Guerra comercial EUA x China e o impacto na soja e no milho

Rubens A. de Miranda, da Embrapa, comenta os reflexos do conflito sobre nossas exportações

Após um final de semana de negociações, no encontro dos países do G20 ocorrido na Argentina, os Estados Unidos (EUA) e a China anunciaram, no dia 3 de dezembro, que deram uma trégua na guerra comercial entre os países. Essa polêmica disputa comercial se iniciou há alguns meses e desde então vem estremecendo a economia global.

Aproximando-se do final do ano, já podemos quantificar alguns dos reflexos do referido conflito sobre as exportações brasileiras. Mesmo à margem da briga dos gigantes, a soja, principal commodity brasileira, vem sendo amplamente beneficiada. Contudo, para entender melhor, vamos à cronologia dos fatos.

Tudo começou no início de março de 2018, quando os Estados Unidos anunciaram que aplicariam uma sobretaxa ao aço e ao alumínio importados de vários países. Posteriormente, ficou claro que o alvo da manobra era a China, com quem o país possui um déficit comercial recorrente, na casa de centenas de bilhões de dólares. Assim, no dia 22 do mesmo mês, anunciaram que também aplicariam uma tarifa de 25% sobre um montante de US$ 50 bilhões em produtos chineses, com a alegação de ser uma medida defensiva contra violações de propriedade intelectual.

Reagindo à política protecionista norte-americana, a China anunciou no dia 2 de abril que aplicaria tarifas no mesmo valor sobre produtos importados dos Estados Unidos, iniciando então uma “guerra fria comercial” entre os dois países. Dentre as mercadorias que seriam taxadas pelos chineses, havia algumas de especial interesse pelo Brasil, como soja e carne.

Sem acordo, a guerra comercial EUA-China foi de fato oficializada a partir de 0h01 do dia 6 de julho, com a entrada em vigor de tarifas de 25% sobre US$ 34 bilhões em mercadorias chinesas importadas. Apenas três horas após a entrada em vigor das tarifas americanas, Pequim anunciou que responderia de forma imediata com medidas tarifárias, no mesmo valor, sobre produtos norte-americanos.

Engrossando o discurso, na semana seguinte à entrada em vigor das tarifas, o governo dos Estados Unidos anunciou que estava estudando uma lista de produtos chineses no valor de US$ 200 bilhões para impor uma nova tarifa de 10%. A seguir, no dia 20 de julho, Donald Trump foi além e disse em entrevista a uma emissora americana que poderia sobretaxar todos os produtos chineses, na casa de US$ 500 bilhões.

Incapaz de bancar a aposta, pois tais valores ultrapassam as importações de produtos dos Estados Unidos, a China passou a estudar uma retaliação por medidas não tarifárias. Em outras palavras, com a ameaça, a Casa Branca esticaria a corda acima da capacidade chinesa numa disputa franca de tarifas.

No dia 23 de agosto, ocorreu de fato o segundo round da briga EUA-China. Os Estados Unidos adotaram uma tarifa de 25% sobre 279 produtos oriundos da China, sobre um montante no valor de US$ 16 bilhões. No mesmo dia, Pequim retaliou com a respectiva tarifa sobre idêntica quantia em dólares, mas abarcando 333 mercadorias dos Estados Unidos.

Olhando o quadro de forma mais ampla, a inclusão da soja pela China na primeira etapa da guerra comercial causou estranheza, pois a retirada da oleaginosa, de origem norte-americana, da equação do abastecimento do mercado chinês levantou questionamentos sobre a viabilidade da medida. Diversos analistas colocaram que poderia não haver quantidade suficiente de soja fora dos Estados Unidos para abastecer as necessidades da China, o que deixou os mercados apreensivos.

A China é o maior comprador de soja do mundo, respondendo por mais de 60% do mercado internacional da commodity. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país importou, na safra 2017/18, 96 milhões de toneladas de soja in natura. Como não poderia deixar de ser, esse mercado é disputado pelos dois maiores produtores, sendo o Brasil o maior exportador, e os Estados Unidos, o segundo.

Os dados do comércio exterior apontam que dos 68,1 milhões de toneladas de soja grão exportadas pelo Brasil em 2017, 53,8 milhões foram para a China, sendo que o comércio com o país asiático envolveu o montante de US$ 20,29 bilhões (FOB). Em 2018, de janeiro a novembro, o Brasil já exportou 79,4 bilhões de toneladas de soja, sendo 64,9 bilhões de toneladas (no valor de US$ 25,8 bilhões) somente para a China. Tais valores já superam com boa margem os resultados de 2017, até então recordes.

Analisando o comportamento mensal das exportações, fica evidente o papel da guerra comercial nas vendas da soja brasileira. Entre janeiro e abril, as exportações de soja para a China tinham diminuído 1,26 milhão de toneladas em relação ao mesmo período de 2017, mas com o avanço da disputa comercial a situação mudou. De maio a novembro, as vendas de soja para a China aumentaram 14,5 milhões de toneladas em relação ao respectivo período de 2017.

