Vale a pena o investimento no controle de mastite?

Por Marcos Veiga - Professor Associado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, campus de Pirassununga, SP

Por Marcos Veiga

Quando as margens de lucratividade são cada vez mais estreitas, é necessário focar a gestão da fazenda leiteira em duas frentes: a) buscar melhoria no preço do leite e, b) reduzir os custos de produção. Nestas duas situações, as fazendas com problemas de mastite são afetadas negativamente em relação à lucratividade. Em relação ao preço do leite, a contagem de células somáticas (CCS) do tanque tem sido usada como critério de qualidade em todos os sistemas de valorização da qualidade do leite, os quais incluem faixas de bonificação e de penalização do preço. Por exemplo, a maior bonificação do preço do leite ocorre quando a fazenda produz leite com CCS < 200.000 células/ml, mas ocorre desconto do preço quando o leite tem CCS > 400.000 células/ml. Os sistemas de valorização da qualidade do leite com base na CCS funcionam como uma clara sinalização ao produtor de qual o padrão de qualidade desejado pelo laticínio e pelo mercado, e quanto estão dispostos a pagar a mais por esta qualidade diferenciada. Do outro lado da equação de lucratividade, os custos de produção de leite, a mastite é considerada a doença do gado leiteiro que mais gera prejuízos na produção leiteira, o que indica que quando a fazenda consegue atingir sucesso no controle desta doença, há claros benefícios em termos de redução das perdas de produção causadas pela mastite subclínica, de diminuição de custos de tratamentos e da quantidade de leite descartado e de descartes involuntários.

Atualmente, existem diferentes recomendações técnicas para prevenção e controle de mastite, sendo que as principais medidas já foram avaliadas cientificamente quanto à eficácia em diferentes sistemas de produção. No entanto, em razão de a mastite ser uma doença multifatorial, nenhuma medida aplicada de forma isolada apresenta sucesso total no controle da doença. Além disso, deve-se considerar que nem todas as recomendações de controle têm a mesma eficácia e retorno financeiro em todas as fazendas, o que significa que algumas medidas podem ter ótimo resultado em algumas fazendas e resultado insatisfatório em outras. Ou seja, dependendo da fazenda, algumas medidas de controle podem ser prioridades, enquanto outras medidas não.

Desta forma, o controle e prevenção da mastite deve ser feito por um conjunto de medidas, as quais devem ser aplicadas simultaneamente, de acordo com as prioridades e as particularidades de cada fazenda. Para a avaliação do custo:benefício de algumas medidas deve-se considerar que a sua eficácia máxima somente é obtida com bom treinamento de mão de obra, visto que a qualidade dos procedimentos pode fazer toda a diferença e não somente o fato de usar ou não um determinado produto ou procedimento. Por exemplo, os produtos para desinfecção de tetos somente apresentam eficácia máxima se forem usados de forma correta, aplicando-se o produto em toda a superfície dos tetos que entra em contato com a teteira.

A tomada de decisão sobre utilizar ou não uma determinada medida de controle pode ser feita com base em recomendações de especialistas e nos resultados de estudos científicos. Nesta situação, os resultados de estudos que avaliaram a relação custo:benefício da aplicação de medidas de controle de mastite em fazendas leiteiras usaram como respostas de eficácia a redução da CCS do tanque e da incidência de mastite clínica. Estes estudos buscaram identificar dentro de um conjunto de medidas (Quadro 1) recomendadas para o controle de mastite, aquelas que trariam o maior retorno econômico para o produtor, com base em simulações de custo de cada medida, considerando o custo do produto e mão de obra, descarte de leite e outros serviços envolvidos numa fazenda leiteira média.

Com base em estudos de simulação de custo: benefício, dentre este conjunto de medidas para controle de mastite, a desinfecção dos tetos após a ordenha (pós-dipping) é a que tem o maior efeito na redução da CCS do tanque e da incidência de mastite clínica, tanto para agentes contagiosos quanto para ambientais. No outro extremo, o uso de luvas durante a ordenha teve o menor impacto em ambos sobre a redução de incidência de mastite clínica causada por agentes contagiosos e ambientais. Em relação às demais medidas, houve grande variação da resposta em relação aos agentes ambientais e contagiosos, o que indica que é importante considerar as características especificas de cada fazenda para aplicação das outras medidas.

