Trocar o termômetro é a solução?

Christiano Nascif diz que “gol de placa” é quando o produtor enche os bolsos de dinheiro de forma sustentável

A discussão sobre sistemas de produção de leite de sucesso é recorrente, porém não é tão importante como preconizam.

O foco da discussão pela busca de excelência deve ser outro! Como sempre o “sistema” é o culpado por todas as mazelas. Na pecuária leiteira também é assim. É como se curássemos uma febre trocando de termômetro, insucesso na certa.

O melhor sistema de produção é aquele em que o produtor consegue ter melhor relação benefício-custo. Tanto econômico-financeira como pessoal, satisfação em fazer o que gosta.

Analisando 116 propriedades leiteiras participantes do Projeto Educampo Leite do Sebrae/MG em parceria com diversas agroindústrias e cooperativas no estado de MG, comprova-se que em todos os sistemas é possível ter o sucesso que todo o produtor de leite busca.

Tabela 1 – Comparativo de indicadores entre os sistemas de produção de leite para 116 propriedades superiores do Projeto Educampo.

Independente do sistema de produção explorado, seja ele pastejo intensivo ou semi-intensivo; confinado sem estrutura; free stall ou compost barn, os grupos de produtores eficientes em cada um desses sistemas não operaram abaixo de uma relação benefício-custo de R$ 1,20, ou seja, para cada R$1 investido na pecuária leiteira, seja qual for o sistema de produção, pagou-se o R$1investido e sobrou R$ 0,20. Em torno de 20% de sobra, muito bom, não acham? Por quê conseguiram este feito?

Equilíbrio

Todas as propriedades analisadas, em todos os sistemas, estão equilibradas entre investimentos e produção de leite, por isso obtêm sucesso. Todas elas têm menos de R$ 1.200 de capital empatado por litro de leite produzido/dia. Somente as propriedades do sistema semi-intensivo superaram esse valor – R$ 1.504,42/L. Por isso, dentre todos os mais rentáveis, o grupo dos semi-intensivos é o que apresenta menor rentabilidade, apontada através da taxa de retorno do capital empatado incluindo o patrimônio em terra.

Investimento em estrutura gera alto custo fixo!

Depende. Se houver um equilíbrio entre o investimento em estrutura e a resposta no aumento de produção de leite, não!

Se fizermos uma pergunta rápida a 100 produtores de leite, inclusive para os técnicos da área: ”Qual sistema gera maior custo fixo por litro: free stall ou semi-intensivo?” Podemos prever que 80 produtores responderão: free stall. Nem sempre isso é verdade.

Neste grupo de produtores indicados, o custo fixo por litro dos sistemas free stall e compost barn foram iguais, R$ 0,15/L, enquanto o custo fixo médio das propriedades que utilizam os sistemas de produção semi-intensivo e confinado sem estrutura foi de R$ 0,20/L. Percebem como o modelo mental proposto nos induz ao erro? O fato é que os sistemas que demandaram maiores investimentos foram correspondidos com uma produção muito maior de leite, o que compensou.

GRÁFICO 1 – Estoque de capital médio por litro de leite, custo fixo unitário e produção média para as propriedades superiores participantes do Projeto Educampo Leite que utilizam os sistemas de produção Semi Intensivo e Free Stall.

 

Quanto maior o investimento, maior o risco!

Grande engano, nem sempre! A rentabilidade operacional média de todas as propriedades ficou, praticamente, acima de 20%, o mínimo aceitável nas propriedades de sucesso. Ou seja, essas propriedades analisadas toleram um revés de 20% a menos na produção de leite ou 20% a menos no preço do leite ou 20% a mais nos custos de produção, sem operar com margem líquida negativa. Risco aceitável, não acham?

Vejam que o risco com o grupo de produtores do sistema de produção do modo sem estrutura foi praticamente o mesmo das propriedades em sistemas com compost barn. Se você não estivesse lendo esse artigo e conferindo os números, além da sua experiência, acreditaria neste fato?

Razão do Sucesso!

Essas propriedades alcançaram o sucesso pois foram eficientes em alguns pontos-chaves importantes em qualquer sistema de produção, devido à forma de gerenciar dos seus proprietários, auxiliados por consultores competentes.

São três indicadores técnicos fundamentais para o sucesso que todo produtor brasileiro deve almejar, independentemente do sistema de produção adotado, se quiser ganhar dinheiro com a atividade leiteira. São eles: vacas em lactação em relação ao número de funcionários fixos na propriedade (VL/DH); vacas em lactação em relação ao rebanho total (VL/TR) e produtividade da terra medida em L/HA/ano. Percebam que em todos os sistemas de produção, os produtores que ganharam mais dinheiro foram aqueles que operaram próximo ou acima das metas preconizadas, tidos como ideais ou mínimas, nesses três indicadores supracitados. São eles, VL/DH: mínimo de 20; VL/TR: mínimo de 40%; L/HA/ano: mínimo de 5.000. Percebam que o grupo de fazendas que apresentou um maior desequilíbrio desses três indicadores foi o que teve menor rentabilidade, de novo o semi-intensivo, apresentando menor taxa de retorno sobre o capital entre todas as propriedades de sucesso, independente do sistema de produção.

Segredo do Sucesso!

O sucesso não acontece por acaso. O equilíbrio de qualquer sistema de produção é fundamental para o êxito do produtor de leite.

Sozinho dificilmente o produtor alcançará este objetivo. Ele deve estar assessorado por um competente consultor que tenha como propósito fazer com que o seu cliente, o produtor, ganhe mais dinheiro, independente do sistema de produção utilizado ou de alguns indicadores técnicos alcançados isoladamente. O equilíbrio entre os indicadores técnicos e econômicos em todo sistema de produção é primordial para alcançar o sucesso.

O produtor de leite que é atendido por um técnico que tem como principal objetivo fazer com que ele ganhe mais dinheiro de forma sustentável, está no caminho certo para o sucesso.

Conclusão

A atividade leiteira no Brasil alcançará a verdadeira transformação quando os programas de assistência técnica e gerencial e os seus técnicos priorizarem o produtor, mais especificamente o bolso deste, em detrimento das vacas, pastos, lavouras etc.

O sucesso do produtor é o nosso objetivo-fim. Os recursos (animais, plantações, terras) são simplesmente os meios para alcançar esse objetivo.

Sendo assim, os indicadores que medem as performances desses recursos não podem ser o grande “gol” do produtor ou do técnico que o assiste. O “gol de placa” é marcado quando o produtor enche os bolsos de dinheiro, de forma sustentável, através de indicadores técnicos equilibrados em sintonia com os sistemas de produção de leite praticados. Estes indicadores, por sua vez, nem sempre se equivalem ao máximo produtivo.

Portanto, se o seu bolso estiver ardendo em febre de tão vazio, caro produtor, somente trocar de termômetro não resolve; mude a forma de gerenciar a sua propriedade e, se for o caso, também troque de consultor.

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