Soja: Mapeamento genético da ferrugem inaugura nova era

Descoberta é o primeiro passo para o desenvolvimento de sementes resistentes ao fungo

Dez anos após a descoberta do genoma da soja, um consórcio formado por 12 entidades públicas e privadas conseguiu, de forma inédita, mapear o sequenciamento genético da ferrugem asiática, fungo que causa prejuízos bilionários a produtores do mundo todo. Anunciada esta semana em São Paulo pela Bayer e pela Embrapa, instituições que participaram da força-tarefa, a descoberta promete revolucionar o manejo e o desenvolvimento de fungicidas nos próximos anos.

“Temos uma grande oportunidade a partir da obtenção do genoma. Enquanto Bayer, nas nossas linhas de pesquisa, o que vamos buscar são novos mecanismos de ação e entender se os mecanismos que estamos estudando serão eficazes daqui cinco ou 10 anos”, explica Rogério Bortolan, líder de soluções agronômicas para a soja da Bayer na América Latina. Segundo ele, a maior assertividade nas pesquisas com a ferrugem da soja deve permitir reduzir custos com o desenvolvimento de novas tecnologias, reduzindo os preços cobrados atualmente. “Certamente, se eu tenho um tempo menor para desenvolver determinado fungicida, isso consequente leva a um custo de investimento menor e com certeza isso deve ser levado em conta lá na ponta”.

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O primeiro caso de ferrugem asiática foi registrado no Brasil em 2001, levando a uma perda de cerca de 4,5 milhões de toneladas de soja na safra 2003/04, segundo dados da Embrapa. A empresa avalia que a doença gere um prejuízo médio de US$ 2,8 bilhões por safra, podendo levar dizimar até 80% da lavoura se não tratada adequadamente. Um estudo recente realizado pelo Cepea apontou que o custo dos produtores de soja com fungicidas na safra 2016/17 foi de R$ 8,3 bilhões, sendo 96% desse montante destinado para controle da ferrugem.

“Há 18 anos temos tentado conhecer a biologia desse fungo. A gente já conhece muito dele, mas por fora. Por dentro começaremos a conhecer a partir dessa semana”, explica Maurício Meyer, pesquisador da Embrapa Soja. Ele explica que o Brasil trabalha atualmente com um tripé de combate ao fungo: vazio sanitário e calendarização de safra, aplicação de fungicidas e desenvolvimento de cultivares resistentes. As três frentes, contudo, esbarram em características do fungo que o tornam o principal problema da cultura hoje no país: elevada capacidade de dispersão e de adaptação, o que aumenta os casos de resistência e dificulta o desenvolvimento de tecnologias mais duradouras.

“Quando sequenciamos [o DNA da ferrugem da soja], o que nos surpreendeu é que ele tem um genoma bem grande, próximo ao genoma da soja, tem dois núcleo, independentes e que não são exatamente iguais. Ou seja, um gene que é ativo em um não necessariamente estará ativo no outro”, explica a pesquisadora da Embrapa Soja, Francismar Marcelino Guimarães. De acordo com ela, essas características, associadas a um DNA altamente repetitivo, explicam a elevada capacidade do fungo de criar resistência às tecnologias já disponíveis no mercado. O mapeamento descobriu, ainda, que há famílias dentro desse DNA que possuem capacidade de “saltar” dentro do genoma. Quando isso ocorre, ele causa variações estruturais, permitindo criar variabilidade genética de forma não-sexuada.

Ouça a entrevista com a pesquisadora Francismar Marcelino Guimarães, da Embrapa Soja:

A partir dessas descobertas, os pesquisadores pretendem agora analisar quais as funções de cada gene e, assim, mapear as rotas biológicas da ferrugem na soja, ou seja, quais genes estão associados a sua ação na soja e o que ele transfere para dentro da planta durante a infecção. Com isso, no médio e longo prazo, será possível desenvolver soluções baseadas em biotecnologia, como transgenia e edição genética. “Se eu identifico genes do fungo que são importantes para sua patogenicidade, podemos pensar em estratégias de inibição desses genes”, explica a pesquisadora, ao ressaltar que essas medidas ainda esbarram em questões regulatórias – que podem atrasar sua chegada ao mercado.

Outra ação importante que será realizada a partir do mapeamento genético da ferrugem asiática é o acompanhamento das mutações desde 2003, com base no banco de dados com amostras de 44 DNA’s mantidos pela Embrapa. Desse modo, o consórcio pretende monitorar a resistência do fungo, analisando quais são os mais agressivos e mais resistentes por meio do ressequenciamento desses genomas. “Foi uma grande conquista, mas a pesquisa não para aqui. Temos que continuar explorando esses dados que temos, ainda tem muito o que se fazer em termos de pesquisa. Toda essa informação, nós teremos que digerir para traçar novas formas de controle e enfrentamento dessa doença”, conclui Ricardo Abdelnoor, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Soja.

 

 

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