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Pasto no capricho é mais exigente que soja

Entender as demandas do capim é a chave para aumentar a lotação e produção de leite por hectare
Sila Carneiro, professor do departamento de zootecnia da Esalq/USP. Foto: Larissa Saraiva

Por Sérgio de Oliveira

Engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em 1986, o professor Sila Carneiro fez mestrado no Departamento de Zootecnia da Esalq em 1991 e em seguida prestou concurso e foi admitido como docente da instituição.

Fez doutorado na Massey University, na Nova Zelândia. Foi lá que surgiu o interesse e o treinamento na área de pesquisa que ele desenvolve hoje, com plantas forrageiras e pastagens. O professor Sila
recebeu a equipe da Mundo do Leite logo após uma aula no departamento.

Mundo do Leite – O que o senhor costuma dizer aos alunos?
Sila Carneiro – Basicamente, as pessoas estão muito preocupadas com disciplinas mais profissionalizantes, disciplinas finais, como forragicultura, no que diz respeito a manejo da pastagem, manejo do pastejo, adubação, conservação, suplementação. São assuntos extremamente importantes, mas são acessórios. Planta e animal não respondem à quantidade de adubo pela quantidade de adubo. Não respondem ao tipo de suplemento pelo tipo de suplemento. Fertilizante, irrigação, são formas de você propiciar, à planta no campo, ser mantida numa determinada condição, determinada altura, determinada estrutura, porque é essa altura, é essa estrutura que determina quanto a planta cresce, de que jeito ela cresce, que tipo de componente ela acumula… Essas características determinam quanto o animal come, como ele consome, qual é a ingestão de nutrientes que ele tem, que é o que acaba determinando o quanto de desempenho ele vai obter. Adubação, irrigação, suplementação, conservação, são todos meios ou ferramentas de que o técnico dispõe para poder implementar, manter ou ajustar a forma como o pasto fica na área. É uma combinação de fatores de produção que deveria ter como lógica gerar uma condição de pasto ótima para atender o objetivo que o produtor tem de produção.

ML – E isso tem sido compreendido e aplicado…
SC – Já faz alguns anos que esse tipo de estudo vem sendo feito. Eu voltei ao Brasil em 1994, e naquela época existia o paradigma do sistema intensivo de produção, aquele em que o método de pastejo é o rotativo, o pasto é adubado com nitrogênio, é irrigado, a rotação é feita respeitando uma sequência de piquetes, na ordem cronológica, em um número de dias pré-determinado em função do cultivar e da espécie – 28, 30, 35 dias. Na realidade, isso funciona muito bem quando o pasto da pessoa cresce devagar. Tanto faz colher a planta no ponto certo ditado pela planta ou colher no calendário, 30 dias, 35 dias. Pra quem não fazia o controle isso é um avanço quântico em termos de gestão da fazenda, de mudança de paradigma de gestão, ou seja, como controlar para poder produzir. Mas à medida que o ambiente melhora, com os animais fazendo a desfolha de maneira mais uniforme, concentrando a excreta e a urina num determinado lugar, o produtor se predispondo a jogar fertilizante no pasto, isso, em questão de um ano, dois anos, melhora muito a condição de crescimento das plantas no pasto. E aí, na mesma área, elas passam a crescer numa velocidade muito maior. E elas crescendo mais rápido, o produtor começa a sentir sintomas que antes ele não tinha, quais sejam, a dificuldade de rebaixar o pasto, a necessidade de fazer repasse o tempo inteiro, o pasto fica muito alto e acumula colmo, talo, e ele se vê na necessidade de roçar o pasto. O indivíduo compra uma roçadeira e acha que aquela é a solução perfeita pra fazenda, ele tá feliz roçando pasto todo ano. Na realidade, quando isso acontece, é sinal que ele realizou o benefício do primeiro investimento, que é organizar a colheita.

