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Carbono entra na pauta do confinamento

Corrida pelo “Net Zero” exigirá ajustes também nos confinamentos com uso de tecnologias já disponíveis e que são comprovadamente redutoras de emissões entéricas

Por Maristela Franco e Moacir José

Pode-se dizer que 2021 foi o “ano de largada” na corrida para redução das emissões de carbono na cadeia pecuária bovina. Muitos produtores nem se deram conta disso, apesar do compromisso assumido pelos frigoríficos com o “Net Zero” (balanço neutro de emissões equivalentes de carbono), divulgado até em horário nobre da TV aberta, mas não será possível ficar alheio ao tema por muito tempo, em função de sua relevância mundial e dos desafios que traz para o setor.

Vários especialistas ouvidos por DBO são unânimes em afirmar que a “corrida” pelo “Net Zero” movimentará a cadeia produtiva nos próximos 20 anos, chegando obrigatoriamente ao pecuarista, já que, para se atingir esse status, é preciso atuar também no escopo 3, que considera todo o ciclo de vida do produto; no caso da carne bovina, desde a fazenda até o abate, considerando-se pastagens, insumos, energia e serviços usados pelos produtores, transporte e, evidentemente, projetos de engorda como os confinamentos.

Por que tanto esforço coletivo? A resposta está no mercado. Desde 1990, quando foi lançado o primeiro relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), as emissões entéricas (decorrentes da digestão animal) têm sido consideradas partícipes do aquecimento global.

Segundo o 4º Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa, divulgado em 2020 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a agropecuária brasileira emitiu 487 milhões de toneladas de carbono equivalente (CO2eq) em 2016, 33,2% do total do País. Desse montante, mais da metade (282,4 milhões de t) foi liberada pelos animais de produção, com grande destaque para os bovinos (80%). Aumenta, portanto, a cada dia, a pressão do mercado internacional para que a pecuária reduza suas emissões; pressão vinda principalmente da União Europeia e da China, principal comprador da carne bovina brasileira.

Em julho passado, a UE anunciou que criará, a partir de 2023, uma “taxa de carbono” sobre produtos importados para proteger sua indústria de concorrentes estrangeiros que não estejam submetidos aos mesmos padrões ambientais. A medida deverá ser bastante discutida na COP de Glasgow (Escócia), neste ano. Ela faz parte do pacote “Fit for 55”, o mais importante passo já dado pela UE rumo à “carbonização” de sua economia, que o bloco considera essencial para reduzir em 55% suas emissões de gases de efeito estufa até 2030.

Os alvos iniciais serão as indústrias de ferro, cimento, fertilizantes, eletricidade e alumínio, mas a carne bovina poderá ser incluída na lista futuramente. Tem mais: a China, principal protagonista do mercado internacional e maior emissora do mundo, pretende se tornar uma “nação carbono neutra” até 2060, podendo estabelecer protocolos ambientais para seus próprios fornecedores.

Papel dos confinamentos

Essa caminhada, a passos largos, para a “carbonização” da economia mundial deverá, portanto, afetar a cadeia pecuária bovina, o que motivou DBO a dedicar esta reportagem de capa ao tema. Por que justamente no Especial de Confinamento? Há duas razões: primeiro, trata-se do segmento mais próximo da indústria e que mais facilmente a suas demandas; segundo, o nível de tecnificação da atividade lhe permite adotar rapidamente uma série de práticas redutoras de emissões.

É importante lembrar que o confinamento tem participação pequena no balanço de carbono da pecuária brasileira (são apenas 5-6 milhões de animais a cocho, de um um total de 187,5 milhões no País, conforme estimativas recém-publicadas pelo Beef Report Abiec 2021). Além disso, o sistema tem curta duração (90-120 dias) e emprega dietas de maior digestibilidade em comparação com as pastagens, ou seja, gera menos metano. Em contrapartida, como qualquer “fábrica’’, não sequestra, apenas reduz emissões.

O maior desafio será dos boitéis profissionais, que, em geral, têm pouca área e não estão inseridos em sistemas de produção com margem de manobra para sequestrar/armazenar carbono. Esse tipo de confinamento terá de usar tecnologias redutoras de emissões.

Segundo Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e coordenador técnico-científico da Rede Clima, isso não demanda grandes investimentos. Na maioria das vezes, bastará ajustar a composição das dietas, adotar ingredientes que reduzem a fermentação entérica, trabalhar com energia solar em substituição a combustíveis fósseis, fazer manejo adequado de resíduos por meio de compostagem ou usar biodigestor (que produz energia limpa, além de gerar créditos de carbono), como detalharemos nesta reportagem.

Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária.

Assad garante que o setor está indo por um bom caminho. “Começamos a falar disso mais fortemente em 2009 e achei que não haveria interesse dos pecuaristas, por causa de seu perfil mais conservador. Errei! Estamos tendo uma adesão grande, inclusive porque a pecuária é a atividade que mais leva pancada nesta área”, relata o pesquisador.

Segundo ele, a Liga do Araguaia, que reúne 62 fazendas e tem rebanho estimado em 130.000 cabeças na divisa de Mato Grosso com Goiás, implementou um protocolo GHG (do inglês greenhouse gases, gases de efeito estufa) há mais de seis anos e a Fazenda Roncador, há quatro (veja abaixo), enquanto o setor de grãos somente começou a falar no assunto de 2020 pra cá. Assad diz que as grandes empresas já estão se movimentando e querem virar esse jogo, por dois motivos: “os efeitos danosos do aquecimento global são visíveis e as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) podem se tornar novas barreiras comerciais, como já sinaliza a UE”.

Frigoríficos otimistas

Os três gigantes do setor (Marfrig, JBS e Minerva) não detalham pressões externas nessa área, embora elas venham de todos os lados: importadores, mercado de capitais, grande varejo, ONGs etc. Preferem ressaltar que a pecuária já caminha naturalmente rumo ao “Net Zero” por meio da intensificação, necessitando apenas de apoio e maior velocidade no emprego de tecnologias. Taciano Custódio, diretor de sustentabilidade da Minerva, vê esse processo como parte do amadurecimento da cadeia.

“Precisamos, agora, medir as emissões da pecuária para saber o que fazer. Até o final deste ano, concluiremos o projeto-piloto conduzido junto com a Embrapa, que está fazendo balanço de GEEs em 26 fazendas na Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica. Estão sendo avaliados diferentes modelos de produção, mas, como 70% da receita da empresa vêm da exportação e 60% dos animais que ela abate são confinados, esse sistema será bastante analisado”, informa o executivo.

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