Como as fazendas estão se tornando ‘bunkers’ para se proteger do coronavírus

Saiba quais medidas vêm sendo tomadas e as orientações para o produtor rural ficar longe dessa pandemia
Reunião na fazenda Orvalho das Flores, para discutir medidas de segurança. Foto: Olivia Perez Simioni.

A pandemia gerada pelo novo coronavírus (Covid-19), está levando governantes do mundo todo a decretarem quarentena. As cidades, com as suas grandes aglomerações, estão parando as atividades não essenciais para ficar em casa e evitar a transmissão do vírus. Mas como proteger a população rural?

“É impossível a gente parar. O único setor que não pode parar é o de alimentos. Nós, que somos a ponta da cadeia, é que vamos alimentar todos”, diz Carmen Perez, proprietária da fazenda Orvalho das Flores, em Barra do Garças (MT). “A gente tem que continuar tratando e manejando os animais. Não temos a opção de parar, como a cidade”.

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Carmem tem tomado decisões conjuntas com os 12 funcionários da fazenda e com os seus familiares. Essas decisões ocorrem em reuniões de avaliação e de alinhamento de trabalho.  “A grande vantagem é estarmos justamente ao ar livre, longe das aglomerações”, diz ela. A Orvalho das Flores, de 4 mil hectares, cria bezerro nelore e é referência em pesquisa sobre bem-estar animal.

Carmen Perez, na fazenda Orvalho das Flores, em Mato Grosso. Foto: DBO.

A pecuarista explica que entre as medidas tomadas para evitar o coronavírus está a junção das listas de compras das oito famílias que residem na propriedade. “Tanto nas compras de farmácia, como de supermercado, os produtos serão enviados de uma única vez para a fazenda”, diz ela. “Além disso, o único acesso permitido de entrada na propriedade está relacionado à produção.” Por exemplo, etapas de pesquisas sobre bem-estar animal, que são realizadas pela equipe do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Etco), foram remarcadas para o próximo semestre.

Carmen também tem levado para essas reuniões informações gerais sobre a pandemia. “Por mais que as pessoas que moram na fazenda tenham informação, quando se está longe do problema a realidade se torna diferente”, diz ela. “Na cidade você vê que tudo está parado.”

Prevenção para todos

Na última semana, há duas linhas semelhantes de trabalhos adotadas por fazendas e pela agroindústria. Uma delas é olhar para dentro do negócio, visando a segurança da equipe de funcionários. A outra é manter a produção em andamento, mesmo porque não é possível pedir a uma vaca para não parir ou um pé de milho para não granar.

O Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), o mais antigo grupo de mulheres do setor, organizadas para a troca de informações sobre gestão de suas propriedades, decidiu por uma ação coletiva. Uma cartilha com orientações surgiu justamente da troca contínua de experiências.

Foram compiladas as ações comuns que vêm sendo implementadas nas fazendas do núcleo. “Fomos juntando o que cada uma começou a fazer, o que havia de prática para a pecuária e não para café ou laranja”, diz Helinha Jacintho, da fazenda Continental, com sede em Barretos (SP), e diretora de comunicação do NFA.

Helinha Jacintho, da fazenda Continental e diretora de comunicação do NFA.

Ela conta que a maior dificuldade é falta de protocolos nos quais se basear. “Por exemplo, como higienizar o trator? Testamos e chegamos à conclusão que para superfícies vamos usar amônia quaternária”  No caso, um biocida que intoxica fungos, bactérias e vírus.  Em relação às equipes, ela diz que o principal desafio é manter as propriedades fechadas. Também foram dadas férias coletivas, com os funcionários mais velhos permanecendo em suas casas. “Mas as equipes estão entendendo, porque são pessoas educadas e com acesso à internet. Elas estão informadas do que está acontecendo”, afirma Helinha.

Para ajudar nessa tarefa, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, através do sistema CNA-Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), montou uma estrutura de apoio ao produtor. Colocou à disposição o número (61) 93300-7278, para esclarecer o setor sobre possíveis problemas de saúde ou na atividade agropecuária.

