas Gerais

 

Tenho mais de 25 anos de formado e de estrada em agronomia, quase todos dedicados à pecuária de leite. Certa vez, em um artigo na DBO, dei um depoimento dizendo que sem assistência técnica e crédito o produtor de leite, principalmente o pequeno, estaria fora do mercado. Isso provocou uma resposta grande nas redes sociais, além de artigos científicos citando meu depoimento. Minha surpresa é que o binômio crédito/assistência técnica é um dogma muito antigo na extensão rural. Mas comecei o artigo pelo final. Quais os desafios que o produtor de leite tem que vencer no atual cenário?

Produzir leite é uma atividade que requer conhecimentos de inúmeras áreas. Alimentação, genética, manejo de ordenha, criação de bezerros, entre outros. Porém, o consumidor final tem um papel preponderante nas diretrizes que as fazendas precisam tomar. Elas são percebidas pelo varejo, com quem os consumidores conversam diariamente, que passa para as indústrias suas necessidades e vontades. A indústria busca inovação em produtos para atender à demanda dos consumidores.  Não é de hoje que qualidade da matéria prima está no centro das discussões de melhoria, mas outros atributos vão sendo colocados aos poucos pelos consumidores e, com o tempo, terão que chegar até a fazenda.

A rastreabilidade do produto já vem sendo usada como ferramenta de venda por algumas empresas e cooperativas, ou seja, o consumidor quer saber quem produziu aquele leite, sob quais condições, se usou OGMs, se é orgânico ou tradicional.

Para cada um dos atributos que citei acima é necessária a adoção de tecnologias, e para isso voltamos ao binômio crédito/assistência técnica.  Estamos preparados para Inovação na cadeia do leite?

Na verdade, historicamente, o setor sempre reage aos estímulos do mercado. Me lembro de quando se iniciou a coleta a granel, leite refrigerado, o setor respondeu com incrível velocidade. Mas, foi necessário crédito para adotar a nova tecnologia. Depois treinamento, para não melhorar o equipamento e piorar o leite, fato não muito raro.

Os setores de insumos evoluíram bastante também, as chamadas biotécnicas avançaram com vigor e algumas raças melhoraram extraordinariamente. Mais uma vez, para adotar esta tecnologia, precisa de crédito e assistência técnica.

O fato é que ainda não chegamos em centenas de milhares de produtores com este binômio, isto sempre vai causar um retardo enorme no segmento e uma distância igualmente grande entre os menos capitalizados e os com mais acesso ao capital.  

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