Como desconfiar da presença de maninhas, explica Ortolani

Colunista dá dicas de como identificar fêmeas de ventres vazios, antes que elas esvaziem também o seu bolso!

*Enrico Ortolani, é professor titular de Clinica de Ruminantes da FMVZ-USP e colunista da Revista DBO.

No artigo anterior comentei sobre as novilhas que nunca parem. Dentre as causas, citei o freemartinismo, problemas anatômicos e os cistos foliculares e luteínicos. Agora abordarei como suspeitar da presença dessas maninhas no rebanho. A dica maior está na idade. Elas se tornam fêmeas que passaram do tempo de procriarem, mas não dão sinais de gestação. Percebe-se isso após uma, duas estações de monta ou duas ou mais inseminações. Sinal amarelo ligado para a infertilidade!

Além da idade, alguns sinais anatômicos ou de comportamento surgem a reboque, dependendo de cada problema. O cio na vaca dura entre 10 e 26 horas. No período inicial, ela tem comportamento homossexual e reage como macho, pois monta continuamente suas companheiras, mas, ao término do cio, se deixa montar e ter sua vagina cheirada pelas outras fêmeas. A fremarte (nascida junto com um macho), simplesmente não apresenta cio. É uma fêmea indiferente e o touro não se interessa por ela. Por não apresentar cio, outras fêmeas não saltam nela, assim como ela não pula em outras vacas. É um zero à esquerda!

Comportamento de macho

Ao contrário da fremarte, as fêmeas que têm cisto folicular apresentam cios contínuos, o que as tornam ninfomaníacas e muito homossexuais. Estão sempre nervosas, inquietas e mugindo. Saltam incessantemente em outras vacas. Ocasionalmente, se deixam montar por fêmeas ou touros. Se o cisto folicular se prolongar, essa fêmea deixa de entrar no cio e passa a ter um comportamento e um corpo masculinizado, como de um touro, dominando um grupo de vacas como se fossem parte de seu harém. Que bizarro!

Embora o cisto folicular chame muito a atenção, sua frequência em gado de corte é muito baixa, o mesmo ocorrendo com o cisto luteínico, que bloqueia o surgimento de cios, como se a fêmea estivesse em gestação contínua. Porém, este quadro é mais comumente visto em vacas entre a 3ª e a 5ª gestações. É raro em novilhas. A principal causa do surgimento das maninhas em gado de
corte é a hipoplasia do trato genital. É aí que o bicho pega!

A hipoplasia é a falta de desenvolvimento sexual de órgãos femininos e da mama. Na terra do Tio Sam acharam 2% de maninhas entre as fêmeas de corte. Ninguém descreveu melhor essa condição do que o veterinário sul-africano Jon Bonsma, que desenvolveu a raça Bonsmara. Ele acreditava piamente que 10% das fêmeas de corte ou seriam maninhas ou subférteis, parindo um bezerro a cada 2 ou 3 anos. Já velhinho, ele visitou uma tradicional fazenda selecionadora de gado Nelore. Identificou muitas maninhas e subférteis dentre a vacada de elite. Fui testemunha da presteza de
Bonsma. Um dia contarei melhor esta estória.

Pontos a observar

Segundo Bonsma, quatro pontos externos ajudam identificar essas maninhas: a silhueta do corpo, incluindo musculatura, e os depósitos de gordura; o desenvolvimento da ossatura; o formato e distribuição dos pelos e o comportamento. Eu acrescentaria mais um: o tamanho da vulva. Por ter menor desenvolvimento de seus órgãos sexuais femininos, devido a um grave desbalanço hormonal, a maninha desenvolve características sexuais secundárias de um macho, na maioria das vezes inteiro, por vezes castrado. Entra bem menos no cio, quando entra.