E ele está pronto para entender, agora, por meio da sinalização do sistema, que aquilo que ele assumia como controle, que era fazer a rotação, no sentido certo, respeitando a cronologia no tempo fixo, é agora um problema sério, porque a planta não reconhece cronologia, ela não cresce em função de dias, ela cresce em função de condição de crescimento: água, luz, temperatura.

ML – E o que o produtor tem que fazer?
SC – Como ele agora tem um solo melhor, fertilidade melhor, a planta cresce mais rápido. E o que há dois anos era uma coisa boa, agora, com uma velocidade maior de crescimento e com o mesmo tempo de rotação dos piquetes, ela vai além do ponto, ela vai ficar mais alta, e quanto mais alta a planta, a partir de um determinado momento ela começa a fazer sombra nela própria, e toda planta sombreada responde fazendo colmo, talo, que é o alongamento dos entrenós como forma de empurrar a folha nova por cima das outras. É questão de sobrevivência!

E aí, quando ela projeta folha nova por cima das outras, ela começa a fazer colmo e começa a dificuldade de baixar o pasto, de repassar o pasto. Prejudica os animais que fazem o repasse porque os força a  comer um material que não é tão bom. Prejudica a planta porque remove muita área foliar e isso faz a planta rebrotar muito lentamente, favorecendo a entrada de invasoras. Enfim, ocorre um processo de degradação da área. Então, esse produtor, quando chega nesse ponto, vem e pergunta pro técnico: “Olha, até agora eu fiz tudo que você falou pra mim. Eu dividi meus piquetes, estou fazendo a minha ocupação mais curta possível” – no caso do gado de leite, o ideal é que seja de um dia ou menos de um dia -, “o que eu tô fazendo de errado?” Se o técnico não está preparado para entender o processo evolutivo do indivíduo ele vai achar que na prática a teoria é outra. E não é.

Se o produtor está num nível de melhora e de ganho que ele próprio implementou, o que ele precisa entender agora é que aquela que era a solução dele quando ele entrou no sistema passou a ser o problema, porque o pasto dele agora cresce tão bem que os dias fixos de rotação que ele faz, relativamente, é um prazo muito longo, porque o pasto é muito bom. Se você parar para pensar que a planta tem um ponto de colheita certo, quando você colhe a planta e deixa ela pra iniciar o crescimento ela tem que iniciar a rebrota e terminar a rebrota nesse ponto. Quanto mais rápido ela cresce, menos tempo ela levará pra chegar nesse ponto, então obviamente o tempo de descanso do pasto tem que ser encurtado. Quando o indivíduo não encurta o tempo e mantém a velocidade alta de crescimento, o capim sempre vai passar do ponto, e quanto melhor o pasto, pior o problema, porque mais passa, e essa é a ironia do sistema.

O indivíduo que não entende, ele investe e passa a ser refém da solução, que na realidade não é a solução, porque o senso de controle não vem do calendário, mas vem da organização da colheita. E, na organização da colheita, quando se faz rotativo, o pressuposto básico é: “Você tira o animal do pasto para ele crescer na ausência dos animais”, e isso quer dizer que você tem a obrigação de saber a hora de trazer os animais de volta, e quem diz que está na hora de trazer de volta não é o calendário, é a própria planta! Existem indicadores de campo que dizem pra você: “Tá na hora de pôr”.

O que eu costumo dizer pro produtor é: “Seu pasto fala com você. Você escuta?” A gente precisa aprender a linguagem do pasto. E você me perguntou: isso está sendo usado? Bastante. O Sebrae de Minas Gerais tem um programa que se chama Educampo Leite. Eu fiz muita palestra em Minas Gerais. E de 94 pra cá, se você começar a falar em pastejo rotacionado em simpósios e reuniões de produtores, as pessoas já têm dificuldade de falar de rotacionado com o uso de período fixo de descanso. Já existe consciência da importância de você variar o descanso. Ele pode ser mais curto quanto melhor for o crescimento da planta, ou mais longo em função de um crescimento mais lento. Tem produtores que se beneficiam muito disso daí. Isso vale pra leite e pra corte.

