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Bagaço de cana incrementa dieta de grão inteiro

Com a adição do volumoso, estudo registrou melhoria de desempenho no cocho
Foto: Arquivo/Ufla.

Por Marina Salles

A dieta de grão de milho inteiro tem ganhado es paço no cocho dos confinamentos brasileiros, principalmente médios e pequenos, em razão da sua praticidade, já que não demanda terras para a produção de silagem, nem equipamentos de moagem de grãos ou estruturas pesadas para armazenagem e mistura de insumos. Basta juntar o milho inteiro com pellets, feitos predominantemente com farelo de soja, minerais e aditivos, e fornecê-los aos animais. Essa dieta pode ser bastante atrativa em regiões agrícolas ou quando o preço do milho cai, possibilitando esticar a estadia dos bois no confinamento a baixo custo e tirar maior proveito de eventuais picos de valorização da arroba. Trata-se, porém, de uma ração rica em amido, o que aumenta o risco de problemas metabólicos como a acidose, se o produtor não caprichar no manejo. Mas esse problema pode ser resolvido de forma simples: acrescentando um pouco de fibra à mistura.

Essa medida também ajuda a reduzir os custos da ração em 7% a 10%, conforme mostrou um trabalho recente da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais. Entre as fontes de fibra disponíveis para uso em confinamento estão vários tipos de feno e silagens, o caroço ou a torta de algodão, a casquinha de soja e o bagaço de cana in natura (BIN), este testado pela Ufla. Segundo o professor Márcio Machado Ladeira, coordenador do experimento, foram obtidos resultados positivos, tanto na engorda quanto na saúde ruminal dos bovinos, após a inclusão desse tipo de volumoso na dieta de grão inteiro. Houve incremento de 7% a 24% no ganho de peso diário dos animais, dependendo da raça, em comparação com o lote testemunha (sem bagaço de cana), por causa do aumento no consumo de matéria seca e da melhoria do metabolismo ruminal.

Efeito raça

Independente do tratamento, o desempenho do Angus foi melhor do que o do Nelore. Foto: arquivo/Ufla.

O trabalho da Ufla foi realizado em duas etapas. Na primeira, procurou-se analisar o desempenho de machos das raças Nelore e Angus alimentados com ração de “grão inteiro” (85% de milho mais 15% de pellets) em comparação com outra convencional, contendo 30% de silagem de planta inteira de milho e 70% de concentrado à base de milho moído (peneira 3), farelo de soja e núcleo mineral. A escolha dessa dieta como “testemunha” ou referência no trabalho se deve ao fato de ela ser empregada corriqueiramente em confinamentos brasileiros. Após 28 dias de adaptação, as formulações foram fornecidas a 36 animais (18 machos Nelore e 16 Angus, subdivididos em dois lotes iguais), durante 84 dias. Como esses grupos genéticos são bastante distintos, os pesquisadores queriam saber se apresentariam diferença de desempenho entre si e em relação às dietas.

Os machos Angus se mostraram mais aptos a transformar grão inteiro de milho em carne, engordando 1,82 kg/ cabeça/dia, valor apenas 7,6% inferior ao do lote tratado com ração convencional, que continha mais fibra e era menos desafiadora do ponto de vista ruminal. Já os lotes de Nelore engordaram 31,6% menos com a dieta de grão inteiro: 930 gramas/cabeça/dia, ante 1,36 g/cabeça/dia da dieta convencional. Sua performance também destoou da que normalmente apresenta em confinamentos comerciais, onde engordam mais. Segundo o pesquisador Márcio Ladeira, isso provavelmente ocorre porque os animais foram mantidos em baias individuais, onde, por questões comportamentais, os bovinos ingerem menos alimento. Como era de se esperar, o consumo de matéria seca (CMS) na dieta com grão inteiro também foi menor, mas não a eficiência alimentar (ganho dividido por consumo), como mostra a tabela referente ao experimento 1.