Foto: ABCZ

Considerando a análise de custo:beneficio, as medidas com retorno positivo em relação ao custo investido são: a) uso de terapia de vaca seca, b) lavar a unidade de ordenha com água quente (ou enxágue com solução desinfetante) depois de ordenhar vacas com mastite clínica; c) utilização de papel toalha descartável; d) manter vacas de pé após a ordenha; e) uso de luvas pelos ordenhadores durante toda a ordenha.

No dia a dia de uma fazenda leiteira, fazer uma avaliação de custo:benefício como rotina é uma atividade trabalhosa e complicada, pois muitos dos fatores que influenciam os custos e os benefícios são difíceis de ser controlados. Muitos produtores e técnicos tomam decisões baseados somente na eficácia de uma determinada estratégia, sem levar em consideração a relação custo:benefício. O mais comum é que medidas com maior eficiência sejam adotadas e aquelas que implicam maiores custos sejam evitadas. No entanto, a avaliação da relação custo:benefício pode revelar que as medidas com as maiores eficácias não são necessariamente aquelas com a melhor relação custo:benefício. Um exemplo bastante comum é o pós-dipping, cuja eficácia é indiscutível e bastante alta, mas não é geralmente classificada dentro das medidas com maior retorno em termos de custo:benefício. Por outro lado, o uso de luvas durante a ordenha, ainda que não apresente alta eficácia, é altamente vantajosa em termos de custo:benefício, pelo seu baixo custo de implantação.

Considerando a atual situação do controle de mastite no Brasil, na qual mais da metade dos produtores apresentam resultados de CCS do tanque > 400.000 células/ml, deve-se considerar como uma grande oportunidade que muitas medidas de controle simples e de baixo custo ainda não são largamente utilizadas. Estas medidas simples podem trazer retornos positivos tanto em termos de eficácia no controle de mastite quanto em termos de relação custo:benefício. Em grande parte, isso ocorre porque uma parcela dos produtores desconhece os benefícios de medidas simples de controle ou não obtém os resultados esperados em razão da aplicação inadequada, o que leva ao descrédito e abandono como rotina de manejo. Não se pode deixar de considerar que os benefícios das medidas de controle são maiores nas fazendas com maiores deficiências de controle ou que não aplicam qualquer tipo de prática de manejo para o controle e prevenção da mastite, do que naquelas em que a mastite já está controlada.

Relação das principais medidas de controle para avaliação da relação custo:benefício

 

  • Manter as vacas em pé por pelo menos 30 min, depois da ordenha
  • Reduzir superlotação das vacas nas instalações
  • Limpeza das baias duas vezes por dia e manter material de cama limpo
  • Ordenhar por último todas as vacas com mastite clínica
  • Ordenhar por último todas as vacas com CCS elevada (> 250.000 células/mL)
  • Utilizar papel toalha descartável para secagem dos tetos antes da ordenha
  • Lavar tetos sujos com água e secar antes de colocar a unidade de ordenha
  • Retirar os primeiros jatos antes da ordenha em todas as vacas
  • Uso de luvas pelos ordenhadores durante toda a ordenha
  •  Desinfecção dos tetos com produto para pós-dipping
  •  Depois de ordenhar uma vaca com mastite clínica, a unidade de ordenha é lavada com água quente antes do uso em outras vacas
  •  Depois de ordenhar uma vaca com mastite subclínica, a unidade de ordenha é lavada com água quente antes do uso em outras vacas
  •  Substituir teteiras de acordo com recomendação técnica
  •  Usar protocolo de tratamento de mastite clínica com veterinário e avaliação mensal dos protocolos empregados
  •  Tratamento de vacas secas em todas as vacas na secagem
  •  Adequada suplementação mineral para vacas secas
  •  Fornecer dieta balanceada para as vacas

 

Fonte: adaptado de Huijps et al, J. Dairy Sci. 93 :115–124, 2010.

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