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Uma história de sucesso

Há 6 anos no comando, os irmãos Fábio e Marcelo Faria conseguiram dobrar a produção de leite

A história da Fazenda Santa Terezinha, em Guaratinguetá, SP, na Serra da Mantiqueira, começou em 1940, quando o mineiro de Itajubá José de Faria migrou para terras paulistas em busca de um lugar para produzir leite e sustentar sua família. Hoje, qua se 80 anos depois, está nas mãos da terceira geração dos Faria, Fábio Augusto e Marcelo Caetano, netos de José. Durante todo esse tempo, a fazenda nunca deixou de produzir “um dia sequer”, garantem os irmãos. Todo o leite é entregue para a cooperativa da cidade, a Serramar, desde sua fundação. Agora, eles se preparam para uma nova fase de investimentos. O objetivo é chegar a uma produção diária de 5 mil litros, com as mesmas 200 vacas em lactação.

Fábio, de 45 anos, e Marcelo, 46, assumiram a propriedade em 2010, após a morte do pai, José Geraldo Caltabiano de Faria, que dedicou toda sua vida à fazenda, desde 1958, quando tinha apenas 15 anos. “Meu avô morreu mui to cedo e então meu pai continuou o trabalho. Manteve a produção de leite e tentou diversificar um pouco, com arroz, feijão e cana, para produzir cachaça. Mas o leite sempre foi a atividade principal”, lembra Fábio.

Ao longo dos anos a fazenda foi recebendo alguns investimentos. Em 1976, José Geraldo construiu a cocheira para fazer a ordenha com balde ao pé. Em 1984, investiu no pasto. Reformou toda a área de pastagem com braquiária, uma ação considerada arrojada para a pecuária de leite naqueles tempos.
Tanto que naquele ano, ele foi eleito produtor modelo pelo Ministério da Agricultura e recebeu como prêmio o valor do imposto pago naquele ano. O cheque de Cr$ 82.846,00 nunca foi descontado e continua guardado com orgulho pelos filhos.

Alguns anos depois, José Geraldo começou a investir em genética para melhorar o desempenho das vacas leiteiras. Em 1995, a fazenda se estabilizou numa produção em torno de 1.300 litros/dia, com rebanho de 150 a 200 vacas em lactação. Mesmo número do plantel atual. Com a fazenda estabilizada, os irmãos decidiram seguir outro caminho. “Trabalhei com meu pai de 1989 até 1996. Mas resolvi comprar uma carreta e viajei durante 15 anos. O Marcelo foi trabalhar em Santa Catarina.” Fábio lamenta não ter voltado antes para Guaratinguetá. “Com a idade, meu pai foi cansando, parou com a lavoura de arroz e ficou só com o leite. Em 2010 decidi vender o caminhão e voltar a trabalhar com ele. Mas não deu tempo de a gente trabalhar juntos de novo. Vendi o caminhão em agosto e ele morreu em setembro”, conta.

Com a morte do pai, os irmãos tinham duas opções: assumir a fazenda ou vendê-la. “Fiquei aqui e o Marcelo continuou trabalhando no Sul. No começo, fomos tocando como estava. A produção na época era de 1.800 litros por dia, com as mesmas 200 vacas em lactação”, diz Fábio, destacando que a produção não era suficiente para sustentar as famílias de ambos.

Quando assumiram a Santa Terezinha, conta Fábio, muitos animais estavam com produtividade baixa e a alimentação para o gado era pouca. Chegaram em outro dilema: parar com tudo ou investir. “Eu não acreditava que a gente conseguiria melhorar e ter lucro com o leite. Mas o Marcelo sempre foi otimista e então decidi apostar na sua intuição.”

Em 2012, o irmão deixou o trabalho em Santa Catarina e voltou para Guaratinguetá. E começaram o investimento. O primeiro foi instalar a ordenha mecanizada. O objetivo, segundo Fábio, era concentrar o rebanho para facilitar o manejo e o controle dos animais. Até então, o gado comia amarrado durante a ordenha, no balde ao pé.

Paralelamente, começaram um investimento na melhoria da alimentação do gado. “A produtividade de cada vaca depende muito do quanto ela come e bebe”, ensina o produtor. Para isso, a fazenda conta hoje com um veterinário que acompanha a dieta do rebanho e outro profissional para controlar a qualidade do leite.

