Resultados espetaculares da rochagem em lavouras

John N. Landers e Flávio Faedo mostram o emprego do pó de rocha em propriedade no município de Rio Verde, em Goiás

Por John N. Landers* e Flávio Faedo**

Nos últimos cinco anos foram levantadas algumas polêmicas em torno do emprego do pó de rocha ou “rochagem”, na nossa região do Cerrado e no Sul do país. De fato, estamos praticando a rochagem há mais de sessenta anos, com a incorporação ao solo de calcário ou de rochas fosfáticas.

Figura 1. John Landers (esq.) e Flávio Faedo (dir.), pioneiros do Plantio Direto no Cerrado. Foto: S. P. Silva Neto.

Analisamos os resultados na Faz. Fortaleza em Rio Verde, Goiás, do Flávio Faedo, co-autor deste artigo. Ao testar a rochagem, o ele aplicou o mesmo espirito pioneiro que desenvolveu no sistema de plantio direto (SPD), com resultados impressionantes, embora empíricos. Ademais, Flávio pratica o SPD há mais de 25 anos.

Um teste em escala comercial, conduzido na fazenda, foram comparados um talhão com adubação convencional com outro empregando rochagem e outros insumos alternativos. O tratamento com rochagem incluiu:

  • Ano 1: 5 t/ha de micaxisto à lanço (não-incorporado);
  • Ano 1: Bacsol 200 ml/hana linha;
  • Ano 2: Ferti-bokashipreparado na fazenda, 4 l/ha;
  • Ano 3: 2 t/ha de cama de frango, também a lanço, não-incorporado e não repetido;
  • Ano 3: Bacsol 200 ml/ha na linha, alternando em anos subsequentes com Fert-bokashi nos anos pares;
  • Ano 4: Manutenção de mica-xisto com 2 t/ha, repetida a cada 3 anos;
  • A adubação da soja e do milho era o normal da fazenda, ou seja, 110 kg/ha de P2O5 e de K2O.

Outros dados coletados foram:

  • Fósforo total: varia nos talhões da fazenda entre 900 e 1.200 ppm;
  • Médias no teste comparando o ano de 2019 com os quatro anos anteriores forram: P (Mehlich) e K2O disponíveis no tratamento com rochagem e na parcela com adubação convencional como sendo: 9,7 e 11,7 ppm para P2O5e  89 e 97 ppm de K2O, respectivamente. Essas pequenas diferenças não afetaram a produtividade, mas indicam a utilização de reservas de nutrientes do solo;
  • A matéria orgânica do solo (MOS) nos talhões da rochagem e do adubo químico é similar, variando entre 3,1 e 3,2 %, teores relativamente altos.

Quadro 1, Resultados na Fazenda Fortaleza durante cinco anos de tratamento com rochagem mais outros insumos alternativos comparado com adubação química.

                 Quadro 1. Teste de Flávio Faedo, Rio Verde-GO.
Ano Soja (sc/ha) Milho sc/ha
C./Rochagem C/ Adubo Dif. (%) C/Rochagem C/Adubo Dif. (%)
1 3900 3870 0.78 97 89 8.99
2 4500 4260 5.63 147 142 3.52
3 4080 4080 0 74 74 0
4 3540 3780 -6.35 152 149 2.01
5 4740 4680 1.28 110 110 0
Médias 4152 4134 0.27* 116 112.8 2.9*

*Média da coluna

No quadro acima, verifica-se que as produtividades em anos 1 e 2, de soja e milho com rochagem + insumos alternativos, excederam ligeiramente às da adubação convencional, a um custo bem menor. A adição de 2 t/ha de cama de frango no terceiro ano foi concebido como reforço seguido no ano 4 com manutenção da rochagem (2 t/ha). Ignorar os dados demonstrados acima é tapar o sol a com peneira!

Mas temos de ir com cautela ao interpretar os resultados reportados no Quadro 1, pois há cinco fatores confundidos nesse teste, ou sejam: (i) a rochagem, (ii) a inoculação biológica (Bacsol e Fertibokashi), (iii) a aplicação de cama de frango (ano 3), (iv) a possibilidade de que todos os nutrientes, ou a maior parte deles, advêm das reservas do solo e (v) a falta de um tratamento sem adubação química. A elucidação deste último iria dirimir a dúvida da influencia do fornecimento de nutrientes das reservas do solo, o que poderia mascarar o efeito da rochagem.

De qualquer forma, o resultado positivo para o produtor é inegável, porém, na quarta hipótese, o produtor teria que monitorar a queda dessas reservas do solo a fim de não exauri-las. Pelo que parece, isto levaria vários anos. Por esses fatores serem confundidos, ou seja, não separados, está em aberto quais desses fatores, ou a combinação deles, foi responsável pelo bom desempenho das culturas que receberam rochagem e outros insumos. A falta de uma testemunha sem adubo e a introdução da cama de frango no terceiro ano torna ainda mais difícil a análise. Agora, é questão de fazer pesquisa isenta para separar esses fatores confundidos. Porém, isto é acadêmico para o agricultor, que está lucrando com esta prática, pela redução de custos.

Figura 2, Flavio Faedo e seu gerente Jorge Alves no meio da cultura de soja, var. Brasmax Power: à esq. adubação convencional e à dir. tratamento completo com rochagem e insumos alternativos – a diferença é imperceptível. Foto: F. Faedo.

Na figura 2, a diferença entre adubo convencional e o tratamento com rochagem + insumos alternativos, em média de 5 anos, era de apenas 18 kg/ha (0,3%) na soja e de 192 kg/ha (3,2%)  para o milho, a favor da rochagem+. Que validação!