Foto: Arquivo Mundo do Leite

ML – E isso é no olho…
SC – No olho, transformando a ciência em prática. Se você pegar um pasto mal manejado e trabalhar ele no ponto certo de colheita, você pode esperar um incremento de produção de leite por vaca por dia da ordem de 20% a 30%. Isso vem não de adubação, não de suplementação, vem simplesmente de pôr a vaca no pasto na hora certa. Se você pensar em taxa de lotação, o seu ganho é da ordem de 40% a 50% a mais de animais por hectare. “Mas como pode colocar um animal num pasto mais baixo, teoricamente com menor produção, como é que vai caber mais animais?”Vai, porque você vai desperdiçar menos.

A redução das perdas é da ordem de 75%. Você não precisa roçar. A necessidade de repasse praticamente desaparece. Então, quando você associa o ganho de lotação e o ganho de produção por animal nós estamos falando de um incremento de produtividade – quilos de leite por hectare por dia – da ordem de 40% a 50%. Isso é ganho que tá na mão do produtor! Não é negar o benefício da adubação.  Ela é necessária, irrigação também. Todos os insumos são muito bons, desde que sejam usados no contexto em que você colhe a forragem do pasto em primeiro lugar. Para eu dobrar a produtividade de uma fazenda hoje, na maior parte das vezes não preciso lançar mão de R$ 1 em insumo adicional. Basta colher bem a forragem. Em colhendo bem, aí sim, use e abuse do fertilizante nitrogenado, de irrigação, de genética, de suplementação, porque para cada real investido nisso, por você assegurar a colheita bem-feita, o retorno é sempre muito alto.

ML – Por que a maioria dos produtores não faz o sistema rotacionado e muito menos tem esse olhar clínico, digamos, em relação a esse conhecimento?
SC – Na agricultura, a diferença entre a quantidade de conhecimento disponível em relação ao que é realizado no campo hoje, é muito pequena. O agricultor brasileiro é muito eficiente, ele entende o benefício do uso do conhecimento e da técnica. Não é à toa que o Brasil é líder mundial nisso. Em contrapartida, o pecuarista nacional é extremamente tradicionalista. Existe conhecimento, nós estamos conversando sobre ele, mas a realidade na média geral do país fica longe disso. E a distância é a dificuldade que o indivíduo tem de usar essa informação, a resistência que existe.

Por tradição, pelo conceito de que pasto é aquela coisa barata que cresce verde e que está sempre lá, que não pode ser adubado porque fica caro… Serviços que favorecem a chegada dessa informação de uma maneira mais fácil para o produtor, como o exemplo do Educampo, são importantes. Goiás tem programas dessa natureza, Mato Grosso também. Algumas empresas particulares que trabalham com insumos passaram a levar a informação, para a fidelização de cliente. Mas na média o problema é grande porque, primeiro, o indivíduo tem uma consciência muito errada do que é produzir animal a pasto. Pasto, se for comparar com qualquer outra cultura agrícola, é muito mais exigente. Em termos de manejo e em termos de fertilidade. Uma cultura agrícola é planejada para gerar um grão, um cereal ou um fruto, e esse grão ou cereal ou fruto requer enchimento, que vem do que a planta produz enquanto ela cresce. Para isso ela tem que ter bastante folha pra fazer fotossíntese e exportar isso pro fruto.

Qualquer praga que prejudique a área foliar da planta, que comprometa a fotossíntese e a produção para encher o grão, precisa ser eliminada. E a agricultura faz isso. Ela mata a praga para favorecer a cultura. O pasto é uma planta que, primeiro, não é de um ciclo só. Ela é perene. Então ela tem que ser colhida, recolhida, recolhida, recolhida, indefinidamente, porque é perene. Já começa aí o processo.

Segundo, é uma cultura que é colhida pela própria praga. A principal praga do pasto é o boi, ou é a vaca. Quem é que vai sair matando boi e vaca para manter a perenização da pastagem? A praga tem que ser muito beneficiada para produzir muito leite e carne sem matar a cultura. É como chegar prum produtor de algodão e dizer que ele tem que produzir muita pluma de algodão e caminhões e caminhões de bicudo!

