Atenção sanitária deixa frigoríficos de carne bovina em alerta constante

Indústria exportadora tem recebido atenção dobrada para que não ocorra paralisações por conta da Covid-19

Fiscalizações diárias e até de surpresa, além de um forte esquema de higienização e monitoramento constante da saúde dos funcionários. Esta tem sido a rotina, especialmente dos 265 frigoríficos de abate de bovinos habilitados à exportação, desde que o surto do novo coronavírus começou a atingir escala preocupante em meados de maio, em todo o País.

“Não sou de estar do lado dos frigoríficos, prefiro sempre estar do lado do produtor. Mas, desta vez, percebo o quanto este setor está sendo pressionado por todos os lados”, avalia o zootecnista Caio Rossato, consultor de pecuária e diretor executivo da consultoria PecBR, em Campo Grande (MS). “Desconheço se outro setor econômico está recebendo o mesmo tratamento no País.”

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Caio Rossato, da consultoria PecBR
Caio Rossato, zootecnista, consultor de pecuária e diretor executivo da PecBR, em Campo Grande (MS)

Desde março, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tem emitido relatórios mensais sobre as fiscalizações em unidades frigoríficas por conta da expansão da Covid-19. De fato, logo no início da pandemia as unidades de abate de bovinos foram as mais que mais causaram preocupação no setor de processamento de proteína animal.

Paralisações no setor

Em abril, começam a ocorrer as paralisações nas unidades de abate:  42 no total, sendo 31 de bovinos (73,81%) em nove Estados. O mais afetado foi o Mato Grosso, com dez unidades paralisadas e o segundo maior exportador de carne bovina no País. O Mato Grosso do Sul e Pará, tiveram seis unidades paralisadas.

Em maio, o relatório listou 47 frigoríficos paralisados, sendo 28 de abate de bovinos (59,57%) em 12 Estados, mais o Distrito Federal. Novamente, Mato Grosso despontou com cinco unidades paralisadas, seguido por Goiás e Pará, com 4 abatedouros paralisados cada; e Mato Grosso do Sul e Rio Grande Sul, ambos com 3 frigoríficos com operações interrompidas.

O mais recente, publicado no início de julho, mostrou que nove unidades tiveram as atividades paradas provisoriamente, das quais apenas 2 de bovinos  (22,22%), uma unidade de Rondônia e outra no Tocantins. O esforço foi conjunto para diminuir esses números.

Não são apenas empresas como as gigantes JBS, Marfrig, Minerva que estão empenhadas em mostrar suas ações para barrar a entrada do vírus nos frigoríficos. Empresas de médio e pequeno portes, como por exemplo o gaúcho Frigorífico Silva, também têm tomado medidas drásticas de atenção sanitária. Na avaliação de Rossato, as companhias estão fazendo o máximo que podem para manterem-se distantes da Covid-19.

“Para atenderem as normas, as empresas tiveram de reduzir seu quadro de funcionários e capacidade de abate”, diz Rossato.

A queda da capacidade pode chegar até a 30%, na opinião do zootecnista. Uma unidade que antes matava 700 bovinos por dia, passou a abater 490 por dia. Unidades de abatiam mil, reduziram para 700 animais, diariamente.

Mais carne para fora

A dedicação tem um nome: dólar alto. Como boa parte dos abates estão sendo direcionados para o mercado externo, as consequências de uma planta exportadora comprometida por surtos de Covid-19 poderia trazer prejuízo à empresa. Os frigoríficos exportadores, nesse momento, estão mais expostos.

No ano passado, o rateio da produção de carne foi de 77,31% para o mercado interno, 6,35 milhões de toneladas, e 22,69% para as vendas externas, com 1,86 milhão de toneladas. A tendência é que essa balança pese cada vez mais para o lado exportador. A corrida pela exportação, nos últimos anos, mostra o peso que as vendas externas. A fatia dessas vendas saltou de 17,8% da produção nacional em 2011, para 27,1% até o final deste ano, de acordo com as previsões do Anuário da Pecuária Brasileira 2020 (AnualPec), publicado pela IHS Markit.  Segundo Rossato, o dólar alto é que está segurando as contas da indústria, especialmente para cobrir o custo da queda de produção.

Oferta reduzida de gado pode forçar uma tendência de maior volumes dedicados ao mercado exportador, em função da alta do dólar

O fato é que, embora a oferta de gado pronto para o abate não seja das melhores para a indústria, o mercado anda bem, segundo avalia Rossato. O Brasil bateu recorde de exportação no primeiro semestre do ano. De janeiro a junho foram 907,57 mil toneladas comercializadas por US$ 3,93 bilhões. O crescimento em volume foi de 9,27% sobre o mesmo período do ano passado, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Até o final do ano, a previsão é que as exportações chegue a 8,7 milhões de toneladas, segundo a IHS Markit. A China, a maior cliente da carne brasileira, deve contribuir com uma fatia gorda e crescente. No primeiro semestre, o país asiático negociou US$ 1,84 bilhão por 364,67 mil toneladas, 40,18% do total de carne exportada pelo Brasil.

Desde 2016, o chinês passou a consumir mais a carne bovina brasileira, configurando em 3º entre os cinco países que mais compraram a proteína animal brasileira. Em 2019, a China passou a ser a maior importadora, seguido por Hong Kong, Egito, Chile e União Europeia.

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