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Na terra do colonião, a soja estende seu tapete verde

Nos últimos dez anos, a agricultura vem ocupando áreas de pastagens degradadas no Vale do Guaporé, em MT

Pontes e Lacerda, assim como outros municípios do Vale do Guaporé, no Oeste de Mato Grosso, é tradicionalmente conhecida como a terra do boi gordo. Grandes invernadas ocupam as terras férteis do vale e conseguem proporcionar índices de produtividade aos produtores que fazem da pecuária uma das mais rentáveis do país. Num raio de 200 km, que compreende ainda municípios como Vila Bela da Santíssima Trindade, Nova Lacerda, Comodoro, Porto Esperidião, entre outros, existem 4 milhões de cabeças de gado e cinco frigoríficos, o que facilita a vida dos criadores.

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Nos últimos dez anos, porém, a agricultura vem ocupando gradativamente áreas de pastagens em algum estágio de degradação – calcula-se que já existam quase 200 mil hectares em processo de integração -, proporcionando um ganho adicional aos produtores que, de tão expressivo, motivou a realização do primeiro Oeste Rural Show, feira de negócios agropecuários realizada pelo Sindicato Rural do município entre os dias 16 e 19 de maio.

Presidente do Sindicato Rural de Pontes e Lacerda, Nilmar Miotto

O objetivo do evento, nas palavras do presidente do sindicato, Nilmar Miotto, é mostrar aos pecuaristas as vantagens da integração lavoura-pecuária, das quais ele destaca duas: a valorização das terras, que chega a dobrar em três anos de ILP, e o ganho proporcionado ao integrador, que agrega renda à propriedade. Ele calcula que cerca de 450 mil hectares na região estão aptos a produzir grãos.

Vários depoimentos de pecuaristas que adotaram a integração nas suas fazendas corroboram a afirmação de Miotto, com números que deixaram a platéia do evento com água na boca. A fertilidade do solo, com alto teor de potássio e pH próximo de 7, faz com que o custo de produção seja até 30% menor do que nas áreas de cerrado, com economia de adubos e de sementes, e a produtividade da soja chega fácil aos 70 sacas por hectare, contra uma média no Estado de 54 sacas por ha. A safrinha de milho também exibe números musculosos, em torno de 110 sacas por hectare. A disponibilidade de grãos nas propriedades, por fim, ajuda a incrementar a alimentação do rebanho, reduzindo o tempo de terminação dos animais, e possibilita a lotação de até 6 vacas paridas por hectare ou de 10 a 12 bois. Para fechar o círculo virtuoso, a proximidade dos portos de Cáceres, ao Sul, e de Porto Velho, em Rondônia, possibilitam a exportação de grãos e carnes com logística adequada.

Um aspecto fundamental do sucesso das lavouras, segundo um dos palestrantes, foi o desenvolvimento de cerca de 30 variedades de soja apropriadas ao cultivo em baixas altitudes – Pontes e Lacerda está em média a 250 metros do nível do mar. Mas em relação à safrinha de milho, porém, os produtores alertam que a região não é homogênea em relação ao regime de chuvas, e é preciso conhecer bem a janela de plantio para não ter prejuízos com veranicos rigorosos. Cada produtor estabeleceu um arranjo de ILP mais adequado à sua propriedade, em função dessa variabilidade climática. Em alguns casos, produtores preferem jogar semente de capim logo após a colheita da soja, e não arriscar com o plantio consorciado de milho e capim.

Produtor Luciomar Machado Filho

Luciomar Machado Filho, que começou como garimpeiro aos 22 anos, foi madeireiro e iniciou na pecuária em 2005, adotou a ILP nos últimos cinco anos na Fazenda Gameleira, a 5 km da cidade de Pontes e Lacerda. Hoje, possui uma estrutura digna dos grandes agricultores do cerrado. “Quando comecei na pecuária, tirava 10% do que tiro hoje e me dava por satisfeito. Mas com o tempo a lucratividade começou a baixar, teve um grande ataque de cigarrinha e vi que precisava fazer alguma coisa para não quebrar. Contratei uma consultoria e comecei a fazer rotacionado, correção e adubação, para recuperar as áreas degradadas. Depois introduzi a agricultura para reforma dos pastos. No primeiro ano foi um desastre, tirei 32 sacas de soja por hectare. Hoje, consigo 62,5 sacas, com um custo de produção de 50. Com a saca a R$ 60, tenho um lucro de R$ 768,00 por hectare na lavoura”. Ele terminou sua palestra com um comentário vigoroso: “Sou pecuarista, fui buscar a agricultura para recuperar minhas terras degradadas. Mas, hoje, minha vida é muito mais emocionante. A agricultura proporciona emoção a todo momento”.

Mas a ideia central do evento não é transformar todo pecuarista em agricultor, e sim atrair investidores da agricultura para o arrendamento de terras tradicionais da pecuária que precisam de recuperação, de forma a incrementar a economia regional. Para isso, a Associação Comercial e Empresarial de Pontes e Lacerda, que tem entre os associados uma ampla rede de revendedores de máquinas e insumos agrícolas, juntamente com o Sindicato Rural do município, criaram a Bolsa de Arrendamento de Terras Vale do Guaporé, com departamentos específicos para tratar do arrendamento de terras para o plantio de grãos, sem custo de intermediação para arrendantes e arrendatários. Com isso, pretendem turbinar o que chamam de “A nova fronteira do agronegócio de Mato Grosso”. Pela presença maciça do público, formado majoritariamente por pecuaristas da região e agricultores de municípios consolidados na produção de grãos, além de dirigentes dos vários órgãos ligados à agropecuária do Estado, deputados e prefeitos, o entusiasmo do presidente Nilmar Miotto, que na palestra de abertura falou em “Revolução em Lacerda”, é plenamente justificável.

Ouça a entrevista com Nilmar Miotto:

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