Se de um lado a soja vem sendo amplamente beneficiada pelas vendas para a China, os dados de comércio exterior também indicam que o milho pode estar sendo prejudicado na disputa por espaço nos portos. Tradicionalmente, o milho para exportação é produzido na segunda safra. Assim, os embarques do cereal ganham força em julho e agosto, após a colheita, e perduram no decorrer do segundo semestre, passando a diminuir em fevereiro do ano seguinte, com o início dos carregamentos da safra colhida de soja. Por conseguinte, os embarques da soja aumentam até o pico em abril e maio, e depois passam a reduzir, dividindo os portos com o milho safrinha no segundo semestre. Porém, em 2018 especificamente, os embarques de soja têm sido maiores que os embarques de milho, algo que não ocorria em anos anteriores.

Nos relatórios de levantamento de grão publicados mensalmente pela Conab, até junho, apontavam-se estimativas para as exportações de milho da safra 2017/18 na ordem de 32 milhões de toneladas. Tais estimativas diminuíram sucessivamente até o relatório de novembro, quando ficaram em 23 milhões de toneladas.

Os dados do comércio exterior apontam que as reduções das exportações de milho foram “coincidentemente” quase equivalentes ao aumento das exportações de soja. De julho a outubro, as exportações de milho diminuíram 7,9 milhões de toneladas em relação ao respectivo período de 2017, enquanto na soja ocorreu um aumento de 8,6 milhões de toneladas, no mesmo período, em relação ao ano passado.

É importante frisar que as tarifas impostas na guerra comercial não constituem um impedimento ao comércio, não são uma proibição, mas uma barreira que diminui a competitividade da soja americana frente à brasileira no mercado chinês. As tarifas alteram os preços relativos, fazendo surgir uma nova situação de equilíbrio, com maior participação das exportações brasileiras.

A colheita da maior safra de soja da história dos Estados Unidos, 125,2 milhões de toneladas, somada ao conflito comercial com o maior comprador do mercado, era a receita de bolo para os preços despencarem. Desde o pico da cotação da soja em 2018, US$ 10,77 o bushel, no início de março, seguido do anúncio da sobretaxa do aço e alumínio no dia 8 do mesmo mês, os preços da oleaginosa despencaram, ficando abaixo de US$ 8,30 o bushel nos últimos meses. A baixa das cotações da soja em Chicago levou ao menor valor da commodity desde 2008.

Do outro lado da moeda, a pressão de demanda sobre a soja brasileira elevou os nossos preços domésticos no decorrer de 2018. A cotação média da saca de soja no País saltou de R$ 61,95 em janeiro para R$ 79,53 na média de setembro (R$ 90 em Paranaguá), um aumento superior a 28%. Contudo, o câmbio, que esteve cotado na média de R$ 3,213 em janeiro, ficou R$ 4,108 em setembro, representando uma depreciação de 27,86%, contrabalançando o aumento das cotações da soja no decorrer do ano e fazendo o produto continuar atrativo lá fora.

No mês de setembro, quando as cotações da soja no Brasil atingiram o pico, os preços nos Estados Unidos atingiram os menores valores. A tonelada métrica da soja nos Estados Unidos caiu de U$ 459,90 (na média) em abril para U$ 382,98 em setembro; essa redução de 16,7% ajudou a contrabalançar a tarifa de 25%, enquanto o aumento de preço da oleaginosa no Brasil foi compensado pela depreciação cambial. Assim, na ausência de novos fatos relevantes, a soja brasileira e a americana seriam novamente competitivas entre si na disputa pelo mercado chinês a partir de setembro, mas numa situação de equilíbrio de curto prazo com maior participação do Brasil.

A evolução das cotações em outubro e novembro corrobora esse argumento, pois as cotações no Brasil passaram a cair e as dos Estados Unidos, a aumentar. Não haveria uma reversão do comportamento das cotações após o início da guerra comercial se a soja dos dois países não estivesse competitiva nos novos patamares de preços.

Para 2019, cabe observar o desdobramento do conflito comercial. Caso ocorra algum acordo, a soja dos Estados Unidos aumentaria a sua participação no mercado chinês, dadas as baixas cotações. Por outro lado, se a situação de conflito persistir, deverá ocorrer um ajuste na oferta de soja pelos Estados Unidos, pois o produto está sobrando no país. O USDA projetou um aumento dos estoques de soja para a safra de 2018/19, no relatório de novembro, em 118%, passando de 11,92 milhões para 26 milhões toneladas. Assim sendo, nos resta agora esperar as próximas jogadas.

*As opiniões expressas nos artigos não necessariamente refletem a posição do Portal DBO.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest
Share on pocket
Pocket
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on skype
Skype
Share on email
Email
Share on telegram
Telegram
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest
Share on email
Email
Share on pocket
Pocket

Veja também:

Sobre o autor

Menu
Fechar Menu
×

Carrinho

Você + Portal DBO

Cadastre-se gratuitamente em nossa newsletter e receba diariamente o melhor do agronegócio em seu e-mail.