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Imitando a natureza para produzir mais

Pecuária regenerativa propõe manejo com lotações altíssimas e “instantâneas”, que adubam naturalmente as pastagens e aumentam matéria orgânica do solo

Por Renato Villela

Todos os anos, milhares de gnus (espécie selvagem pertencente à família dos bovídeos), deixam para trás as planícies do Serengeti, na Tanzânia, e partem rumo ao Parque Masai Mara, no Quênia, iniciando a chamada “grande migração”. Sentindo o cheiro da chuva, seguem o instinto em busca de relvas mais verdejantes e deixam pra trás pastagens já adubadas, prontas para um novo ciclo de regeneração.

Alan Savory, biólogo que estabeleceu as bases da pecuária regenerativa

Observando esse comportamento, o biólogo Allan Savory, que cresceu “detestando a pecuária”, passou a defender o uso do gado para mimetizar (imitar) a natureza e, assim, reverter processos de desertificação em várias partes do globo, por meio do que ele chama de “pecuária regenerativa”. Suas ideias têm conquistado adeptos em dezenas de países, incluindo alguns da América do Sul, como Uruguai, Argentina e Brasil.

Segundo o Instituto Savory, com sede no Colorado, EUA, mais de 13 milhões de hectares de pastagens degradadas no planeta já estão sendo recuperadas por meio da pecuária regenerativa. A meta é atingir 1 bilhão de ha até 2025, com o estabelecimento de 100 hubs (propriedades que funcionam como polos difusores) espalhados pelo mundo. No Brasil, não se tem informações sobre o número de adeptos do sistema, mas um breve levantamento feito por DBO listou pelo menos sete propriedades que adotam alguns princípios de Savory. Duas foram escolhidas para esta reportagem (Agropecuária Kehrle, em TO, e Fazenda Triqueda, em MG), porque mergulharam “de cabeça” na proposta. A tendência é de expansão.

Recentemente, o Grupo Luxor, do RJ, por exemplo, anunciou a montagem do Projeto Pasto Vivo em Pontes e Lacerda (MT), até 2022, uma experiência com pecuária regenerativa em sistema silvipastoril que terá o fundo holandês Meraki Impact como parceiro e orçamento inicial de R$ 5 milhões.

Bases do sistema

Savory criou o conceito de pecuária regenerativa após uma experiência traumática. Quando trabalhava como consultor em um parque no Zimbábue, na década de 50, ele recomendou o sacrifício de 40.000 elefantes na tentativa de reverter a degradação do solo na reserva, que imaginava ser decorrente da superpopulação de animais. “Foi o maior erro da minha vida”, afirmou em sua famosa palestra TED Talks, que já soma 7,2 milhões de visualizações. Após o triste episódio dos elefantes, Savory decidiu dedicar sua vida à busca de soluções para reverter a desertificação, que estima estar presente em dois terços do globo. Concluiu que os dejetos deixados pelas manadas fertilizam o solo e as gramíneas pisoteadas lhe garantem boa cobertura, o que possibilita rápida recuperação das forrageiras.

“Se não houvesse o pastejo, o capim ficaria em pé e não se decomporia biologicamente no solo. Em vez disso, sofreria oxidação, processo lento que abafa e mata as pastagens, deixando o solo nu”, explica o biólogo na palestra. A partir dessa constatação, que chama de “jornada de reeducação e descoberta”, Savory passou a defender o uso do gado como forma de combater a desertificação, que acredita ser uma das causas das mudanças climáticas no planeta. “Não resta outra saída para a humanidade. Temos de utilizar os rebanhos e o pastejo planejado como forma de mimetizar a natureza. Assim o solo estará pronto para absorver e reter a água da chuva, armazenar carbono e quebrar as moléculas de metano”, diz na palestra.

O conceito de pecuária regenerativa tem, portanto, dois grandes pilares: o pastejo planejado de alto impacto (até 3.000 cabeças/ha) e a gestão “holística” (sistêmica) da atividade, com respeito aos ciclos naturais e uso de práticas conservacionistas. Savory preconiza uma relação harmoniosa solo-pastagem-gado, como o francês André Voisin, em cujos livros buscou respaldo técnico, mas idealizou um sistema baseado em altas “densidades” de pastejo (taxa de lotação) e menor tempo de permanência nos piquetes.

Filipo Fernando Bouzon Leta, representante do Instituto Savory no Brasil, salienta que Voisin criou seu modelo em áreas com umidade mais constante, enquanto a proposta de Savory partiu de regiões áridas ou com precipitação bem delimitada. “Nessas condições, a manutenção da umidade do solo, fundamental para o funcionamento do ecossistema, depende de uma grande concentração de fezes/urina, por isso as altas lotações”, explica.

Pioneirismo e ousadia

Aline Kehrle com o marido, Marcos Spinella na área que foi manejado com lote ultradenso até outubro

A veterinária Aline Kehrle, 37 anos, estava na Alemanha em 2013, fazendo doutorado em reprodução animal, quando assistiu a TED de Savory, recomendada por um amigo. Ficou tão fascinada com a proposta que decidiu interromper o curso e arrumar as malas.

“Era uma mudança de paradigma, porque o gado sempre foi visto como vilão do meio ambiente. De repente, percebi que era possível usá-lo para melhorar a fertilidade da terra, de maneira ecológica, aumentando a longevidade do sistema pecuário, sem uso de adubos ou corretivos”, conta.

Seis meses depois desse insight – que ela chama de “momento eureca” – já estava de volta ao Brasil para trabalhar na fazenda da família, a Agropecuária Kehrle, em Aliança do Tocantins, onde montou um dos primeiros projetos de pecuária regenerativa com gado de corte do País.

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