Genômica: chegou a vez das fêmeas!

Fazendas aplicam a tecnologia para identificar doadoras de plantel e novilhas superprecoces já na desmama
Grupo Katayama reduz idade média das doadoras de sete para três anos e meio. Foto: divulgação.

Por Carolina Rodrigues

Usuária de genômica em testes de paternidade (para correção do parentesco) e na escolha de tourinhos no teste de progênie, a Katayama, uma das empresas associadas ao Programa DeltaGen de melhoramento genético, direcionou a tecnologia para fêmeas com um propósito específico: apartar já na desmama as candidatas às doadoras de seu plantel. O resultado foi expressivo: na primeira safra, a empresa conseguiu reduzir de sete para três anos e meio a idade média das doadoras. Na estação 2016/2017, todas as doadoras da Katayama, selecionadas por melhoramento convencional, eram multíparas, com idade média de 84 meses. “Ao baixar pela metade a idade média de nosso grupo de doadoras, conseguimos maximizar bastante o intervalo de gerações, um dos fatores fundamentais para o progresso genético da propriedade”, afirma Márcio Ribeiro Silva, responsável pelo projeto de seleção da empresa há 10 anos pela Melhore Animal Consultoria, que enxergou a possibilidade de aplicar a genômica além da seleção dos tourinhos.

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Por utilizar diferentes linhagens, a Katayama sempre teve variabilidade genética no plantel, mas faltava maior segurança na escolha das matrizes mais produtivas de cada geração. “A genômica diminui os riscos de investir em animais mais jovens, onde estão naturalmente os exemplares geneticamente superiores do rebanho”, diz, referindo-se à tendência na pecuária de corte de antecipar cada vez mais a época de aspiração das fêmeas, reduzindo, por decorrência, a idade à primeira concepção.

De um universo de mais de 5.000 matrizes nascidas nas quatro fazendas do grupo, foram selecionadas 118 animais, tendo como linha de “corte” a seleção de animais Deca 1 (classe de 0,1 a 10% das melhores fêmeas da safra) para as características INDD (índice de desmama), INDF (índice final), GD (ganho de peso pré-desmama), D160 (dias para atingir 160 kg no nascimento à desmama), GS (ganho de peso ao sobreano) e D400 (dias para atingir 400 kg), todas elas ligadas à capacidade das fêmeas em expressar ganho de peso, fator altamente relacionado à precocidade sexual e de acabamento. Também foram consideradas DEPs de probabilidade de prenhez precoce, stayability e perímetro escrotal, além de características de carcaça, incluindo as avaliações da ANCP.

Quando aplicada à genômica, a avaliação genética na desmama e no índice final manteve avaliações positivas, com um verdadeiro upgrade na acurácia dessas características, que saíram da média de 0,48% para 0,71%. Para Silva, muito além da abertura para doadoras jovens e mais produtivas na seleção, o programa aumentou a pressão da Katayama em cima das vacas múltiparas, que com o novo programa de FIV somaram apenas 20% do time de novas doadoras. Como a fazenda já não depende exclusivamente desta categoria animal no processo, elas têm que ser Deca 1 na avaliação genética, fazer parte do time de precoces, “além de passar por outros crivos adicionais que podem tomar essa peneira ainda mais fina”, segundo o consultor. “Nosso objetivo final é aumentar a frequência dos genes que queremos fixar no plantel de forma muito mais intensiva do que fazíamos.”

Os resultados da FIV confirmam o sucesso do novo programa. Na estação 2017/2018, foram aspirados 6.700 oócitos viáveis, que resultaram em 1.114 embriões vitrificados (congelados). Elas foram transferidos ao longo da estação de monta, gerando cerca de 400 prenhezes do novo programa de identificação de doadoras da Katayama. Em 2019, o grupo pretende genotipar 100% da safra, permitindo identificar doadoras também no núcleo superprecoce de fêmeas, um dos pontos fortes do projetos da Katayama e tema do Dia de Campo ocorrido no dia 16 de março na Fazenda Campo Triste, propriedade de cria e recria em Três Lagoas, MS, que reuniu cerca de 150 pessoas e a visitação aos lotes de fêmeas jovens com bezerros ao pé; e touros com índices de produção de até 70% de filhas precoces e superprecoce. “Essa é a ponta do iceberg. Acredito que possamos chegar lá, agregando ainda maior eficiência ao processo”, projeta Silva.

