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Pantanal: “O estrago é grande, mas vai cicatrizar”, diz Arnildo Pott, pesquisador aposentado da Embrapa

Além das queimadas, que consumiram mais de 1,5 milhão de hectares neste ano, a saída do boi desse bioma preocupa produtores e lideranças da região

Por Ariosto Mesquita, de Campo Grande (MS)

Desnecessário dizer que os incêndios no Pantanal desenharam uma página triste em 2020. Importante agora é contabilizar os impactos ambientais e econômicos do episódio e projetar a recomposição da região. Nos dois Estados que abrigam o bioma, este cálculo era incipiente até o fim de setembro, limitado a uma estimativa de aproximadamente 3 milhões de hectares atingidos pelo fogo (de um total de 15 milhões/ha). Tanto a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) quanto a Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat) informaram à DBO não terem, até então, dimensão dos prejuízos com a morte de animais, destruição de currais, cercas, pontes, residências, pastagens e demais estruturas.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contabilizou 16.238 focos de incêndio no bioma entre 1º de janeiro e 24 de setembro, número 175% superior ao registrado no mesmo período de 2019. Enquanto isso, a opinião pública se divide sobre os eventuais autores da tragédia e como toda esta intensidade de fogo poderia ter sido evitada. A Polícia Federal investiga e suspeita de ações criminosas dentro de propriedades rurais. Outro debate indaga de que forma (e quando) o bioma estará recuperado, mantendo em alta sua principal atividade econômica: a bovinocultura de corte, que reúne um rebanho de aproximadamente 4 milhões de cabeças, segundo o último levantamento da Embrapa, datado de 2016.

DBO resolveu ouvir as opiniões e análises de um especialista que dedicou mais da metade de sua vida a estudar questões relacionadas ao Pantanal. Entre 1980 e 2008, o professor Arnildo Pott trabalhou como pesquisador da Embrapa: duas décadas na unidade Pantanal (Corumbá, MS) e mais oito anos na Embrapa Gado de Corte (Campo Grande, MS). Nos últimos 12 anos, vem trabalhando como docente visitante concursado nos programas de pós-graduação em biotecnologia; biotecnologia e biodiversidade; e em biologia vegetal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Com um currículo invejável – que inclui um doutorado em ciência da pastagem (ecologia vegetal) na University of Queensland (Austrália) e um pós-doutorado no Royal Botanic Garden Edinburgh (Escócia) – e no auge da experiência dos seus 74 anos, o cientista concedeu esta entrevista exclusiva à DBO, abordando, de forma mais pragmática, algumas questões que, invariavelmente, ganham contornos emocionais nas redes sociais. Veja, a seguir, os principais pontos da entrevista, concedida, por telefone, ao colaborador de DBO, em Campo Grande, Ariosto Mesquita.

DBO – No desenrolar dos incêndios no Pantanal, o senhor disse que encontrou muito “palpiteiro” e “salvador”. O que pretendeu dizer com isso?

Arnildo Pott

Arnildo Pott – A palavra queimada vem do ato de queimar. Subentende-se que alguém ateou fogo. No Brasil, quando o assunto é Pantanal ou Amazônia, usa-se “queimada”. Quando se mostra o fogo na Califórnia, nos EUA, a denominação passa a ser “incêndio”. Entendo que seja uma postura mais conceitual do que semântica. É sutil, mas tendencioso. Vi na televisão uma autoridade afirmando que não era possível o fogo ter origem em raio, sob a argumentação de que sem chuva não existe raio e concluindo, com isso, que era de origem humana e criminosa.

DBO – Em seus anos pelo Pantanal o senhor já viu descargas de raio seco?

Arnildo Pott – Pelo menos em três vezes, com consequências. Por volta de 1985, em um dia ensolarado, uma nuvem, que não provocou a precipitação de uma gota sequer, passou sobre a Fazenda Nhumirim, da Embrapa. O cozinheiro estava na entrada, nos esperando para preparar nosso bife e acabou morrendo fulminado. Caiu um raiozinho na antena e o atingiu a ponto de derreter a pulseira metálica do relógio. E para acontecer tal fato é necessário temperatura na casa dos 500 graus centígrados. Imagine isso em uma vegetação seca?

DBO – Fica a impressão de que as pessoas têm dificuldade em aceitar o fato de que o fogo, no campo, pode ter várias origens….

Arnildo Pott – Sim. Muitos caminhões, quando mudam de marcha nas subidas, soltam faíscas próximo ao cano de descarga. Alguns tratores também. E ainda existe a autoignição, relatada em muita literatura científica. Um silo, por exemplo, pode se incendiar em função da fermentação. Numa ocasião, Ubirajara Fontoura, que foi chefe-geral da Embrapa Agropecuária Oeste, de Dourados, MS, mostrou, durante uma apresentação, como as pilhas de compostos para adubo orgânico deveriam ser movimentadas, diariamente, para se evitar incêndios.

DBO – Como funciona a autoignição? Como o fogo surge?

Arnildo Pott – Não queria colocar fogo nesta história! (risos). O fato é que não temos pesquisa que comprove essa ocorrência no Pantanal. Mas em outras áreas ao redor do mundo isso já foi observado e até mensurado. A combustão é uma reação química da oxidação. Em processos de secagem, o material recebe cada vez mais ar que carrega oxigênio que, por sua vez, é elemento necessário para a oxidação. Nessa situação, uma oxidação rápida com vento seco pode gerar fogo.

DBO – O desconhecimento de geografia também ajuda na desinformação, não? Vejo muita gente misturando biomas, sem uma mínima noção sobre características de cobertura vegetal e da atividade econômica de uma região.

