Empresas se unem para levar conectividade ao campo

Oito empresas de agro e telecomunicações querem levar banda larga 4G para 5 milhões de hectares ainda este ano

Com mais de 90% do campo brasileiro sem conexão à internet e sérias dificuldades de implementar novas tecnologias, o setor que responde por um quarto do PIB brasileiro tem buscado meios de resolver seus próprios problemas de infraestrutura. AGCO, Bayer, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble  anunciaram, durante a edição deste ano da Agrishow, uma iniciativa conjunta para levar banda larga 4G para 5 milhões de hectares ainda este ano: o ConectarAgro.

“Basicamente, a gente vai fazer uma nova conectividade. As tecnologias que existem hoje não são escaláveis, elas existem para um problema específico e a gente não consegue levá-las para outras regiões”, explica Rafael Marquez, diretor de marketing da TIM. A proposta envolve levar antenas de conexão 4G de frequência 700 MHz, a mesma que outrora foi ocupada pelo sinal de televisão analógico, para áreas que atualmente não possuam conexão. O modelo permite cobrir, com apenas um ponto, uma área de 35 mil hectares e possui abrangência nacional.

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Segundo dados apresentados pela Nokia, o Brasil possui 500 mil fazendas, o equivalente a 5o milhões de hectares, a serem cobertos com internet. “Se deixarmos que cada produtor escolha um caminho diferente para solucionar esse problema, deixaremos ele sem saber o que fazer”, explica Leonardo Finezolla, diretor de novos negócios da companhia, ao referir-se às diferentes soluções já apresentadas pelo setor – muitas vinculadas a uma marca ou produto específico. “Temos a obrigação de criar uma solução única sob o risco de incorrermos numa grande confusão tecnológica”, ressalta Finezolla.

Com 700 mil hectares já instalados, a expansão do projeto, contudo, deve depender da capacidade de investimento do setor. O custo estimado pela TIM, considerando a área coberta por uma antena, é de meia saca de soja por hectare – investimento que, segundo a empresa, se paga com os próprios ganhos gerados pela conectividade no campo. “É um investimento feito por iniciativa privada do cliente. A gente viabiliza um modelo de negócios que se paga rápido. Se aumentar em 1% a produção esse ganho já pagou o investimento todo”, explica Marquez. O desafio, com isso, é motivar pequenos e médios produtores a darem o primeiro passo para uma agricultura digital.

“O projeto foi feito em cima de grande produtores, que entraram primeiro até mesmo por uma questão financeira. Mas como operador e iniciativa não queremos nos contentar a ficar apenas com os grandes”, afirma o executivo da TIM. Finezolla, da Nokia, também reconhece a dificuldade.”O grande desafio nosso, que estamos trabalhando muito, é atingir o pequeno e o médio produtor, para quem essas antenas cobrem muitas áreas”. Com isso, o grupo tem buscado criar uma forma para que diversos produtores possam compartilhar os custos da instalação “num modelo que seja bom para o fazendeiro e para quem oferece o serviço”. “Como a cobertura é bastante ampla, ela permite que a gente faça isso para um grupo de agricultores para amortizar o investimento”, reconhece Marquez, da TIM.

As expectativa da empresa é que, com a expansão da conexão, o valor da mensalidade de provedores de internet também caia nas zonas rurais do país.  “A tecnologia é aberta, a frequência 4G está disponível para todo mundo. Estamos sendo protagonistas em oferecer essa infraestrutura, mas nada impede que outras empresas entrem neste movimento.”, observa o Marquez, ao ressaltar que o setor precisa de escala para cobrir um país com a dimensão do Brasil. “Parece muita pretensão que uma única operadora cubra todo o território nacional”, afirma o executivo.

Na avaliação da Bayer, empresa que também apoia o projeto, a ampliação da conexão no Brasil deve ocorrer de forma “exponencial”. “A partir do momento que esse 4G chegar ao campo, vai ser o mesmo que ocorreu na cidade: crescendo o uso, as próprias empresas verão oportunidade e iniciarão a expansão dessa rede”, destaca Guilherme Belardo, gerente de produtos da Climate Field View para a América do Sul, ao reconhecer que, num primeiro momento, o avanço da conexão possa ficar concentrado em regiões específicas.

A Climate Field View, divisão de agricultura digital da Bayer, oferece relatórios detalhados sobre diferentes momentos da safra – plantio, pulverização e colheita – a partir da leitura de dados de máquinas agrícolas de diversas marcas. A tecnologia, contudo, depende em boa parte de uma boa conexão para a transmissão em tempo real dos dados gerados na lavoura. Quanto mais rápida a decisão, maiores os ganhos do produtor.”Não tenho dúvida que, levando isso para o campo, alavanca-se a agricultura de precisão, que vai gerar mais dados para a agricultura digital e auxiliar cada vez mais o produtor na melhor tomada de decisão. Não há duvida de que alavanque a cadeia como um todo”, observa Belardo.

Atualmente, o Climate Field View cobre uma área de 5 milhões de hectares no Brasil, marca alcançada em apenas dois anos. Nos EUA e Europa, essa cobertura passa dos 24 milhões de hectares. Nas áreas sem conexão, a empresa tem oferecido soluções que permitem ao agricultor tenha acesso aos dados pelo menos uma vez ao dia. “Isso já é um grande passo, pois ele pode ver o que aconteceu e tomar uma decisão pro dia seguinte. Agora, a gente espera que, a partir do momento que ele tenha o 4G, ele não tenha mais necessidade de esperar 24 horas para ajustar sua operação, o que facilita muito a vida dele”, ressalta Belardo ao comparar Brasil e EUA.

Segundo o gerente de produtos da Climate, se consideradas as principais culturas dos EUA (milho) e do Brasil (soja),  o campo americano possui mais de 80% da área plantada coberta coberta com rede 4G. “Aqui a gente tem o contrário, talvez menos”, reconhece o Belardo, ao apontar riscos para a competitividade do país caso essa situação não mude nos próximos anos. “Se a gente não começar a correr atrás disso e viabilizar a conexão no campo vamos começar a ficar pra trás de alguns concorrentes, que terão mais informação de forma mais rápida, tomando melhores decisões com aumento de produtividade e rentabilidade”, alerta o executivo.

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