Alicerce para a precocidade

É o que tem feito o Grupo Rezende, dono de uma população de 10.000 matrizes avaliadas no DeltaGen, onde a genômica tem sido a chave de sucesso para produzir prenhez precoce na Fazenda Santo Antônio das Três Marias, em Santo Antônio do Leverger, região desafiadora de Mato Grosso.

O trabalho começou em 2014, respaldado por um estudo técnico de associação entre o fenótipo e o genótipo de 438 fêmeas prenhes com idade entre 13 e 18 meses, caracterizando assim um perfil precoce. A seleção genômica foi aplicada durante o processo e identificou quatro segmentos do genoma com alta associação ao fenótipo de prenhez precoce, ou seja, regiões do DNA onde houve manifestação da característica.

Os resultados finais confirmaram as projeções, dando então suporte para novos investimentos: cerca de 80% das fêmeas com perfil genômico favorável à prenhez precoce estavam prenhes à data do diagnóstico da primeira IATF, enquanto 98% das que apresentam perfil desfavorável permaneceram vazias ao fim das avaliações. “Isso nos deu segurança para aplicar a genômica na seleção para precocidade sexual de forma mais intensiva nas safras que viriam”, lembra Álvaro Fortunato, da Personal PEC, empresa que presta consultoria ao projeto, que já soma 1.500 genotipagens de fêmeas superprecoces. Elas são selecionadas previamente, utilizando como regra animais que tenham índice de desmama superior e notas extremadas de conformação, precocidade e musculatura (CPM), e pesem no mínimo de 260 kg para iniciarem a estação reprodutiva.

A genômica entra no processo para reforçar a acurácia e tem permitido identificar, já na desmama (7-8 meses), fêmeas aptas a se tornarem superprecoces na próxima safra, o que vem se confirmando na prenhez. Na última safra, de um universo de 2.000 fêmeas nascidas, 549 foram pré-selecionadas pela genômica e se comprovaram superprecoces com 50% de prenhez na primeira IATF. Outras 225 tiveram 51% de prenhez no segundo protocolo, compondo o grupo de precoces da fazenda.

Atualmente, 50% da reposição do Grupo Rezende é realizada com fêmeas do grupo superprecoce, cenário que Fortunato atribui ao ambiente desafiador em que elas são recriadas: o pantanal mato-grossense. O objetivo nos próximos anos é otimizar esses resultados, principalmente na categoria mais jovem. “Hoje, as fêmeas que não emprenham até os 16-18 meses voltam para o trabalho de prenhez aos dois anos e fazem a reposição convencional do plantel, porém com o aumento do uso destas fêmeas superprecoces, permitiremos assim que essa genética vá se fixando ao longo das gerações.” A expectativa é de que, em mais cinco anos, 100% da safra seja reposta por fêmeas que concebem sua primeira cria até os 26 meses.

Para Fortunato, o uso da genômica aplicada às fêmeas descortina inúmeras possibilidades, seja na reposição de novilhas, na identificação de jovens doadoras ou nos projetos de precocidade sexual. Permite maior eficiência do melhoramento genético, que leva na conta a redução do intervalo de gerações e ao incremento da acurácia dos animais. “Estamos trabalhando o divisor e o denominador para garantir maior progresso genético dentro das propriedades”, algo também confirmado pelo universo de fazendas associadas ao Delta Gen.

Pesquisa recente do programa mostrou que matrizes adultas, com média de sete crias, apresentavam acurá- cia regular de 50%, percentual considerado incipiente para o uso expressivo no plantel. “Temos touros no nosso banco que, aos dois anos de idade, têm confiabilidade muito maior do que fêmeas aos 12 anos, com filhos nascidos e avaliados dentro do programa. Queremos diminuir essa discrepância para ganhar nas duas pontas”, observa Rodrigo Dias, gerente técnico Delta Gen.

Em 2018, o DeltaGen deve coletar cerca de 8.000 novos genótipos, sendo 50% de fêmeas jovens e 50% de touros. Até o ano passado, a média girava em torno de 5.000 genótipos, na proporção de 20% para 80%. Um dos objetivos do programa é reduzir a idade em que as fêmeas são aspiradas de quatro para dois anos, diminuindo também a idade à primeira concepção, a exemplo do vem sendo feito na Katayama. “Precisamos aumentar nossa capacidade de identificar fêmeas superiores em idade ainda jovem como já fazemos nos touros para alcançar progresso genético no todo. Começamos o processo, que deve avançar ainda mais nos próximos anos”, conclui Dias.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO.

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