“Tempestade perfeita” na arroba do boi gordo

Leandro Bovo conversa com o Portal DBO sobre o histórico mês de novembro para o setor pecuário

O médico veterinário Leandro Bovo, sócio-diretor da Radar Investimentos, de São Paulo, batizou o mês de novembro como a “tempestade perfeita” para o mercado do boi gordo. Em artigo publicado no site da Scot Consultoria, relata quatro principais fatores para explicar a disparada no valor do boi neste mês: escassez de animais neste final da entressafra; a menor oferta dos confinamentos; o atraso das chuvas nas regiões produtoras; e o enorme aumento das exportações para a China.

No entanto, a grande questão é: como será o comportamento dos preços do boi gordo no curtíssimo prazo, ou seja, em dezembro. Na avaliação de Bovo, “é de se esperar que essa situação persista ainda em pelo menos uma parte de dezembro, porém, isso não vai durar para sempre. “O sinal emitido pela alta forte dos preços sempre é captado pelo mercado. que reage e se ajusta, aumentando a produção para “rebalancear” a equação, escreve, acrescentando:  “A questão não é “se” isso irá acontecer, mas sim “quando” seu impacto será sentido”.

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Porém, sentencia Bovo, “cravar qual será o novo patamar de preços vigente para 2020 é impossível”. “Mas, independentemente de onde o mercado se estabilizar, acredito ser pouco provável que existam grandes deságios como o precificado atualmente pelo mercado futuro para 2020”.

Segundo observa o analista, na bolsa B3, o contrato do boi gordo para outubro de 2020 está R$ 3/@ abaixo do contrato de jan/20. Por sua vez, contrato de fev/20 está R$ 6/@ menor do que contrato de jan/20, enquanto o contrato de mar/20 vale R$ 5 a menos que contrato de jan/20… e assim por diante.

Escala de abate negativa

Durante este mês, Leandro Bovo disse que, diante da forte oscilação para cima do boi gordo, alguns pecuaristas estão tirando seus bois da escala de abate, e ofertando às outras indústrias por um preço maior, criando uma situação bizarra de “escala de abate negativa”. Nessa quarta-feira (27/11), o Portal DBO conversou com o especialista por e-mail sobre a atual situação vivida pelo mercado do boi gordo. Veja abaixo:

Portal DBO – Sobre a tal de “escala de abate negativa”, isso quer dizer que o pecuarista chega a comprometer a entrega do boi por um determinado valor, mas daí ele desiste, é isso? Então, o frigorífico que estava com a escala formada teoricamente, deixa de contar com a boiada? Por favor, explique.

Bovo – Exatamente isso, o pecuarista havia vendido os bois antecipadamente ao frigorifico por um preço pré-determinado no chamado boi a termo, mas daí os preços explodiram e alguns pecuaristas simplesmente não honraram o negócio e não entregaram os bois, vendendo a preços mais altos para outras indústrias…ou seja, o frigorifico que contava com esses animais na escala ficou a ver navios…

Portal DBO – Mas, do ponto de vista legal, o pecuarista pode desistir na hora sem exercer de sua venda, sem qualquer prejuízo pra ele?

Bovo –  Não! Fazendo isso, o pecuarista está rompendo unilateralmente um contrato e o frigorifico poderá entrar na Justiça buscando seus direitos. Esses contratos têm multas, garantias e demais itens de segurança de um contrato padrão.

Portal DBO – Na sua visão, a demanda interna pela carne bovina tende mesmo a melhorar? O preço do bife já não está muito caro para se acreditar em demanda alta nas festas de fim de ano?

Bovo – Demanda interna sempre é boa e menos sensível a preço no final do ano, porém tudo tem limites; a alta da carne foi muito forte e o grosso da população não tem como manter o consumo nesses preços mais altos. Com certeza, o consumo no mercado interno irá diminuir; talvez essa queda seja menos sensível agora no final do ano, porém, caso os preços continuem mantendo essa alta, haverá com certeza reflexo no consumo.

Portal DBO – O apetite chinês pela carne bovina tende a piorar depois do ano-novo na China?

Bovo – O problema da China com a peste suína africana é enorme, o déficit de produção de carne suína lá é gigantesco e esse problema tende a persistir ainda em 2020. Claro que os chineses estão fazendo tudo ao seu alcance para tentar normalizar a situação, porém isso leva tempo até recompor o rebanho suíno e a produção voltar a níveis minimamente normais. Então, em 2020, esses efeitos da China mais agressiva como importador de proteína animal ainda estarão presentes.

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