Nelore: A genética amorteceu o tombo

Participação da raça no mercado diminuiu em 2017, mas demanda por touros freia recuo

Por Carolina Rodrigues

Os criadores de Nelore promoveram 412 leilões em 2017 e viram o desempenho da raça recuar 6% em relação a 2016, com a venda de 43.700 lotes de touros, matrizes, prenhezes e aspirações. A fatura foi 10,3% menor, de R$ 420,9 milhões, e a média geral ficou em R$ 9.633, retração de 4,7%.

A oferta foi a mais restrita desde 2009, mas não foram poucos os depoimentos dados à DBO em que se ouviu a frase “rebanhos consolidados não tiveram problema para vender”, em referência aos eventos de genética tope, alguns até com preços mais altos nos piores momentos de 2017. A média mais baixa reflete o que se chama no mercado de “consolidação” da raça no segmento de leilões de produção, que se espraiam por diferentes praças do País e abocanham uma fatia cada vez maior do mercado.

Já os eventos de genética mediana sofreram para manter as cotações, mas seguiram firmes, sustentados pelos novos compradores, ávidos por saltos rápidos para entrar com força no gigantesco mercado de tourinhos.

Dos 43.700 lotes comercializados entre aspados e mochos, os machos representaram 27.702 lotes (63%), vendidos por R$ 258,7 milhões. Foram 104 exemplares a mais que em 2016, quando 27.598 touros movimentaram R$ 263,5 milhões. O mesmo pode se dizer das cotações, que ficaram parelhas à última temporada: acima de R$ 9.300, valor bem próximo dos R$ 9.550 registrados em 2016.

Sem volta – O que explica a estabilidade do mercado de touros Nelore é a demanda crescente por animais avaliados. Os compradores já absorveram o conceito da genética como chave para saltos em produtividade, enquanto os vendedores têm se empenhado para tirar o melhor produto de seus programas de melhoramento, ofertando-os, invariavelmente, nos leilões. Eles são verdadeiros chamarizes para o trabalho de seleção que se desenvolve nas fazendas, permitindo que o produtor se estabeleça como fornecedor de genética primeiramente na sua região para depois alçar voos maiores pelo País.

Nesta onda, criatórios bem estabelecidos navegaram com calma pelas instabilidades de 2017. Na ExpoGenética, realizada em agosto, em Uberaba, MG, onde é vendida a cabeceira da safra de grandes produtores de touros, as médias gerais foram 3% maiores. “Registrar crescimento num ano em que quedas de 10% seriam totalmente compreensíveis é um grande avanço”, avalia Paulo Horto, da Programa Leilões, empresa responsável por 80% das promoções da mostra mineira. Grifes como o Boi Com Bula, promovido pelas Fazendas Mundo Novo, Beabisa, EAO, e Nelore Jandaia, e Touros de Uberaba, organizado pelo Rancho da Matinha, tiveram alta de até 25% na média de preços.

O mesmo vale para leilões regulares, eventos sem o apelo das grandes exposições. No Mato Grosso, grifes tradicionais registraram alta entre 4% e 19%, esta última alcançada no 9º Leilão Nelore Vera Cruz, realizado em julho pelos irmãos Jairo e Eduardo Machado, em Barra do Garças. “Todos os animais tinham avaliação genética consistente, o que ajudou a manter as cotações em patamares atrativos, impedindo que e baixa nos preços afetasse os negócios”, destaca Jairo Machado.

Os animais da Vera Cruz são avaliados por três programas de melhoramento genético (ANCP, ABCZ e Qualitas), modelo adotado pela família para democratizar a oferta e ampliar o número de investidores. O grande destaque do remate foi a venda de 33% do reprodutor Artilheiro FVC por R$ 231.000 para José Josias Neto. O animal de 22 meses é filho de REM Amador em matriz Lemgruber e é Top 0,1% no Nelore Brasil, além de Top 0,5% no PMGZ. O leilão também emplacou a segunda maior média de touros do Mato Grosso – R$ 13.746 para 200 lotes –, atrás apenas do leilão da Fazenda Magda (Pissinatti Empreendimentos, de Carlinda, MT), com 53 touros a R$ 14.174 cada.

 

Liderança mantida – Por mais um ano, Mato Grosso permaneceu como o maior vendedor de touros do País. Negociou 5.109 reprodutores em 33 leilões da raça Nelore, que movimentaram R$ 47,1 milhões, cerca de 20% do mercado anual.

O vizinho Mato Grosso do Sul sustentou a segunda posição no ranking e entrou para a conta com 4.041 touros (14%), vendidos por R$ 40,8 milhões. São Paulo, que conta com o peso de criatórios tradicionais no noroeste do Estado e leilões que vendem mais de 300 touros assinados por grifes como Katayama, CFM e CV, encorpou a lista com mais 47 pregões que arrecadaram R$ 29 milhões por 2.985 reprodutores.

Nos leilões virtuais, foram vendidos outros 7.297 lotes, porém, por valores mais baixos. Enquanto a média dos presenciais girou entre R$ 9.000 e R$ 10.000 nas grandes praças de comércio, na televisão os tourinhos saíram a R$ 7.305, valor 27% abaixo da média anual. Nas outras 16 praças que negociaram touros, a representatividade foi inferior a 10% do mercado.

E se os touros venderam a contento, as fêmeas deixaram novamente a desejar. A categoria sofre com uma estratificação muito grande de preços e diferentes níveis de oferta, o que dificulta enxergar os nichos de venda responsáveis pela alta ou recuo de cada ano. De maneira geral, elas pressionaram os resultados da raça em 2017. A oferta foi 12,5% menor, enquanto o faturamento, outros 29%. A renda ficou em R$ 136,9 milhões, ante R$ 177,5 milhões de 2016.

Olhando para trás, os números caracterizam situação de queda livre no mercado de fêmeas, que registrou vendas de 20.338 lotes em 2013, 19.037 em 2014, 18.564 em 2015, 17.278 em 2016 e 15.113 em 2017. O último pico registrado pelo Banco de Dados DBO ocorreu em 2011, quando 25.000 matrizes foram à venda em leilões da raça.

Para as leiloeiras, entretanto, esses são sinais de reacomodação. Na década passada, muitos investidores compraram fêmeas com o intuito de fazer plantel, mas não se sustentaram na atividade, pelas dificuldades que encontraram no momento de vender tourinhos. Carlos Guaritá, dono da Leiloboi, de Campo Grande, MS, define a causa: “O mercado de touros é altamente seletivo e ser vendedor dessa categoria exige persistência, consistência e tradição”.

Somando todas as praças, 2016 computou 22 liquidações de plantel, que despejaram no mercado 3.716 fêmeas, cenário que contribuiu para uma queda ainda maior no comparativo com 2017. Ao se expurgarem da conta esses eventos, o recuo de oferta cai para 4% e no faturamento 11%, diminuindo a discrepância entre as duas temporadas.

De qualquer forma, a faixa de leilões de fêmeas com genética selecionada a preços mais acessíveis vem se alargando. Ela representou quase a totalidade dos 220 pregões promovidos em 2017, com predomínio quase absoluto de matrizes comerciais.

Fonte: Anuário DBO

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