Produtores de leite e a vulnerabilidade dos sistemas de produção

A diversidade de atores e as mudanças de cenários encontrados na produção de leite no país fazem com que o processo seja seletivo, podendo culminar com a permanência ou saída dos produtores da atividade
Por Rosa Maira Tonet – doutoranda em zootecnia (Programa de Pós-graduação em Zootecnia/UEM)

Os sistemas de produções agrícolas são regularmente expostos a imprevisíveis conturbações. Estes distúrbios acontecem nas dimensões ambientais, institucionais, técnicas e socioeconômicas, fazendo com que os agricultores sejam chamados frequentemente a reconfigurarem seus sistemas, buscando adequação aos novos cenários propostos.

O setor lácteo não é uma exceção, e responde às novas conjunturas se reformulando e influenciando diretamente o comportamento dos sistemas produtivos leiteiros (SPL). No ambiente institucional da cadeia produtiva do leite, as principais mudanças foram: a desregulamentação de preços, abertura comercial, diversificação de produtos lácteos e exigências sanitárias mais rigorosas. E em relação aos aspectos técnicos e sanitários as alterações estão colocadas nas Instruções Normativas 76 e 77, em vigência a partir de 2019. 

O Brasil nos últimos anos tem se posicionado entre os cinco maiores produtores mundiais de leite (FAO, 2019), com cerca de 7% do volume total de leite produzido mundialmente (IBGE, 2018). Nesta esfera encontram-se produtores de leite com diversos perfis, alguns altamente tecnificados, com elevados volumes de produção e qualidade, e outros menos especializados, culminado principalmente com produções em menor escala.

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A diversidade de atores e as mudanças de cenários encontrados na produção de leite no país fazem com que o processo seja seletivo, podendo culminar com a permanência ou saída dos produtores da atividade, entendendo que os mais vulneráveis estão propensos a abandonarem, e os mais resilientes ou adaptados a ficarem. Apesar da especialização observada na atividade contribuir para o aumento da produção, ela colabora, também, para que os produtores de leite que não são especializados, e que são a grande maioria no Brasil, deixem a atividade, à medida que estes não teriam condições de acompanhar esse processo de especialização.

O abandono da atividade leiteira no país pode ser observado pelo levantamento nos últimos censos agropecuários, que mostram redução no número de produtores de leite no país, contrastando com o aumento no volume de produção, ou seja, estamos produzindo mais leite com menos produtores, mostrando claramente uma seletividade do setor. 

Diante dos riscos encontrados na atividade leiteira, o conceito de vulnerabilidade pode ser utilizado como uma ferramenta para avaliação e diagnóstico dos SPL, buscando a partir da aplicação da vulnerabilidade, o desenvolvimento de ferramentas que auxiliem os produtores de leite, e demais atores envolvidos, a construírem sistemas mais robustos e com maior capacidade de regeneração diante de cenários ou situações pontuais de mercado, não favoráveis ou de maior risco, que podem ameaçar ou perturbar a permanência na atividade leiteira.    

O nível de vulnerabilidade pode ser mensurado pela capacidade de responder a desafios, através da aprendizagem, e de como desenvolver novos conhecimentos e elaborar abordagens eficazes diante de um agente estressor, minimizando o impacto final do mesmo. E sob este aspecto podemos considerar que os SPL estão em contínua evolução, o que produz impactos em diferentes escalas de acordo com os fatores estressores encontrados (econômicos, sociais, ambientais ou estruturais) e se torna um desafio a compreensão e a aprendizagem por parte do produtor de leite, de como se adaptar a estes fatores

A investigação das práticas ou estratégias adotadas por produtores de leite em uma região onde a produção leiteira possui considerável importância no país, como a Mesorregião Centro Oriental Paranaense (onde estão os municípios de Castro e Carambeí, que produzem quatro vezes mais do que a média brasileira, que é de 2 mil litros ao ano por animal – os dois municípios paranaenses produzem acima de 8 mil litros por vaca ao ano) pode permitir o conhecimento de grupos de produtores com características distintas, e assim traçar rotas mais seguras, as quais interfiram em seu comportamento e nas adaptações necessárias para continuar na atividade, seja representada pelas exigências em qualidade do leite, ausência de economia de escala ou pelas margens de lucratividade cada vez menores, que exigem maior habilidade gerencial e utilização mais racional das técnicas de produção. Sendo assim, determinados cenários encontrados nos produtores desta região podem facilitar o reconhecimento de graus diferenciados de vulnerabilidade.

