Ortolani fala sobre “maninhas”, as fêmeas com ventres estéreis

Articulista fala sobre esse problema de fertilidade, que chega a causar o descarte de até 6% das matrizes em alguns países.

*Artigo de Enrico Ortolani, professor titular da Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP, publicado na edição de março da Revista DBO.

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A Bíblia é farta em descrever atitudes, fatos do cotidiano e até condições biológicas dos seres humanos, narrados sob a ótica da presença e interferência de Deus. São aí citadas 10 situações de mulheres infecundas, descritas pelo profeta Oséias como “ventres estéreis e seios secos”, que, por ação divina, reverteram a situação e deram origem a um descendente. Que nos contem Sara, Rebeca, Raquel, Ana, Isabel, entre outras felizardas, famosas personagens bíblicas. Um levantamento feito com casais identifica que 15 mulheres em cada 100 não conseguem engravidar. A causa da não gravidez é dividida igualmente entre a mulher e o homem (40% cada), sendo 20% ainda de origem desconhecida.

Em bovinos, o ventre estéril também ocorre e problemas são mais frequentes nas fêmeas do que nos machos. Do Alasca à Nova Zelândia, estudos mostram que entre 3% e 6 % de matrizes são descartadas, anualmente, devido a falhas reprodutivas, como a esterilidade das “maninhas”, nome popular dado às novilhas que não emprenham. Por melhor que seja sua seleção de novilhas para reposição, uma ou outra falhará no objetivo de procriar. Pouco se fala sobre elas e o que causa a esterilidade ou subfertilidade. Sem dúvida, os casos mais conhecidos são os das fêmeas gêmeas nascidas obrigatoriamente com machos. Esse fenômeno de esterilidade é conhecido como “freemartinismo” e já foi descrita por Marcus Terencius Varro, 47 anos antes de Cristo.

Interferência hormonal

Nestas gestações gemelares, a circulação de sangue nos fetos, via placenta, é compartilhada em cerca de 90% dos casos. Como o feto macho desenvolve seu sistema reprodutivo mais precocemente, há passagem de hormônios e células masculinas para a fêmea no início da gestação, o que atrapalha o desenvolvimento futuro de seu sistema reprodutivo. Já no animal adulto, a vulva fica pequenina e inclinada, com tufos de pelos na extremidade. Na abertura dos lábios vulvares, se observa a presença de um clitóris grande, quando normalmente ele é bem pequeno. A vagina nas maninhas é curta (8 a 10 cm, ante 30 cm de uma vaca normal). O útero e os ovários são pouco desenvolvidos e a cérvix (órgão que une a vagina ao útero) geralmente é ausente.

O freemartinismo é bem mais frequente no gado leiteiro do que no de corte, sendo raro em zebuínos. Mesmo assim, tem sido descrito com alguma regularidade na raça Aberdeen Angus. Aumentam as chances de ocorrência do problema no caso de transferência de vários embriões, sem ter sido feita previamente a sexagem, ou quando existem múltiplas ovulações em fêmeas submetidas a certos tratamentos hormonais. Para complicar o meio de campo, alguns estudos mostram que, ao longo da gestação, pode ocorrer a morte do embrião macho, com posterior aborto ou reabsorção fetal. Isso após seus hormônios já terem bagunçado a sexualidade da fêmea. Complicado né! Embora os machos gêmeos nascidos não fiquem estéreis como as fêmeas, sua produção de espermatozóides é reduzida e sua libido pode ser comprometida, o que impede o animal de se tornar um bom reprodutor.

Problemas anatômicos e cistos

Também fazem parte do elenco de causas do “ventre estéril” os problemas anatômicos. Dois grandes estudos brasileiros com fêmeas zebuínas não prenhes enviadas ao matadouro, indicam que 17 % se encaixam nessa categoria. O achado mais comum é a atrofia e a hipoplasia (falta ou desenvolvimento incompleto) dos ovários, seguido das trompas uterinas que ligam os ovários ao útero, do útero e, em menor grau, da cérvix. Foi encontrado também, em poucos casos, um tipo de tampão que fechava a cérvix, impedindo que os espermatozóides penetrassem no útero. Os problemas ovarianos impedem a fêmea de ovular e, nos demais segmentos anatômicos, que o sêmen encontre o óvulo ou que o feto se desenvolva no útero. Seria o equivalente a uma longa estrada, em uma região acidentada, na qual inexistissem postos de combustível, pontes ou túneis.

Outra importante causa do surgimento de maninhas são os cistos. A fêmea madura tem ciclo ovariano de 21 dias, dividido em duas fases: folicular e luteínica. Na primeira delas, por ação hormonal, se desenvolvem um ou mais óvulos, que maturam para uma futura fecundação. Essa maturação se dá dentro de um folículo, um tipo de bolha d’água, que origina o cio e estoura, gerando a ovulação. Por algumas falhas hormonais, esses folículos não se rompem e a fêmea desenvolve o cisto folicular, mantendo o animal em contínuo cio. Assustador!

Na segunda fase do ciclo ovariano, para manter a gestação ou caso a fêmea não fique prenhe, se desenvolve temporariamente, no ovário, um tecido em forma de esponja que produz um hormônio capaz de manter o animal em “anestro”, ou seja, sem novo cio e ovulação. Por uma outra falha hormonal, essa esponja se torna permanente, formando o chamado cisto do corpo lúteo, que mantém o animal em contínuas férias sexuais. Tenebroso!

No próximo artigo, mostrarei como suspeitar da presença das maninhas no rebanho, por meio de mudanças comportamentais e características exteriores. Não perca, leia e, em seguida, discuta com seu veterinário favorito.

 

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