Fertilizantes acompanham avanço do agro e têm mais demanda

Apesar da crise global pela pandemia da Covid-19, setor elevou importações no mês de abril
Foto: Patrick Pleul/AFP

O setor de fertilizantes vem em uma crescente de 3% a 4 % ao ano na última década. E a expectativa de especialistas do setor é que a tendência de crescimento siga, apesar da crise em decorrência da pandemia global do coronavírus. “No setor de agricultura de modo geral, a impressão que nós temos é que será muito pouco afetado em função desse problema. A demanda por fertilizantes [deve se manter], o agricultor está capitalizado, ele tem dinheiro. Na média, a situação da lavoura está muito boa há muitos anos”, relatou o diretor executivo da Associação dos Misturadores de Adubo do Brasil (AMA), Carlos Florence, à ANBA.

Os dados do setor, compilados pela Associação Nacional de Difusão de Adubos (ANDA), são divulgados apenas quatro meses após cada fechamento, mas segundo o diretor executivo da ANDA, David Roquetti, até o momento o fluxo setorial está normal. “A partir de projeções de renomadas consultorias, se concretizadas estas estimativas/projeções elaboradas por elas, as entregas de 2020 serão em torno de 1,5% a 3% superiores às de 2019”, afirmou Roquetti em entrevista.

A importação responde por pelo menos 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil. No acumulado de abril, até esta segunda-feira (27), a média diária de importação de adubos e fertilizantes foi de 107,42 mil toneladas, um crescimento de 53,33% frente a abril de 2019. “Note que a média diária de importação é maior que no ano anterior, tanto em toneladas como em dólares e neste ritmo, as importações totais do mês serão maiores”, apontou o consultor José Francisco da Cunha, que atende empresas e associações ligadas à agricultura. Segundo ele, mesmo com os preços médios caindo, o total das importações em dólares será maior.

Dentre os mercados que fornecem ao Brasil, os árabes são importantes vendedores de fósforo, nitrogenados e ureia. Só em nitrogenados, o Brasil precisa importar 60%, e em fosforo o número é de 55%. “São produtos que têm formação de preço internacional. E os árabes são fortes, a Arábia Saudita, por exemplo, é muito forte em fosfatado, já o Catar nos fornece enxofre, ureia”, aponta o consultor.

Os dados deste início de ano, no entanto, correspondem ao momento em que o setor de fertilizantes vive sua entressafra. Nestes meses, há menor entrega dos produtos para o agricultor, que está colhendo as culturas da chamada ‘safrinha’. O pico das entregas ocorre entre agosto e novembro. Para Cunha, o movimento de importação naturalmente crescerá a partir do segundo semestre do ano, já que de janeiro a abril o volume de importações corresponde a apenas um terço do que será comprado em todo ano.

O que ainda não está claro para o setor é como se darão os meses de vendas mais robustas. Na cultura que mais compra fertilizantes, a soja, com fatia de 40%, Cunha explica que a política internacional é o que traz incerteza. “Temos ainda um cenário que não está muito claro. Temos vendas elevadas para a China. Se a China resolve os problemas de entendimentos com o EUA, compra também deles e menos de nós. Mas, vejo que no campo, os produtores sinalizam em importar um pouco mais. Estão conseguindo fazer negociações adiantadas de venda”, explicou.

Mas o cenário de maior nebulosidade é com relação a outras culturas, como a cana-de-açúcar. A matéria-prima é utilizada para produzir álcool, que deve sofrer com falta de demanda por combustível, além da concorrência dos preços do petróleo mais baixos. As incertezas passam pelo mercado do milho, que com áreas de plantio maiores nesta safra, pode sofrer com excesso de produto em um mercado já pressionado internacionalmente. Outras dúvidas são com relação ao consumo interno de carne, e a demanda global por algodão. Este último, é muito exportado para tecido e roupa e deve sofrer com a queda na demanda por vestuário.

Para o consultor, ainda é cedo para prever uma queda no consumo como um todo, mas a sugestão é cautela. “Eu tenho recomendado aos clientes, se for oportuno para ele, se puder travar a venda, ele fazer isso para ter segurança. Porque em preço [do fertilizante] provavelmente pode cair, mas pode impactar logística. E se ocorrer do navio ficar em quarentena? Quanto tempo pode demorar? Por isso, se for oportuno, garantir a compra dele”, pontou Cunha.

Neste cenário de crescimento, a indústria nacional de fertilizantes, no entanto, tem pouco a comemorar. A produção brasileira é pequena diante da demanda por fertilizantes no País e, as plantas vêm sendo descontinuadas. É o caso da Araucária Nitrogenados, uma das plantas que a Petrobras tinha para produção de fertilizantes e que foi fechada.

“A indústria local não tem a capacidade para produzir. A demanda do Brasil, nestes últimos 15 anos, vem subindo a uma taxa de 4% ao ano. Um projeto de fertilizantes demora 10 anos, entre aprovar planta, analisar se o investimento é rentável, etc. Não é que a indústria nacional não queira, ao contrário, eles desmontaram fábricas. A Petrobras produzia ureia em três fábricas dela. No Paraná, na Bahia, e em Sergipe, todas ela fechou porque eram antieconômicas, antigas”, afirmou Florence, lembrando que há algumas iniciativas de novas plantas no Amazonas e na região Sudeste, mas todas ainda em desenvolvimento.

Cunha destaca que a indústria brasileira, inclusive, regrediu nos últimos meses. “As expansões estão com obras paradas. Isso tem causado muita dificuldade para as empresas, então não tem como aumentar [a produção]. As obras de ampliação mudaram para serem consolidadas para o ano que vem”, explicou.

Enquanto dependente da importação, os brasileiros seguem atentos à logística portuária. O principal porto para entrada de fertilizantes, o Paranaguá, vem conseguindo manter seus fluxos normais, descarregando hoje 50% a 60% do que chega ao País. Até agora, não houve notícias de problemas no embarque nos países exportadores, como a Arábia Saudita, o Catar, ou mesmo a China, grande fornecedora de ureia.

Para Florence, os desafios do setor seguem sendo o desenvolvimento para acompanhar os volumes produzidos pela agricultura. “Eu vivi a época em que o Brasil importava alimento. De 30 anos para cá, foi uma barbaridade o desenvolvimento. Cada ano, pensamos que já chegou [no máximo] e depois aumenta. Mas o que o Brasil tem a produção de culturas como o milho, por exemplo, a produtividade ainda tem muito a crescer. Algumas são excepcionais, mas o lavrador médio tem muito o que aumentar”, avaliou.

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