Como realizar um planejamento sustentável para produção de leite em 2019?

Marcelo Carvalho de Souza, consultor da Labor Rural, explica como realizar um planejamento sustentável na pecuária de leite

Começa 2019 e, como em todos os anos, planos, metas e promessas são renovados na esperança de sempre evoluir, configurando-se como o momento em que se escuta: esse ano será diferente. Quando se trata da atividade leiteira, sabemos que novos desafios vão sempre surgindo, custos de produção se elevando e, muitas vezes, o crescimento do volume do leite se apresenta como uma solução viável ao produtor para a manutenção da sustentabilidade econômica da propriedade rural.

Pensando no lucro da fazenda, assim como de qualquer empresa, ressalta-se sempre que os resultados econômicos estão baseados em três pilares: custos de produção, escala e preço recebido pelo leite vendido. A interação desses fatores é responsável pelos resultados econômicos alcançados. Analisando o comportamento de preços e custos nos últimos anos nas fazendas participantes do projeto Educampo Leite do Sebrae Minas, nos deparamos com uma triste notícia: considerando os resultados obtidos em uma mesma amostra de fazendas, conforme os indicadores médios observados de dezembro de 2014 a novembro de 2015 e de dezembro de 2017 a novembro de 2018, enquanto os custos de produção apresentaram um crescimento de 18%, os preços do leite comercializado elevaram-se em apenas 7,9%. Ou seja, as fazendas que não alteraram seu volume operaram com 10,1% a menos de margens de ganho na produção de leite, desconsiderando-se a venda de animais.

 

 

Esses dados fazem com que seja comum ouvirmos frases como: “meu pai criou uma família com 10 filhos, produzindo 50 litros de leite. Hoje, isso seria impossível” e “um litro de leite valia, antigamente, o mesmo que um litro de gasolina e, atualmente, nem se compara”. Reclamações recorrentes de produtores de leite são, de fato, proposições reais, assim como o mercado é sempre soberano nas suas leis de oferta e demanda, que determinarão os preços. Dessa forma, o produtor pode influenciar o valor recebido pelo leite apenas com melhorias na qualidade e composição, negociações e aumento de volume entregue à indústria.

Nesse sentido, estão sendo criadas políticas públicas para estabelecer valores de referência para remuneração de produtores de leite baseados nos custos de produção observados na atividade leiteira. Resta sob o domínio do produtor que busca o desenvolvimento de um negócio rentável, portanto, a escala de produção e o controle da sua estrutura de custos, sendo estes muito mais relevantes para o seu sucesso econômico do que propriamente o preço do leite. Essa relação pode ser observada no gráfico a seguir onde, estatisticamente, o custo de produção se mostrou cerca de quatro vezes mais importante na interação com a margem líquida do que o valor unitário recebido pelo leite segundo os coeficientes de determinação (R²) obtidos. Eles reforçam a ideia de que o preço é sim muito importante, mas não são necessariamente os produtores que ganham mais dinheiro diante da valorização do produto, mas sim aqueles que possuem o custo equilibrado com seu nível de produção.

Quando se fala em volume de leite produzido, seu aumento tende a proporcionar tanto ganhos diretos, como o aumento das receitas e melhoria no preço do leite recebido, quanto benefícios indiretos, como a diluição de custos fixos de produção (aqueles que não se alteram em razão da escala produzida). Além disso, o aumento do volume de leite promove também um maior poder de barganha nas negociações de compra de insumos devido a maior quantidade usada na fazenda, permitindo assim a redução de custos com produtos e serviços.

Ao avaliar o mesmo grupo de produtores, percebe-se que o aumento de 20% na escala de produção, acumulado no período, foi a saída para o déficit observado entre a variação de preço e custo do leite. Mesmo nessa situação, ocorreu um aumento da margem líquida da atividade, quando comparamos os anos de 2015 e de 2018:

Portanto, fica evidente a necessidade de crescimento no volume diário produzido diante das expressivas altas no custo de produção verificado em itens como fertilizantes, combustíveis, energia elétrica, além de determinados gastos que só apresentam tendência de aumento com o passar dos anos, como as despesas com mão de obra. Surgem, então, as perguntas principais:

  • Qual deve ser a minha meta?
  • Quantos litros devo produzir a mais este ano?
  • Qual o nível de intensificação necessário e qual a viabilidade econômica disso?

Para isso, proponho um exercício utilizando o exemplo de 564 fazendas participantes do projeto Educampo/Sebrae Mina, com pelo menos 12 meses ininterruptos de dados econômicos. Dessa forma, observa-se atualmente um Custo Operacional Total anual da atividade leiteira de R$ 879.450,94, incluindo os valores de todos os desembolsos anuais, a remuneração da mão de obra familiar e os custos com depreciação. Se calculada a inflação média dos últimos quatro anos baseada no IPCA, indicador oficial utilizado pelo governo, observamos um valor de 3,69% que, ao Custo Operacional Total dessas fazendas, representaria uma elevação de R$ 32.451,73 durante o ano.

Diante disso, para avaliar a necessidade do aumento do volume de produção, é possível utilizar uma adaptação do indicador conhecido como “Ponto de nivelamento” ou “Ponto de equilíbrio”. Ele indica o nível de produção mínimo necessário para se obter lucro igual a zero nas operações de uma empresa.

Na situação em questão, buscaremos o nível de produção marginal, ou seja, o quanto se deve produzir a mais para igualar os aumentos de custos de produção e, ao menos, manter estável a rentabilidade alcançada atualmente. Aplica-se, então, a equação descrita abaixo:

Se considerarmos que não houvesse nenhuma mudança nos preços de leite, já que não estão sob controle do produtor, e tendo em vista a margem bruta¹ média de R$ 0,31 por litro obtida nas fazendas do projeto, é possível aplicar a fórmula do ponto de equilíbrio e descobrir a necessidade de aumento na escala de produção:

Logo, percebe-se que, caso o ano de 2019 apresente índices de inflação semelhantes aos de 2018 e não sejam consideradas alterações no preço para a conta realizada, se torna necessária a elevação do volume em 286,8 litros/dia para fazendas com a estrutura de custos e capacidade de produção semelhantes a das propriedades participantes da amostra em análise. Diante disso, surge uma outra pergunta: Como aumentar esse volume: elevar o número de vacas ou a média de produção por vaca em lactação?

Atentando para as duas hipóteses, existem três opções para alcançar os 286,8 litros propostos: Aumentar 3,29 Litros/vaca/dia, considerando que as 370 fazendas possuem, em média, 87 vacas em lactação; elevar em aproximadamente 15 vacas em lactação, uma vez que a média de produção por vaca em lactação, no período de dezembro de 2017 a novembro de 2018, nas fazendas em questão, foi de 19,33 L/vaca/dia; evoluir proporcionalmente o número de vacas e a média de produção por cabeça, para que, em consonância desses dois indicadores, seja possível alcançar a meta proposta.

O mais impactante, contudo, é que os ganhos de eficiência para essas fazendas não resultariam em maior retorno econômico, apenas manteriam a rentabilidade atual caso não ocorresse aumento nos preços recebidos pelo leite.
É por isso que, quando se fala em aumento de volume, não se trata meramente de vaidade de técnicos ou conversa para beneficiar laticínios mas, sim, de uma necessidade iminente do produtor, trazendo maior competitividade à empresa rural pelo equilíbrio entre preços e custos. Ou seja, o maior volume de produção permite a valorização do leite comercializado e auxilia no capital de giro no momento da aquisição de insumos, além de promover a diluição dos custos fixos e, consequentemente, de otimizar a rentabilidade da atividade leiteira.

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