Os resultados de um experimento replicado conduzido em 1995, pela Cereal Ouro em Rio Verde (GO), publicados no informativo “Direto no Cerrado”, com sete níveis de adubação, entre 322 e zero kg/ha de fertilizante 02:20:18 + Zn  (também com SPD há vários anos), constatou-se que, na terceira safra do experimento, a produção da soja FT Estrela, sem adubação, foi de 2.624 kg/ha  (nada mal sem adubo) e com 130 kg/ha de adubo produziu 3.429 kg/ha; apenas 3,5% a menos dos 3.553 kg/ha da dose máxima de fertilizante (322 kg/ha), implicando em utilização das reservas de nutrientes no solo, mais um importante ganho financeiro.

Isto indica que o excesso de fósforo (P) nas aplicações anteriores foi convertido em P não-lábil (fixado), e liberado lentamente pela alta atividade biológica no SPD, por não revolver o solo, e com efeito semelhante para o potássio (K). Essa resposta, na ausência de adubo químico, pode ser confundida com uma resposta à aplicação de pó de rocha.

De registo, do experimento da Cereal Ouro se deduz que eliminar ou reduzir a adubação química após vários anos do SPD pode aumentar o lucro, devido à utilização das reservas de nutrientes no solo. Convertendo essas reservas em lucro só se torna possível se o solo tiver boas reservas de nutrientes, alto teor de matéria orgânica e intensa atividade biológica. O SPD favorece essas condições no solo, o que reduz a emissão de C02, e aumenta a infiltração da chuva, por manter intactos os macroporos deixados por antigas raízes (controle eficaz da erosão). São aspectos positivos da sustentabilidade plena da agricultura brasileira atual com uma tecnologia SPD bem aplicada.

Noutro teste em 2018, também em escala comercial, Faedo aplicou 2 t/ha de cama de frango + 200 kg/ha de 11-52-00 +330 kg/ha de KCl e comparou com 5 t/ha de cama de frango + 5 t/ha de mica-xisto. Os resultados foram surpreendentes. A soja teve a mesma produtividade nos dois tratamentos, rendendo, em média de 5 anos, 67.58 sc/ha com adubo convencional e 67.99 com a rochagem + 5 t/ha de cama de frango substituindo o adubo químico. Mas o milho safrinha após a soja foi revelação: 44,3 vs 10,0 sc/ha  num ano seco, a favor da cama de frango mais rochagem. Uma possível explicação seria uma fonte adicional de N, advindo em parte das 3 t/ha a mais de cama de frango ou, via fixação livre no solo por Azotobacter ou, ainda, por decomposição da MOS. Também não se pode descartar um possível aprofundamento do enraizamento.

Portanto, torna-se necessário fazer seguimento de tais observações ou testes valiosos, porém não-replicados, com experimentos de desenho estatístico, para que sejam dirimidas as indagações e os porquês desses resultados indicativos e tão positivos no caso da rochagem com mica-xisto. A falta de recomendação oficial para a adoção dessa prática tem atrasado uma relevante inovação brasileira, rumo à sustentabilidade plena. Mais ainda, resultados dessas pesquisas, se positivos, podem encorajar produtores orgânicos a adotarem o SPD com o empego das várias técnicas disponíveis hoje para controle de inços sem herbicida. São os elos que lhes faltam para alcançarem plenamente a sustentabilidade. Alerta: são várias rochas diferentes usadas em rochagem e nem todas vão dar o mesmo resultado, podendo algumas serem até inertes no solo. Precisa se guiar por resultados positivos de pesquisa ou copiar exatamente exemplos como o relatado acima, em solos com boas reservas de nutrientes.

Enquanto não houver resultados suficientes de experimentos replicados, especialmente em condições de fazenda, estaremos onde estava o Plantio Direto no Cerrado antes de 1996, quando o presidente da Embrapa, Dr. Alberto Duque Portugal, na abertura do 5º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha em Goiânia, falou “Quero aqui destacar a iniciativa dos produtores do Brasil Central, que pressionaram o governo e a pesquisa a se envolverem com o Plantio Direto. …O que temos aprendido é que o primeiro mecanismo é prestar muita atenção ao que diz o produtor, porque ele sabe do que está falando”. Essa atitude resultou no que temos hoje, o maior cabedal de pesquisa em Plantio Direto no mundo.

As palavras do Portugal fazem jus aos resultados do Flávio Faedo, que sinalizam uma nova revolução na agricultura de grãos no Cerrado, e além, melhorando os retornos econômicos e ambientais da honrosa atividade do agricultor: saciar a fome no mundo.  

 

Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, n’importa a cor[1]!

 

[1] A citação final é de Gertrude Stein, em 1909, autora e poetisa americana, contemporânea de Hemingway em Montmartre, Paris.

 

Agradecimentos: ao MAPA e ao Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), de Mineiros-GO, pelo apoio na edição do artigo.

* Ordem do Império Britânico (2006), Prêmio Heidelberg Internacional por Mérito Ambiental (2006); Prêmio Emil Mrak por distinção na Agricultura Internacional, Universidade da Califórnia, Davis, (2009); Agrônomo do Ano, Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de Goiás (2013), Doutor Honoris Causa, UFG (2017), MS, BSc, N.D.Agr.E., E-Mail: [email protected]

** Administrador Rural com pós-graduação na UFLA, produtor rural e pioneiro do SPD em Rio Verde – GO, ex-presidente do Clube Amigos da Terra de Rio Verde  e presidente da Comissão de Grãos da Federação de Agricultura de Goiás (FAEG).

[1] A citação final é de Gertrude Stein, em 1909, autora e poetisa americana, contemporânea de Hemingway em Montmartre, Paris.

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