“Nosso objetivo é receber informações sobre o estado de saúde do produtor e se ele está enfrentando alguma dificuldade com relação à produção, distribuição e comercialização do seu produto”, afirma Daniel Carrara, diretor-geral do Senar. “Assim, vamos poder orientá-lo e tomar as medidas necessárias junto às instâncias federais.”

Para o médico cirurgião vascular, Wilson Rondó Júnior, especialista em nutrologia e autor do livro “Sinal Verde para a Carne Vermelha”, embora o coronavírus esteja concentrado nas cidades, o campo precisa estar em alerta.

“De uma forma ou outra, as pessoas do campo têm contato com a cidade”, diz ele. “Produtos comprados na cidade, como os alimentos, ou mesmo visitas podem entrar como transmissores do vírus nas fazendas”, diz ele. Conforme o Ministério da Saúde, grande parte dos registros do novo coronavírus ainda estão em municípios com mais de 500 mil habitantes, mas as pequenas cidades também correm riscos.

Para o médico Wilson Rondó, as fazendas precisam se proteger

O médico atenta para que os produtores sigam as orientações de higienização das mãos e evitem ficar próximos uns dos outros. “Às vezes, um funcionário da propriedade foi à cidade, teve o contato com uma pessoa com o vírus e nem sabe. Esse mesmo vírus é levado para a fazenda onde ele se dissemina entre os produtores”, afirma. É o mesmo caminho de um infectado na zona urbana.

A seguir, confira um link para acessar orientações do médico Rondó. Na sequência estão as orientações da Orvalho das Flores, do NFA e uma tabela com sintomas da Covid-19, gripe e resfriado:  

. Baixe aqui o e-book gratuito com as orientações médicas do Dr. Rondó.

MANUAL DA ORVALHO DAS FLORES

– Lavar bem as mãos com água e sabão
– Manter distância segura e a menor aglomeração possível dentro da fazenda
– Motivar as pessoas a buscarem fontes seguras de informação como jornais e sites de notícia. Os governos estaduais e o ministério da saúde têm páginas específicas sobre o coronavírus
– Evitar o excesso de vídeos que nos deixam depressivos e com informações duvidosas. É preciso ser realista, tomar todas as providências, mas evitar entrar em um mar de pessimismo. Precisamos manter a energia em alta
– Conscientização contínua das pessoas. Na fazenda, repasse de forma direta as informações de prevenção que estão sendo recomendadas
– As idas à cidade estão restringidas. Só em caso de emergência ( saúde)
– O dia de compra, por exemplo, quando todos vão para fazer o abastecimento mensal sofreu ajustes
– Listas de supermercado e farmácia estão sendo enviadas diretamente e uma van entregará na fazenda
– Visitas na fazenda estão restritas a cargas e descargas ligadas a produção. Sem contato físico com a equipe, com todos usando luvas e máscaras

MANUAL DO NÚCLEO FEMININO DO AGRONEGÓCIO

–  Distribuição de álcool gel para higienização das mãos dos trabalhadores em campo
– Utilizar álcool gel 70%
– Evitar aperto de mão, abraço e beijo
– Ao tossir ou espirrar cubra com o antebraço
– Higienização de utensílios de uso comum
– Cancelar visitas de fornecedores e visitas em geral
– Dar preferência a reuniões não presenciais
– Aumento do número de vans para transporte
– Higienização das vans a cada viagem
– Higienizar as cabines dos tratores
– Higienizar maçanetas, interruptores e máquinas de café
– Orientação dos funcionários para que fiquem em casa nas horas vagas
– Reforço dos estoques de insumos, dietas e medicamentos
– Em caso de percepção de sintomas em vistas presenciais mantenha a distância segura e/ou utilize máscara de proteção respiratória

TABELA DOS SINTOMAS DE CORONAVÍRUS, RESFRIADO E GRIPE

Ministério da Saúde mostra diferenças entre novo coronavírus, gripe e resfriado. Crédito: Ministério da Saúde.

 

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Conteúdo original Revista DBO