A polêmica Heineken e a voz da pecuária

Pela primeira vez, os produtores respondem em bloco, no Instagram, o que consideram um ataque da empresa cervejeira ao setor

Neste final de semana (20 e 21/3), uma polêmica nas redes sociais contrapôs a Heineken, segunda maior cervejaria do mundo – com receita global de € 19,71 bilhões em 2020 – e os pecuaristas, grupo que pouco se manifesta nos ambientes digitais, em comparação a outros setores. Esta foi a primeira vez que os pecuaristas, em bloco, se posicionaram no grau visto depois que a notícia atingiu diferentes grupos de whatsapp.

No sábado 21, a empresa fez uma postagem sobre o consumo de cerveja, relacionando a data ao Dia Mundial sem Carne, instituída pela ONG norte-americana Farm (Fazenda), em 1985. A indignação dos pecuaristas foi imediata e como um rastilho de pólvora. Na manhã desta segunda (22/3), eram quase 16 mil manifestações no Instagram, rede na qual a postagem foi feita. (confira o primeiro post, abaixo)

No domingo, a empresa se manifestou, publicando sua posição e usando como imagem um corte de carne. Esta, também, foi a primeira postagem da página HeinekenBR, criada em novembro de 2011, a colocar o churrasco ao lado da bebida. Até o momento, foram 798 postagens no Instagram, página com 651 mil seguidores.

No Brasil, um dos principais mercados para a multinacional holandesa, a empresa tem em seu portfólio as marcas Heineken, Amstel, Baden Baden, Bavaria, Devassa, Eisenbahn, Glacia, Kaiser,Kirin Ichiban, No Grau, Schin, Sol e Xingu. (confira o segundo post, abaixo)

As hashtgs (palavras-chave para indexação) mais utilizadas foram #diamundialsemheineken e #churrascosemheineken. Na manhã de hoje, grupos de pessoas que têm a dieta vegana como princípio começavam a se manifestar, colocando a posição dos pecuaristas como algo desnecessário, fora do contexto e equiparando os produtores a haters (odiador, em inglês), que no mundo da internet denomina pessoas que postam comentários de ódio ou crítica infundadas.

“A Heineken tem que fazer um anúncio desmentindo esse daí. Dizendo que o churrasco é o maior companheiro da cerveja”, disse Carlos Viacava, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisadores e Criadores (ANCP).

A polêmica levantou entre os pecuaristas a necessidade de estruturas organizacionais representativas do setor, com todos os segmentos da cadeia, como ocorre na Austrália com o Meat and Livestock Australia (MLA), uma empresa de análise de mercado que atua em todos os elos e que tem uma forte presença no varejo com vistas no consumo da proteína. A discussão não é nova e retorna com esse episódio. A MLA atua fortemente como uma promotora da carne Australiana.

“Seria um sonho uma entidade única e focada na pecuária, a exemplo da Aprosoja. Vamos sonhar com uma ‘Aprocarne’’’, disse Adriano Barbosa, um dos principais leiloeiros rurais do País, no grupo de whatsapp RedeDBO.

Humberto Tavares, coordenador da Confraria da Carcaça Nelore, ainda cita a iniciativa norte-americana com esse propósito, a National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), com recursos dos produtores. Bob Sainz, professor da Universidade da Califórnia, em Davis, lembra que o Beef Checkoff, da NCBA, também detém um dólar por bovino comercializado. “Por lei, esse recurso só pode ser usado para promoção do consumo. Isso inclui estudos sobre sustentabilidade, qualidade de carne e até orientações sobre o preparo de pratos com carne”, diz Sainz. “Isso certamente ajuda muito na missão, ficando o complemento a ser arrecadado para girar a roda bem menor. E moraliza a função, evitando uso da verba para fins espúrios, reafirma Tavares.

De acordo com Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior, presidente da Associação de Criadores de Mato Grosso (Acrimat), a entidade poderia ajudar nessa tarefa com a sua expertise. “Temos 50 anos de existência. Representamos o Brasil na Aliança Internacional da Carne, onde os maiores exportadores têm suas associações nacionais”, disse ele. “Mas uma nacional seria bem vinda, com certeza. Somos muito pró ativos e combativos na defesa dos nossos interesses e estamos abertos para discutir esse tema.”

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