Arnildo Pott – Certamente que sim. Chegam a afirmar que existe desmatamento no Pantanal. Tirando empresas que estão vindo de fora para comprar terras dentro do bioma, isso não é procedimento do pantaneiro. Sabe qual foi a última vez que se derrubou mata de cordilheira [vegetação arbórea em área não inundável] para fazer pastagem? Nos anos 1980, pois havia até financiamento para isso. Hoje é melhor deixar a cordilheira lá quietinha. Dá muito trabalho para manejar. Assim, quando vem uma frente fria, o gado se abriga no mato. Atualmente só se passa grade onde tem capim carona [que carrega compostos que inibem o consumo pelos bovinos] e fura-bucho [capim que usa como defesa suas folhas roliças, pontiagudas e fibrosas].

DBO – O senhor acredita que a discussão está se concentrando em posicionamentos ideológicos?

Arnildo Pott – Quando as informações gerais sobre a pandemia da Covid-19 começaram a cansar a audiência, a comoção passou a vir dos relatos de familiares que perderam entes queridos para a doença. Da mesma forma, imagens de animais queimados pelo fogo geram uma comoção internacional. É claro, a gente fica com dó dos animais. Mas é preciso entender que a fauna está acostumada a se deslocar para áreas de refúgio. Mas onde há excesso de material orgânico acumulado, o animal não vê o fogo por cima, mas pode estar por baixo. Um exemplo é aquela foto que a DBO mostrou em sua reportagem sobre o fogo no Pantanal, na edição de setembro (Veja AQUI). Aquele material em brasa, segurado provavelmente pela mão de um brigadista, carrega parte de histossolo, um solo orgânico ainda não decomposto por falta de oxigênio. O histossolo só se forma em lagoas, naquelas ilhas flutuantes chamadas de baceiros. Quando isso se acomoda nas margens e vem a seca, começa a se oxidar naturalmente e se torna um combustível e tanto.

DBO – Isso reforça a tese de que o boi é o “bombeiro do Pantanal”?

Arnildo Pott – Esta expressão surgiu a partir de uma experiência que nós, então na Embrapa, fizemos na Fazenda Nhumirim, nos idos dos anos 1980. Fechamos 600 hectares para verificar como seria o Pantanal sem o gado, animal que está no bioma desde a época colonial. Um peão experiente logo comentou: “Doutor, isso aqui vai dar um fogaréu!”. Havia um aceiro largo. A érea estava bem protegida. No primeiro ano o capim atingiu um metro de altura. No terceiro ano o fogo apareceu, não se sabe de onde. Caso houvesse pastejo certamente seria um fogo normal de capim, mas ganhou proporções florestais. Uma coisa maluca! O fogo se dá onde existe combustível e o ruminante é um especialista em digerir grande parte deste material.

DBO – E, depois do fogo, o que aconteceu com essa área?

Arnildo Pott – O desavisado logo imagina e crava que “morreu tudo”. Assim que as chuvas tiveram início voltei lá e vi rebrota por todos os lados. Sou um curioso em termos de persistência de plantas. Além disso, o Pantanal tem um banco de sementes que eu chamo de “flex”, ou seja, tem plantas para secas e plantas para cheias. A dúvida é saber até que ponto este banco de sementes foi afetado.

DBO – A pergunta que se faz é: e agora, o que acontece?

Arnildo Pott – A coisa foi séria, bastante séria! O estrago é grande, mas vai cicatrizar. Poderia ter sido evitado? Talvez. Mas veja só: temos um aceiro enorme que é o Rio Paraguai e isso não resolveu. Com relação ao uso de aviões e helicópteros captando água para tentar apagar as chamas considerei mais show do que qualquer outra coisa. Supondo que uma aeronave carregue 20.000 litros e despeje isso em um hectare, serão dois litros por m2, equivalente a uma chuva de 2 mm. Isso não apaga fogo de chão. Além disso, muito dessa água se evapora antes de chegar ao solo.

DBO – Mas, então, o que deveria ter sido feito?

Arnildo Pott – As pessoas que atuaram no combate aos incêndios no Pantanal são verdadeiros heróis. No entanto, não houve eficiência. Vi muita gente com borrifadores costais esguichando água sobre toco queimado enquanto o fogo estava lá na frente. O correto é estabelecer aceiros e usar o contrafogo, que é o fogo controlado que se provoca à frente de um grande incêndio para conter sua propagação. Quando eu residia em Corumbá, estava em uma área de fronteira com a Bolívia quando vi um grupo jogando água onde o fogo já havia passado. Sugeri ao comandante que fizesse o contrafogo. Ele me perguntou: “O que é isso?”

DBO – Quando ocorrerá a retomada do vigor vegetativo do Pantanal?

Arnildo Pott – A partir de outubro, com a chegada da estação chuvosa, certamente haverá recomposição vegetal, caso o banco de sementes não tenha sido queimado. Em áreas geralmente mais secas as gramíneas mantêm gemas escondidas abaixo da superfície do solo. Nestes locais o rebrote tende a ser mais rápido. Nas gramíneas de brejo, muitas gemas não são enterradas e isso pode atrasar ou prejudicar a recomposição. O rebrote, na verdade, sempre vai depender de quanto foi a intensidade do fogo. Então, é certeza que irá se reverdejar nos próximos meses. No entanto, vai levar alguns anos para que algumas árvores se restabeleçam.

Entrevista publicada na edição de outubro da Revista DBO. Leia a edição completa AQUI.

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