Além disso, as vacas, que antes comiam amarradas enquanto eram ordenhadas, hoje se alimentam antes ou depois da ordenha, em um galpão preparado especialmente para isso. “Compramos um vagão misturador, onde colocamos os insumos e definimos a quantidade de cada item”, diz Fábio. A máquina coloca a medida certa conforme a dieta e faz a mistura, deixando a silagem homogênea. Com isso, os animais recebem, em qualquer parte do cocho, a mesma quantidade de nutrientes. “A gente consegue fornecer no cocho tudo o que o animal precisa para uma dieta balanceada.”

Outro investimento importante, reforça o produtor, é com o bem-estar dos animais. “A vaca precisa de comida e água à vontade e sombra fresca, literalmente, para produzir bem.” Por isso, o cocho para alimentação, ao lado do galpão de ordenha, ganhou cobertura especial com sistema de aspersão para garantir uma sombra refrescante aos animais enquanto se alimentam. “Não é o ideal ainda, mas já ajudou. Conseguimos aumentar em 10% a produtividade.” Os irmãos também investiram em maquinário para a agricultura: trator, colhedora, carreta, plantadeira. “Primeiro mudamos a forma de ordenhar para ganhar qualidade. Depois, investimos na lavoura para produzir aqui mesmo na fazenda tudo o que os animais precisam para uma alimentação balanceada”, explica Fábio, lembrando que investiram um pouco em genética, na compra de touros melhorados.

Com o mesmo rebanho, formado por vacas três-quartos holandesas e girolandas, em menos de quatro anos a produção da fazenda dobrou, de 1.800 em 2012 para quase 4 mil litros de leite/ dia em 2016. O engenheiro agrônomo Harold Van Caspel dá assessoria à propriedade, de forma autônoma, assim como faz em propriedades do Vale do Paraíba e do sul de Minas Gerais. Comparando num período maior, a evolução é ainda mais notável. Fábio mostra as planilhas, todas guardadas, com o volume entregue para a cooperativa. No dia 13 de setembro de 1976 a fazenda produziu 824 litros. Exatos 40 anos depois, em 2016, foram entregues 3.962 litros.

Questionado sobre o segredo do sucesso, Fábio é enfático em afirmar: “A palavra-chave é gestão e alimentação”. “Tem produtor que não sabe quanto custa cada litro de leite que produz. Nós sabemos como cada centavo é gasto aqui”, diz, frisando que a fazenda é uma empresa e os donos têm de pensar como empresários. “Temos um sistema de avaliação. Pesamos todo o leite e as vacas são divididas em lotes conforme a produção. Daí conseguimos balancear melhor a alimentação e cada animal come o quanto precisa para continuar produzindo. Se ela não come o tanto que produz, a tendência é o animal diminuir a produtividade.”

Com tudo controlado, os irmãos estão prontos para dar um novo passo. Vão mudar o sistema de criação, que hoje é semiconfinado, para confinado, com a adoção do compost barn. O projeto para a construção do novo galpão está pronto. Segundo Fábio, a primeira etapa vai confinar 166 vacas, as mais produtivas da propriedade. “Nosso objetivo é passar o próximo verão fora do barro”, brinca. Com o novo sistema, o produtor espera atingir o potencial máximo desses animais e chegar a uma produção de 5 mil litros/dia.

Mas o desafio é grande. A fazenda, de 480 hectares, terá de produzir mais silagem para conseguir dar conta de alimentar os animais. Atualmente, 50 hectares são destinados para o cultivo de milho, mombaça e sorgo, tudo para compor a alimentação do gado. Outra parte da propriedade abriga cerca de 200 animais de corte, que ajudam a complementar a receita.

“Estamos preparados. A meta é explorar a propriedade da melhor forma possível, com leite, agricultura e corte. Para isso, focamos em um passo de cada vez, mas sempre pensando no futuro. Daqui dois anos, temos planos de confinar todo o rebanho.” Os funcionários também são importantes para atingir os objetivos. “Temos 12 funcionários. Sempre fazemos palestras e reuniões para atualizar todos. Também implementamos metas de produtividade e os funcionários são bonificados. É uma forma de incentivo”, explica o produtor.