A alimentação do rebanho merece destaque, e se deparar com ocasiões em que há pouca forragem estocada e elevação dos preços da matéria prima utilizada na confecção de ração pode propiciar desajustes na produção, tornando o sistema mais vulnerável. Estoques de forragem insuficientes culminam com a necessidade de adquirir o insumo em época de entressafra, ficando os produtores mais vulneráveis às políticas de preço. Portanto, é imprescindível um bom planejamento, aliado à diversificação de matéria prima para o manejo alimentar dos rebanhos. E assim o SPL ficará menos vulnerável em relação ao volume de produção e qualidade do leite produzido, principalmente na região onde os produtores quase não mantêm seus rebanhos em pastagens, e sim em regimes confinados.

Pesquisas na região mostram que para produção de silagem, feno e pré-secado os produtores utilizam a colheita terceirizada. Também ocorre terceirização de todos os estágios da produção de forragem, envolvendo as etapas referentes ao plantio (milho e pastagens de inverno), tratos culturais, cortes e ensilagem, tornando a dependência pelo aluguel de máquinas mais acentuada.

O ponto positivo é ausência de investimentos em equipamentos ou manutenção dos mesmos, fazendo com que os produtores façam investimentos na estrutura para produção e no rebanho. Sendo assim, um cronograma adequado, aliado ao volume corretamente estocado, é fundamental, pois sistemas de produção mais eficazes possuem forragens de melhor qualidade, que impactam positivamente em maior volume e qualidade do leite, reduzindo assim a sua vulnerabilidade em relação aos aspectos relacionados ao manejo alimentar dos rebanhos.

Outro fator que pode diminuir a vulnerabilidade e incrementar a produção de leite é a permanência de rebanhos maiores em menores áreas, com a intensificação do uso da superfície. Propriedades típicas do município de Castro apresentam médias de 18.852 litros/hectare/ano (CEPEA, 2016), e o aumento de 1% no número de vacas resultou em acréscimo de 0,68% no leite produzido, portanto a otimização da superfície (confinamento, semi-confinamento ou compost barn) se mostra como mais uma alternativa, principalmente para pequenas e médias propriedades, aliado com o progresso genético dos animais.

Em relação aos fatores relacionados com a comercialização do leite e o grau de vulnerabilidade dos SPL, estudos demonstram que políticas de bonificação empregadas pelo mercado tendem a apresentar maiores vantagens e incentivos aos produtores, visto que os critérios para bonificar o leite abrangem aspectos qualitativos e quantitativos, que podem contemplar o produtor com valores acima do preço base oferecido pela empresa compradora, refletindo positivamente no valor final pago pelo litro de leite. Demonstrando a importância da valorização dos aspectos referentes com a qualidade do leite produzido tanto pelo produtor, como também pela empresa que o comercializa, ocorrendo uma fidelização recíproca.

 As cooperativas, pelas suas características intrínsecas, relacionadas com os princípios do cooperativismo, podem oferecer maiores benefícios, desde que os mesmos sejam adotados por elas. E com este canal de comercialização há indícios de que os produtores estejam menos propensos aos riscos referentes a comercialização, portanto menos vulneráveis.

Porém, os produtores deve se atentar que quanto mais exigente for o mercado (escala e qualidade) maior será a necessidade por parte dos mesmos de praticar ações que contribuam para a sua adequação, e mercados mais exigentes tendem também a ser mais excludentes.

Fatores combinados ou isolados podem tornar os sistemas mais vulneráveis, podendo levar o produtor a ser preterido pelo mercado e desistir da atividade. Grande parte dos produtores de leite abandonam suas atividades por não conseguir se ajustar às modificações institucionais que a cadeia leiteira sofreu nas últimas décadas. Cabe uma análise para diagnosticar tipologias que são mais ou menos vulneráveis, bem como a sua capacidade adaptativa diante das imposições ambientais, técnicas, sociais e de mercado, fazendo com que usem mais eficientemente os fatores de produção e possam permanecer como produtores de leite no país, minimizando os problemas encontrados quando involuntariamente deixam de exercer uma atividade que praticaram durante grande parte de suas vidas. 

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Rosa Maira Tonet – doutoranda em zootecnia (Programa de Pós-graduação em Zootecnia/UEM)

Ferenc István. Bankuti – professor (Programa de Pós-graduação em Zootecnia/UEM)

Julio Cesar Damasceno – professor (Programa de Pós-graduação em Zootecnia/UEM)

Referências:

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia. 2018. Pesquisa Pecuária Municipal, 2016. https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/ppm/quadros/brasil/2016 (Accessed 25 September 2018).

CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Boletim do Leite, nº 249, ESALQ/USP, 2016.

FAOSTAT – Food and agriculture organization of the United Nations. 2017. Statistical database. http://www.fao.org/faostat/en/#home (acessed 20 Junuary 2019).

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