Efeito da fibra no consumo

Na segunda etapa do experimento, foram usados animais Nelore e meio-sangue Angus. Eles receberam rações de grão inteiro com e sem bagaço de cana in natura (BIN), na proporção de 6% da matéria seca. Nesse trabalho, Ladeira confirmou suas expectativas quanto ao papel benéfico da fibra. “Esperávamos que o consumo aumentasse com a utilização do bagaço de cana, o que de fato ocorreu. Os animais Nelore comeram 7,87 kg/cabeça/dia da ração que continha volumoso, 16,5% a mais do que no tratamento sem esse ingrediente, no qual o consumo foi de 6,75 kg/cabeça/dia. Os novilhos meio-sangue Angus também ingeriram mais a ração acrescida da bagaço: 8,89 kg/cabeça/dia, ante 7,60 kg da sem volumoso. A explicação para isso está na equalização do pH ruminal, que, antes da introdução do bagaço, ficava permanentemente ácido, entre 5,6 e 5,8, dentro de uma escala onde 7 é neutro e 14, básico. Nos machos Nelore, a eficiência alimentar não apresentou diferença estatística. Nos Angus/Nelore, ela foi melhor na dieta contendo bagaço de cana.

Segundo Flávio Portela, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), de Piracicaba, SP, quando se vai incorporando volumoso a uma dieta de grão inteiro, é natural que o consumo de matéria seca aumente até determinado ponto e depois comece a cair. “Trata-se de um comportamento padrão, que independe da forma de fornecimento do milho: se inteiro, quebrado ou floculado”, diz. Em experimento realizado na USP, sob orientação de Portela, também se observou melhoria no desempenho dos animais com a substituição de 3% do milho grão inteiro pelo bagaço de cana. “Quando elevamos esse percentual para 6%, o consumo de matéria seca já começou a cair”, afirma. A queda teria sido mais evidente em uma dieta com 9% ou 12% de bagaço de cana, segundo Portela, porque esse é o comportamento esperado da curva de consumo de matéria seca.

Nível de inclusão e custo

Márcio Ladeira, da Ufla, pontua que ainda faltam estudos para determinar o limite máximo de inclusão do bagaço de cana na dieta de grão inteiro. Os percentuais de 3% a 6% são considerados “seguros” para preparo de dieta na prática diária, porque já foram testados experimentalmente. Ladeira optou por trabalhar com 6% de bagaço justamente em função dos resultados de Portela. “Além disso, avaliamos que a dieta poderia ficar mais barata se utilizássemos um porcentual maior desse volumoso”, diz. No experimento da Ufla com animais cruzados, que tiveram melhor eficiência alimentar na dieta de grão inteiro contendo bagaço de cana, o custo por arroba produzida foi de R$ 139, ante R$ 149 da ração sem esse volumoso, uma diferença de 7,3%. Essa economia se deve justamente à troca de 6% do grão de milho inteiro por um ingrediente mais barato, que é o bagaço.

Neste experimento, os animais também apresentaram desempenho diferente, conforme a raça. Os machos Nelore mais uma vez engordaram menos, ganhando 841 g/cabeça/dia com ração de grão inteiro sem volumoso e 901 g/cabeça/dia no tratamento que continha bagaço de cana. Esses dados podem indicar uma maior dificuldade da raça em processar grãos inteiros, mas, segundo Ladeira, são necessários mais estudos para se confirmar essa hipótese, por exemplo eliminando-se o efeito baia. Os meio-sangue ganharam 1,196 kg/cabeça/dia comendo grão inteiro mais pellets e bagaço de cana, em contraste com 959 g/cabeça/ dia da ração sem esse volumoso, ou seja, 24,7% a mais. Seu desempenho, contudo, ficou bem distante do alcançado pelos animais Angus puros, na primeira etapa da pesquisa, porque tiveram maior dificuldade para se adaptar às instalações do que aqueles.

Com base nos dados levantados até agora, Ladeira recomenda aos produtores a inclusão de alguma fonte de fibra efetiva nas dietas de grão inteiro, seja ela caroço de algodão, feno ou silagem, já que o bagaço de cana, em si, não se encontra disponível em todas as regiões, especialmente depois que as usinas de açúcar e etanol passaram a usá-lo para produzir energia elétrica. Essa recomendação é endossada por Flávio Portela. Na escolha de qualquer outro volumoso, é preciso levantar o percentual de fibra em detergente neutro (FDN) do respectivo insumo, para calcular a quantidade a ser incluída na dieta.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO.

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