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Sustentabilidade: não basta só produzir

As certificadoras proliferaram mundo afora, agregando valor aos alimentos, argumenta Décio Gazzoni
Inovação em agricultura

Por Decio Luiz Gazzoni

Até a segunda metade do século XX, a variável diretriz da demanda de produtos agrícolas era o crescimento populacional, e a demanda corria à frente da oferta. Com os avanços tecnológicos e consequente aumento da produtividade, tem sido progressivamente mais fácil atender a oferta quantitativa de alimentos. Ocorre que, no século XXI, o principal fator a impulsionar a demanda é o crescimento da renda per capita, que vem acompanhado de mais escolaridade, mais informação, mais consciência quanto à necessidade de desenvolvimento sustentável, o que qualifica a demanda. Paralelamente, pululam organizações de ativistas, com uma plêiade de bandeiras, que vão do bem-estar animal à demonização de determinadas técnicas agrícolas, o que provoca influência nas decisões de consumo. Ao fim e ao cabo, esse conjunto de fatores direciona a demanda de produtos agrícolas.

Em síntese, a sociedade urbana pressiona por sistemas agrícolas harmonizados com o meio ambiente, de forma que os impactos da produção sejam os menores possíveis e, além disso, aceitáveis pela sociedade – cujo sinônimo pode ser consumidores. A principal ferramenta para atender os anseios e exigências dos consumidores/sociedade é a certificação.

Existem diferentes tipos de certificação. De forma simplista, os governos nos impõem certificações através de normas obrigatórias, normalmente destinadas a controlar riscos à saúde humana e ao meio ambiente, como ocorre com os regulamentos dos agrotóxicos. As certificações privadas tanto podem reforçar normativas governamentais, como definir atributos organolépticos, de cor, forma, tamanho, peso, sabor, aroma etc.

Analisemos o exemplo da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês). Trata-se de uma organização da sociedade civil criada em 2007, com sede em Zurique, Suíça, que incentiva a produção, processamento e comercialização responsável da soja em nível global. Seus membros incluem os principais representantes da cadeia de valor da soja, e da sociedade civil, em escala global. A RTRS vislumbra a soja contribuindo para o atendimento das necessidades sociais, ambientais e econômicas da geração atual, sem comprometer os recursos e o bem-estar das gerações futuras. A missão da RTRS busca promover a produção de soja de maneira sustentável para diminuir os impactos sociais e ambientais, mantendo ou melhorando o nível econômico para o produtor.

Para obter a certificação, o produtor necessita cumprir um conjunto de boas práticas, como desmatamento zero e correta conservação de solo. A soja certificada pela RTRS ganha um bônus que pode chegar a cinco dó- lares por tonelada. O interesse vem crescendo e, no Brasil, foram certificadas 3,4 milhões de toneladas (Mt) em 2017, mais de 80% do total mundial. A previsão para este ano é superar 5 Mt, em escala global, o que é acanhado para a estimativa de superar 55 Mt antes do final da próxima década. A previsão é baseada no aumento do interesse dos compradores, hoje concentrados na Holanda, Suécia, Finlândia e Dinamarca. Porém, outros países têm ampliado suas compras de soja certificada, incluindo processadores para o mercado interno brasileiro.

Mais que um exemplo isolado, o caso da RTRS é uma clara tendência de futuro, que englobará todos os produtos agrícolas, e servirá como passaporte para ingresso no mercado dos países ricos, mais exigentes, porém dispostos a pagar mais por um produto/alimento com garantia de sustentabilidade.

*Matéria originalmente publicada na edição 104 da revista Agro DBO.

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