Se você levar pro lado da formação, qualquer cereal tem uma semente que é enorme relativamente ao tamanho da semente de uma planta forrageira. E tamanho de semente, basicamente, é a quantidade de reserva que a semente tem. Uma planta de milho, de feijão, de arroz que germina tem uma quantidade de reserva, enquanto ela não faz folha e não é auto-suficiente, muito maior do que uma planta que vem de uma semente de forrageira. Qualquer déficit hídrico, qualquer limitação de nutrientes que atrase o crescimento dessa planta é muito mais severo. Então, os cuidados de instalação e manutenção da forrageira são muito maiores.

Uma planta que é predada constantemente, que tem que se renovar o tempo inteiro como é o pasto… Nutriente não cai do céu. Ele é retirado do solo. O cara da agricultura entende isso e fertiliza, corrige o solo, faz adubação de manutenção, e o pecuarista acha que o pasto não pode ser adubado porque se adubar fica caro! Que o pasto tem que produzir a vida inteira e o animal tem que comer e ficar gordo, produzir muito leite! O cara que faz isso, infelizmente, não encara a atividade dele como profissional.

O indivíduo que tem um olho aberto passa a valorizar a planta, entende que a base de alimentação dos animais para o sistema dele é o pasto, e portanto precisa cuidar bem do pasto. Tanto que o melhor pecuarista hoje não é o pecuarista tradicional. É o agricultor que entendeu a necessidade da rotação de culturas e trouxe, além de outras culturas de rotação, o pasto como forma de auxiliar a qualidade do solo. E esse indivíduo leva pra pecuária a cultura de manejo, a cultura de agricultura que ele tem. Quer saber qual é a demanda do animal, qual é o requerimento da planta, e ele fornece.

Foto: Luiz Prado / Agência LUZ

ML – O senhor acredita que o caminho entre a universidade e o produtor está devidamente pavimentado ou ainda tem buracos no percurso?
SC – Na minha opinião o Brasil tem uma deficiência muito grande no processo de transferência da informação de onde ela é gerada, que são as universidades, centros e institutos de pesquisa, para o usuário no campo. Existia uma rede de extensão rural que foi desaparecendo com o tempo. As Emateres, Catis e tudo mais. Prestavam um serviço muito bom, chave no processo, que é levar a informação, coisa que em país desenvolvido existe de uma maneira muito forte.

A Nova Zelândia tem um sistema muito forte de extensão. Trabalha com produtores que se reúnem, fazem grupos de discussão, e tudo mais. Os Estados Unidos, de maneira diferente, também têm. Nós não temos nem um tipo e nem o outro no Brasil. Então fica um buraco. Quem é que faz essa transferência? Quem gera o conhecimento, porque sente a necessidade de que a informação seja usada, sabe a importância disso. Cabe então ao pesquisador treinar alunos e treinar pessoas, cabe a ele arrumar tempo para isso. E isso limita muito porque a gente não é valorizado na universidade pela informação que leva, mas sim pelo que gera, e por conta disso não é muita gente que se preocupa em fazer extensão. Apesar disso, em qualquer discurso de reitor de universidade a universidade é descrita como uma tríade de pesquisa, ensino e extensão. Mas se você for ver como é que opera, a valorização do docente é por pesquisa, depois ensino, e por último, extensão. Então, existe sim uma eficiência de serviço de extensão.

ML – Isso seria papel do Estado?
SC – Isso é papel estratégico do país. Se tem ciência, tem conhecimento de qualidade – e o país é reconhecido pela ciência que faz –, como é que se explica esse conhecimento não chegar na base? É porque existe um hiato aí, carente. O investimento precisa ser feito, e quem tem que fazer é o órgão central, é quem toma conta das políticas agrícolas do país. Isso alavanca a produção do país, porque quem sustenta o produto interno bruto do país há bastante tempo é a agropecuária.

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