Dizem que nos apaixonamos ao primeiro olhar. Inversamente, à primeira vista da maninha, nos decepcionamos. Seu corpo não é feminino, muito pelo contrário. Seu porte é de macho viril, musculoso, e, de certa forma, grosseiro, diferente da delicadeza da fêmea muito fértil. Enquanto o corpo da fecunda tem formato de cunha, de rachar toras, afilado na cabeça e engrossando no quadril, na maninha parece um paralelepípedo, grosso por inteiro. Reproduzo, neste artigo, imagens comparativas dessas fêmeas, publicadas em um trabalho original de Bonsma.

A face da fértil é feminina, suave, descarnada e bem afilada. Já na maninha é masculinizada, com seu chanfro curto e grosso, acompanhado de mandíbula mais carnuda. Na inserção dos chifres, há excesso de pelos. O pescoço segue essa mesma linha. É curto, robusto e peludo, na maninha; já na fecunda, é mais alongado, delgado e recoberto de pelos menos compridos. A barbela
tende a ser mais curta e ajustada, para cobrir maior área de acúmulo de gordura no peitoral, que é bem mais desenvolvido na infértil.

Exame físico

O exame da espádua é essencial na detecção da maninha. Tal qual em um touro, aí se concentra desenvolvida musculatura. O tronco é mais amplo, profundo e comprido, mas, por outro lado, o abdómen e a bacia são menores e menos largos que a fêmea produtiva. Isso faz com que o comprimento da garupa até a cruz, onde se implanta a paleta, seja mais curta na maninha do que na fecunda. Além do peitoral, pequenos bolsões de gordura tendem a se acumular em vários pontos: em especial abaixo dos olhos, atrás da paleta, no cupim, que lhe dá aspecto de corcova afilada de um búfalo macho, na parte baixa das últimas costelas, na anca, na inserção do rabo e no culote.

A ossatura também é diferente na maninha. Os bovinos têm um “estirão” em altura logo após a desmama, tal qual a puberdade dos adolescentes. Os hormônios sexuais estrógeno e testosterona de certa forma freiam este aumento, mas a gestação breca de vez o crescimento vertical. A maninha fica mais alta, pois sua produção de estrógeno é pequena, parecendo um capão castrado enquanto bezerro, que se torna mais pernalta do que o castrado aos dois anos. Os ossos longos das pernas crescem mais e fazem com que a garupa fique mais alta do que o normal. A ponta das primeiras vértebras (processo espinhoso vertebral; T bone), acima da paleta, também cresce mais do que o normal (veja ilustração).

Por sinal, a articulação da paleta com o ombro (úmero) se torna menos angulada do que na fêmea fértil, fazendo com que a ponta superior da paleta se implante abaixo do processo espinhoso na estéril. Essa alteração faz a paleta da maninha ficar menos ereta em relação à perna (confira na figura abaixo). Os pelos também se modificam na maninha. Crescem exageradamente e se tornam ásperos e escuros na extremidade, em especial na região antes do cupim e na crista do pescoço e na mama. Notei também que os pelos da sobrancelha são muito compridos.

Órgãos sexuais

Quanto ao comportamento, parte das maninhas (as menos corpulentas e musculosas) se tornam bem nervosas, dando um trabalho danado no manejo. Outras, as mais gordas, ficam mais lentas e tranquilas. Ambos os grupos têm grande dificuldade de pegar cria e, quando conseguem, são mães desleixadas e, muitas vezes, abandonam seus bezerros. Finalmente, as maninhas têm órgãos sexuais pequeninos ou atrofiados. A vulva das maninhas já eradas não ultrapassa os 12 cm de comprimento e as tetas são minúsculas, dificultando sua visualização.

Nem todos conseguem identificar as características apontadas e muitos eliminam fêmeas pelo “olhômetro”, concluindo, posteriormente, que elas estavam prenhes. Para tal análise, é fundamental consultar um veterinário calejado, para te auxiliar no descarte desses animais improdutivos do rebanho, que deixam sua carteira cada vez mais vazia. Sai pra lá!

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