Na avaliação de Fábio, o ano de 2016 foi muito bom para o produtor de leite. “Faltou produto no mercado. Por causa da seca, muitos produtores pararam a atividade. Quem ficou acabou ganhando.” Apesar do ano bom, ele destaca a importância de ser cooperado. Segundo ele, a partir da cooperativa os produtores da região começaram a produzir mais leite.

Uma das vantagens é o compromisso da cooperativa em comprar todo a produção e procurar o melhor mercado para vender o produto. Há alguns anos, a Serramar reinaugurou a unidade industrial e beneficia todo o produto captado, agregando ainda mais valor ao leite. “É uma parceria. O laticínio melhorou a vida de todos nós.”

Alguns produtores, ressalta Fábio, preferem vender para outras indústrias, mas sofrem com a sazonalidade do mercado. “O valor médio que a cooperativa nos paga é sempre melhor. Na entressafra a indústria pode até pagar mais, mas quando tem muito produto no mercado ela baixa o preço. O lucro fica todo pra ela. Não compensa. Na cooperativa é tudo dividido”, afirma, lembrando que o leite é um produto perecível, que precisa ser consumido rápido. Por isso, acrescenta, a cooperativa é especialmente importante para o produtor de leite, principalmente para os pequenos e mais distantes.

Além da garantia de compra e de preço estável, Fábio ressalta que os cooperados também contam com assistência técnica, agronômica e veterinária, a um preço subsidiado. “Pago cerca de 30% do valor de mercado. Se tivesse de contratar esses profissionais seria mais difícil.”

Incentivados pela cooperativa, os irmãos também fazem parte do Programa Boas Práticas na Fazenda. O projeto visa melhorias nas instalações das propriedades leiteiras e na qualidade do leite. “Quem pratica as boas práticas tem um acréscimo de 3 centavos no litro. Parece pouco, mas cada incentivo soma e no final conseguimos um bom preço.”

A Cooperativa de Laticínios Serramar, antiga Cooperativa de Guaratinguetá, foi fundada em 1944. Entre os fundadores estava José de Faria, avô de Fábio e Marcelo. Atualmente, conta com 820 produtores de leite cooperados, espalhados por 18 municípios do Vale do Paraíba, e captação de 200 mil litros por dia. Para captar toda essa produção, a cooperativa tem 16 caminhões-tanque, com capacidade para até 230 mil litros, e 70 funcionários na indústria de laticínios. Todo o volume produzido pelos cooperados é destinado para a fabricação própria da extensa linha de derivados, que inclui leite pasteurizado, fermentados, como bebidas lácteas, iogurtes e coalhada, queijos e manteiga.

O presidente, Pedro Augusto Fernandes Guimarães, diz que a grande maioria dos cooperados é de pequenos produtores. Ele lembra que a cooperativa foi criada justamente pela necessidade que esses produtores sentiram de comercializar o leite em conjunto, para conseguir tempo, a cooperativa foi crescendo e começou também a comprar os insumos em conjunto. “Compramos em grande quantidade e, assim, conseguimos repassar ao produtor por um preço menor do que o oferecido no mercado”, afirma. Em 2000, a cooperativa comprou a marca Serramar e ampliou a área de comercialização dos produtos para todo o Estado de São Paulo, principalmente o Vale do Paraíba, litoral norte, Grande São Paulo, região Bragantina e Campinas, além de algumas cidades do Rio de Janeiro.

Além das vantagens da compra de insumos e da assistência técnica, Pedro ressalta que outra vantagem de o produtor ser cooperado é a estabilidade de preço do leite. “A indústria em geral promete muito, mas quando o preço cai ela deixa o produtor na mão. No ano passado, por exemplo, uma indústria da região chegou a pagar R$ 1,70 o litro em setembro. Quando chegou dezembro, pagou R$ 0,98. Enquanto o cooperado manteve a média de R$ 1,40”, exemplifica. Essa estabilidade, acredita, é importante para o produtor poder se planejar melhor durante todo o ano, porque a oscilação de preço é mínima. “Pode até haver críticas, mas nas bacias leiteiras onde há cooperativas os preços são mais altos. A cooperativa ajuda a precificar o campo.” A Serramar processa atualmente mais de 65 milhões de litros de leite. Em uma moderna unidade industrial, o leite das fazendas é processado pelas mais modernas tecnologias, garantindo e originando produtos das marcas Serra Mar, Milk Mix e Maringá.

*Matéria publicada originalmente na edição 84 da revista Mundo do Leite. 

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